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A Escola e o Museu, de Jorge Larrosa
A Escola e o Museu, de Jorge Larrosa

A ESCOLA E O MUSEU

 

Um equipamento artístico comunica e pode servir ao aprendizado, mas não é uma escola, defende educador espanhol que falará sobre o tema na Fundação Iberê Camargo.

 

Há uma frase do artista conceitual germano-uruguaio Luis Camnitzer (também responsável por criar a figura do curador pedagógico, inaugurando-a mundialmente na 6ª Bienal do Mercosul, em 2007) que tem feito sucesso entre artistas e educadores. Ela tem sido exposta nas fachadas de museus de todo o mundo. Diz assim: “O museu é uma escola. O artista aprende a se comunicar, o público aprende a fazer conexões”.

 

A frase me incomodou profundamente desde a primeira vez em que a vi, no MAM-SP. Ela faz sentido, é claro, porque pensa a educação como comunicação e como aprendizado. Seu sucesso está na maneira como enquadra a função educativa do museu, transformando a arte em algo que tem a ver com o conhecimento. Mas também é claro, paralelamente a isso, a maneira como subverte a educação escolar. A escola, assim eu penso, não tem a ver com a aprendizagem, e sim com o estudo; o que o professor faz não é comunicar, mas despertar o interesse, disciplinar a atenção e abrir horizontes ao aluno. A urgência não é tornarmos a escola mais artística, mas mais escolar.

 

Talvez eu concordasse com Camnitzer em muitas coisas se estivéssemos falando sobre o que é a educação – algo que também se dá em um museu. Eu, como Camnitzer, penso que a educação não tem a ver com a domesticação nem com a socialização, mas com a formação de cidadãos livres, críticos e questionadores, que não consiste na transmissão de saberes fossilizados, e sim na promoção do pesamento. Mas certamente eu não concordaria com ele se estivéssemos falando sobre o que é a escola, especialmente se a conversa não se centrasse em sua função (o que a escola faz ou deveria fazer), mas em sua forma, ou seja, na maneira como coloca em relação certos espaços, tempos, materialidades, assuntos e atividades.

 

Nem o espaço nem o tempo escolares são os do museu, nem as coisas que são feitas em uma escola são as mesmas que são feitas em um museu., nem os alunos são o público (e vice-versa). Algo sobre isso já está registrado no livro ELOGIO DA ESCOLA, a partir de seminário realizado há dois anos em Florianópolis. E é tratado nos dois livros meus que estão sendo lançados no Brasil: P DE PROFESSOR e ESPERANDO NÃO SE SABE O QUÊ (sobre o ofício de professor). Também é o tem do curso que vou ministrar na Fundação Iberê Camargo a partir de sexta-feira (aconteceu em início de outubro)

 

O título desse curso é A Escola e o Museu, o Professor e o Mediador. Eu gostaria que se interessassem tanto as pessoas que trabalham em (ou com) as escolas quanto as pessoas que trabalham em (ou com) os museus, tanto os professores da escola quanto os mediadores educacionais de museus. Para sugerir o que vou tentar fazer: é quase como um exercício de pensamento (daqueles em que Camnitzer é um mestre), no qual proponho uma série de frases que convidam você a continuar, emendando uma na outra. A intenção é mostrar que muitas coisas são aprendidas no museu, mas o museu não é uma escola; muitas coisas são aprendidas na televisão, mas a televisão não é uma escola; muitas coisas são aprendidas nas gangues de traficantes, mas essas gangues não são uma escola.

 

Nas compras, você aprende muitas coisas, mas um shopping não é uma escola. Muitas coisas são aprendidas na fábrica, mas a fábrica não é uma escola. Transcrevo aqui também o início de um exercício que fiz na Unisinos, em um curso que ministrei no ano passado: o professor não é um comunicador, o professo não é um mediador, o professo não é um treinador, o professor não é um facilitador da aprendizagem, o professor não é um pai (ou mãe), o professor não é um amigo, o professor não é um líder, o professor não é um conselheiro espiritual, o professor não é um conselho emocional… E assim por diante. Essa continuidade é um exercício de pensamento.

 

Mas o que de fato me incomodou na frase de Camnitzer, aquela com que este texto se iniciou, é que ela está contribuindo, talvez com o pesar de seu autor, co a destruição da escola e do professor. Com a destruição dos princípios que tornam uma escola uma escola e não outra coisa (um museu, uma empresa, uma igreja, ou um shopping) e um professor, um professor (e não outra coisa, como um mediador, ou comunicador, ou artista, ou facilitador da aprendizagem).

 

 

Fonte: Zero Hora/Caderno DOC/Jorge Larrosa (Professor de Filosofia da educação na Universidade de Barcelona) em 30/09/2018.