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A Arte de Garimpar Preciosidades Musicais
A Arte de Garimpar Preciosidades Musicais

 

A ARTE (E O NEGÓCIO) DE GARIMPAR PRECIOSIDADES MUSICAIS

 

Trabalho de curadoria tornou-se essencial em época a de oferta abundante de conteúdo em plataformas de streaming e YouTube – abrindo espaço para empresas que criam playlists e fãs que resgatam músicas antigas.

 

Houve um tempo em que a maior dificuldade de um ouvinte consistia em encontrar seu disco desejado em uma loja próxima.  Hoje, as agruras têm mais a ver com se achar em meio à avalanche de conteúdo, separar o joio do trigo e conseguir relaxar com a frequência enlouquecedora de lançamentos.  Nesse ambiente, tornam-se cada vez mais necessários profissionais (ou amadores) que se dedicam a mergulhar nesse mar de conteúdo para sair de lá com o que há de melhor, empacotar essa produção e, por vezes, buscar antiguidades esquecidas e as trazer para o moderno mundo do streaming.  São os garimpeiros musicais.

 

É o caso de empresas gaúchas como Bananas Music Branding e Trail Blazer Sounds, que, cada uma a seu estilo, fazem esse trabalho de curadoria.  Se a primeira foca em criar identidades para marcas e lojas por meio da música, a segunda funciona quase como uma revista, apresentando novidades em playlists temáticas.  Ambas disponibilizam tudo em seus sites e perfis nas plataformas de streaming – algo essencial para sobrevive r no mercado, avalia Carlos Harres, um dos criadores da Trail Blazer Sounds.

- Essas plataformas são sensacionais para descobrir música, e isso democratiza o acesso a uma quantidade absurda de sons. Com todas as possibilidades de descobrir coisas novas, aquele discurso de que não existem mais bandas boas não se sustenta – destaca Harres. – Nesse universo, é cada vez mais importante ter curadores que te norteiam, porque é muito fácil ficar perdido.

 

Até por isso, ter sua música nos serviços de streaming virou quase obrigação para quem quer ser escutado.  Quem pesquisa o assunto calcula que a próxima geração de ouvintes já deve passar a ignorar artistas que não sejam acessíveis virtualmente – é o ônus de uma tecnologia que se torna hegemônica, como é o caso do YouTube para os vídeos.

- Para o ouvinte, vamos definir assim, médio, realmente, essas bandas vão desaparecer.  O que é bem preocupante – prevê a DJ e jornalista Juli Baldi, uma das criadoras do Bananas Music. – O Spotify, dentro de suas características, é o novo rádio e cumpre a função de tocar as bandas.  A banda gaúcha Dingo Bells, por exemplo, tem uma música com 400 mil plays no Spotify.  Que rádio tocaria Dingo Bells para 400 mil pessoas?

 

No caso de bandas antigas é um pouco mais complicado, mas há quem faça desse resgate praticamente uma missão de vida.  É o caso da 180 Selo Fonográfico (que acaba de relançar digitalmente CARTEIRA NACIONAL DE APAIXONADO, estreia solo de Frank Jorge, de 2000) e de Fernando Rosa, o Senhor F, uma das figuras mais importantes da cena roqueira do Estado a partir da década de 1990.

 

Senhor F sempre usou seu site para agregar e organizar conteúdo de bandas novas e antigas daqui – atualmente, o curador tenta arrumar patrocínio para por em prática seu projeto de digitalizar mais de mil CDs independentes gravados entre 1998 e 2013, e outros 400 singles, fitas demo e EPs.

 

Algo semelhante faz a turma do Relicário do Rock Gaúcho: na fanpage do Facebook e no canal do YouTube, os cinco amigos disponibilizam vídeos e áudios obscuros da música gaúcha, que vão desde a primeira gravação de NÃO ME MANDE FLORES, com a banda Urubu Rei, até um disco completo do Grupo Musical Jerusalém, nome pelo qual respondia a Vídeo hits antes do primeiro CD.

- O que vejo hoje é algo comparável ao que vivi nos anos 1980, em que tudo era alternativo.  Até uma rádio era um veículo alternativo, porque não era mainstream.  Hoje é diferente apenas a forma como se faz, mas a atividade em si continua igual, ou até melhor.  Daqui a uns 20 anos, vamos estar olhando o YouTube nos óculos, em holograma, alguma coisa assim, tocando NEGA (vamos pra Boston), do Urubu Rei, em alto-falantes wi-fi na José Bonifácio – brinca Reinaldo Portanova, usando como exemplo uma das pérolas que disponibiliza em seu canal.

 

PORTO ALEGRE VIBEZ

De Wander Wildner a Apanhador Só, esta lista de 15 músicas assinada por Carlos Harres pela Trail Blazer Sounds faz uma viagem pelo pop rock porto-alegrense dos últimos 30 anos, com clássicos de Nei Lisboa e Jupiter Maçã, por exemplo.

Ouça em:  https://play.spotify.com/user/1270723641/playlist/6khXOi6lOkxg2V9hBpjY21

 

RELICÁRIO DO ROCK GAÚCHO

Canal do YouTube que reúne pérolas da produção gaúcha entre 1970 e 1990.  Há gravações raras de Taranatiriça, DeFalla, Nelson Coelho de Castro e Charles Master, entre outros.

Confira em:  https://www.youtube.com/user/portanovablogbr/videos

 

Fonte:  ZeroHora/Gustavo Foster / gustavo.foster@zerohora.com.br em 03/10/2016