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A Grandeza do Tempo
A Grandeza do Tempo

 

                                  A Grandeza do Tempo

 

       Olho a minha imagem diante do espelho. Sou histórias. Vida. Como serei daqui a alguns anos? Viverei o suficiente para ver o mundo melhor, ou serei engolida pelo tempo, ainda que este nunca se finde, porque sei que eu findar-me-ei no encanto de qualquer hora. Perscruto-me na minha própria clausura. A das horas, nas quais me escondo de mim mesma. Invento histórias e sorrio risos de alegrias, tudo para enganar o tempo. Mas ele passará e os anos se estamparão na minha cara. Meu Deus! Esse processo já começou e nem me dei conta...

 

       A cultura enaltece o corpo, a beleza, a agilidade, as inovações... O antigo – seja de que natureza for – Resvala em inutilidade. Que pena! Tornar-me-ei inútil. Juntar-me-ei aos que, corajosos, professam a palavra de ordem – desafio. E a sabedoria? Nenhuma voz se levanta a seu favor. “Ao envelhecer nos tornamos mais loucos e mais sábios”, segundo Rochefoucauld. E assim a história de cada um se traduz em mero e dispensável acessório. Não é preciso insultar a velhice, já que todos nós desejamos alcançá-la.

 

       Já fui jovem e ostentei o troféu da eternidade... Grande ilusão. Agora começo a catar lembranças para o meu inventário. De valor tenho os sonhos. Quem os vai querer? Se nem eu mesma sei o valor de cada um. Sonhei. Bastou-me isso para sentir-me grande. Hoje vejo meus olhos cansados, mas com a certeza da direção do olhar. Os caminhos do tempo vão deixando vincos aqui e acolá. Esta ciranda da vida da qual ninguém escapa torna-nos invisíveis, os horizontes se empobrecem e somos mais um alguém a contar histórias... Só.

 

       E como Cecília Meireles eu converso com o meu espelho: “Eu não tinha esse rosto de hoje, / assim calmo, assim triste, assim magro, / nem estes olhos tão vazios, / nem o lábio amargo./ eu não dei por esta mudança,/ tão simples, tão certa, tão fácil:/ - Em que espelho ficou perdida / a minha face?”

 

       E assim, consciente da minha (re) evolução física e interior, eu me transcendo à invisibilidade do tempo, ao qual eu reverencio respeitosamente. Faço-me reticente por momentos, mas logo me dou conta que urge viver. Quero amores e sonhos mais, enquanto posso, ainda, realizá-los. Dane-se o tempo, eu agora sou mais importante que ele. Que venham os anos, pois caminharemos juntos. Viverei, até que o meu inventário seja aberto... O que deixarei no meu inventário? Palavras. É tudo o que disponho.

 

Lígia Beltrão

 

21/02/2015

22h 13min