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A Arte num Mundo sem Atravessadores
A Arte num Mundo sem Atravessadores

A ARTE NUM MUNDO SEM ATRAVESSADORES

 

Se a obra e a pessoa do mexicano José Miguel González Casanova – no Brasil desde agosto (2015) para um ano de convivência com as influências nacionais – pudessem ser resumidas em uma única palavra da língua portuguesa, esta seria “troca”, que em espanhol significa cambio.  Há de concordar quem, no início de outubro, acompanhou a visita de José Miguel, artista e professor de Desenho da Escola Nacional de Artes Plásticas da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), a Porto Alegre.  A convite do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ele trouxe à Pinacoteca Barão de Santo Angelo a exposição VISIONÁRIO, NOVELA GRÁFICA, narrativa visual da viagem de um personagem que parece buscar a consciência, entre outras coisas, em sua interação com o mundo.

Em palestra aberta ao público, relatou a experiência recente de uma estratégia econômica idealizada por ele para encurtar o caminho entre os produtores culturais e os consumidores: a Cooperativa Autónoma de Comercio Artístico de Obras (Cacao), com edições vitoriosas em novembro de 2013, no Museo Universitário del Chopo, na Cidade do México, e em m aio de 2015, em Oaxaca.

 

 

“O modelo que vincula produtor e consumidor já está em andamento no mundo e a internet tem um papel fundamental nisso, como agente que nos permite vender produtos a larga distância.  A primeira edição de Cacao se deu depois de um processo de seleção iniciado com 11 projetos e que chegou a cem projetos culturais, incluídos em critérios artísticos, estéticos, pedagógicos, sociais e ambientais.  Tivemos projetos de desenho nas áreas gráfica, de moda, projetos de alimentação, de música e editoriais.  Tudo que não fosse obra única e pudesse ser reproduzido, e que se encaixasse em valores que considerei ideais: consciência na produção, sem explorar o homem ou a natureza; crescimento num comércio justo; criação solidária; obras geradas em processos educativos e que não fossem frutos do desperdício”, explica.

O resultado, colhido em três semanas de exposição, chegou a R$ 200 mil divididos entre os produtores.  Para José Miguel, contudo o ganho foi muito maior que o financeiro.  Entrou na contabilidade a “troca” ou o cambio envolvido na iniciativa.  “Ressuscitamos o cacau, a semente do chocolate, usada como moeda pelo povo asteca.  Os interessados em produtos da feira podiam empenhar horas de seu trabalho, por cédulas de cacau (um bilhete para cada hora) e pagar com esse dinheiro solidário pelos artigos que quisessem comprar”, disse José.  Alguns produtores aceitavam 100% do pagamento em horas de consultas médicas ou corridas de táxi, tornando o comprador um personagem ativo no processo de produção artística.

 

 

A segunda edição da Cacao, realizada em Oaxaca neste ano, teve suas dificuldade, segundo José Miguel, em decorrência da dependência que os participantes desenvolveram de seu trabalho de organização.  “Conseguimos integrar produtores locais e isso é alentador, poder juntar forças como novos artistas a cada cidade que a feira seja empreendida.  Essa aglutinação diminuindo o poder do intermediário que lucra de forma abusiva, o que é característico do capitalismo”, encerra o professor, que até o final do primeiro semestre de 2016 está estabelecido no Rio de Janeiro, cidade que, garante, ganhou seu coração, pela beleza e pelo calor.

 

NO CAPITALISMO, SEM DINHEIRO

José Miguel está licenciado por uma ano de suas funções acadêmica na Unam.  Conquistou uma bolsa para fazer no Rio de Janeiro uma investigação que busca compreender, se não for possível comprovar, como se pode viver bem no capitalismo sem ter dinheiro.  Sua intenção é reunir saberes práticos na administração de necessidades básicas como saúde, educação, moradia e cultura, com pouca, ou nenhuma participação do dinheiro.  Parece impossível?  José diz que não:  “Podemos fazer isso pelo intercâmbio, pelo trabalho solidário, pela reciclagem”.

 

 

A escolha do Brasil, segundo o artista, se deve as semelhanças antropológicas que ele vê com seu país, o México.  Encontra entre as duas nações a alma colonizada, pelos espanhóis no caso mexicano, e pelos portugueses no caso brasileiro.  Vê uma pequena vantagem em  iniciativa entre os mexicanos, mas rende-se a sua relação com a brasilidade, de mais de 20 anos, desde quando frequentava churrascos em Porto Alegre ensinando aos gaúchos o mais famoso molho de mexicana, o que lhe render o apelido de “traficante de guacamole”.

 

OS PROJETOS

VISIONÁRIOS, NOVELA GRÁFICA

A exposição está editada em um livro, que não tem valor monetário.  Os interessados em uma edição devem dar como pagamento um outro livro, que proporcione a abertura de pensamento e o vislumbre do futuro.  Estas vão formar uma biblioteca visionária a ser disponibilizada pelo artista.

BANCO INTERSUBJETIVO DE DESEOS

É um domínio virtual (www.bid.com.mx) no qual o “correntista”, após poucas perguntas pode depositar três desejos, relacionados a questões familiares, amorosas, de relacionamento.  O saldo é convertido em estatística e estímulo à vontade coletiva de realizar.

SEMINARIO DE MEDIOS MULTIPLES

(www.mediosmultiples.mx) – Projeto educativo desenvolvido nas dependências da UNAM, mas sem ligação formal com a instituição.  Criado há 13 anos, seleciona a cada três 50 candidatos a artistas que apresentam suas propostas criativas e recebem a orientação do professor González e mestres convidados, sem ônus.  Dez alunos costumam finalizar os estudos, numa seleção natural de interesse e aptidão.

 

Fonte:  Correio do Povo – CS Caderno de Sábado/Nereida Vergara em 17 de outubro de 2015.