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A Fama é Chata
A Fama é Chata

A FAMA É CHATA


De uns tempos para cá, a fama se tornou um bem em si. É imenso o número de garotos que sonham em ser jogadores de futebol. Garotas, modelos. Todos, estrelas da televisão. Num país onde nem sempre um diploma universitário garante um salário decente, a fama rápida torna-se um meio de ascensão. Há histórias de pessoas que brilham por algum motivo e ganham para fazer presença VIP em festas, camarotes de Carnaval. É inegável. Há um mercado de eventos e publicidade sólido para famosos. Mas é para poucos. Esses poucos sofrem!


A fama é também uma espécie de para-raios para gente doida ou no mínimo sem educação. Eu não me considero a pessoa mais famosa do país. Mas tenho um certo nome. Há algum tempo estava no aeroporto falando no celular. Uma senhora pediu para fazer uma foto. Fiz sinal que sim. Pedi que esperasse o término da ligação. Furiosa, ela me xingou e saiu andando. Queria que eu desligasse no ato! Na recente festa de VERDADES SECRETAS, eu havia operado a boca fazia quatro dias. Mal podia falar, mas atendi os jornalistas, sentado numa mesa num canto. Bem, em certo momento, precisei ir ao toalete. Urgente. Um amigo me ajudou a atravessar a festa, fiz várias fotos sorrindo. Um jornalista se aproximou, pediu uma entrevista. Expliquei:

- Eu preciso ir ao lavabo. Na volta.

Voltei. Ele não apareceu mais. Mais tarde, publicou uma matéria falando da minha antipatia e que usei um “pretexto” para não lhe dar a entrevista. A antipatia concordo: com a boca operada não conseguia sorrir. Meu caso é simples. Há atrizes que ficam famosas da noite para o dia. Mas não têm grana. Pegam ônibus. É uma revolta dos passageiros:

- Mas atriz pega ônibus?

Para atores, a mais terrível invenção da humanidade é o celular que fotografa. Quanto mais famoso, mais pedidos. Mas quem sabe tirar, realmente?

- Ih, não saiu boa. Vem fazer de novo.

E o famoso fica sorrindo. Se está com pressa, de novo os comentários:

- Antipático.

Resultado. Os famosos se refugiam entre eles mesmos. Mesmo assim, sofrem. Há o caso de uma atriz que entrou com processo porque botaram uma grua para observar seu apartamento. De mim já inventaram as mais variadas histórias. Até que fui acompanhado para uma ilha que nem sei onde é. Surgem amigos do ar. De repente ligam, perguntando se tenho novidades. Se tenho, no mesmo dia passam para alguma coluna de fofocas, e sai alguma coisa distorcida. Não necessariamente por culpa do jornalista, mas do informante. Outro dia jantei com um amigo meu, também autor. Ele sofre o mesmo que eu. Não importa aonde a gente vá, brota um candidato a astro ou estrela. É a filha da vizinha, a sobrinha. Se vou a festinha de criança, alguém me pega para saber o que vai acontecer na novela. Ou para apresentar um jovem talento. Aconselho:

- Deixe seu filho crescer, saber se é isso mesmo que ele quer.

- Mas ele dança, canta, imita, é uma graça!

E toca a ouvir elogios. Só que a questão é óbvia. Não existe mercado nem aqui nem em Hollywood para tal profusão de talentos. A fama é para alguns escolhidos sim, pelo talento, mas também pela sorte, destino, tipo físico. Melhor ainda: estar no lugar certo, na hora certa. E o problema que as pessoas não percebem é que eu, por exemplo, assim como qualquer autor ou atriz, não pertenço ao departamento de contratações da emissora. Sou uma pessoa numa festa, querendo rir também, me divertir e comer um pedaço de bolo se for aniversário. Mas consigo chegar até o bolo? No Facebook recebo dois, três pedidos por dia. Eu explico: aqui é só para falar com amigos. E, falando em para-raios de chato, não é só pedido para ser ator ou atriz. Tem gente que quer mudar para minha casa, porque precisa de lugar para morar. Mas que eu nem conheço. Da cidade onde nasci, recebi uma cartinha pedindo para consertar um telhado.


Eu falo de mim, que nem tenho um rosto tão popular. Imagine uma atriz bonita. Leva cantada no avião. Nas festas. Na frente do marido. Ouve propostas indecentes. E por trás dizem que ela é mais feia ao vivo que na telinha. Ou cafona. E sempre, a não ser que ela se comporte o tempo todo como político em eleição, de antipática. Se quiser ser gentil terá de ouvir as desgraças do mundo, para as quais não tem solução.


É o que disse no início. A fama é para-raios de chato. É algo que muitos desejam. Mas que só vale a pena quando alguém tem real vocação para ser ator, artista, escritor. Tudo fica tranquilo quando a gente faz o que ama.


Fonte: Época/Walcyr Carrasco (jornalista, autor de livros, peças teatrais e novelas de televisão) em 22/06/2015.