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A Mulher
A Mulher

 

A mulher

 

Ela se arruma toda, com esmero, se olha diante do espelho, fica satisfeita com o que vê. Tem um encontro. Mulher indefinida na fronteira do amar, tal um botão de rosa com medo de desabrochar. A efemeridade do acaso faz nascer um amor. Inexplicável amor, que se abre em pétalas nas horas do existir. Nebulosas noites de segredos guardados dentro de si, inconfessáveis pela vulnerabilidade do ser.

 

Seus seios rijos pedem carícias que não veem. Entre sussurros inaudíveis há o eco de desejos tantos... Olha-o... Parece um pouso da eternidade, na languidez da sua sensualidade. O excesso de olhares faz o momento cálido. Ela é, agora, uma rosa a debulhar-se em pétalas perfumadas.

 

As insinuações do momento fazem promessas ao tempo. O vento assobia nas planícies floridas dos sonhos de ambos, canção intermitente de amor. Tem arrepio de êxtase. A vida se eterniza em fôlegos no instante supremo. Quer tocar seu amor. É tudo tão real! No entanto, há algo esfumaçado no instante. Ela respira a sua solidez silenciosa elevando-se à imaterialidade da transcendência.

 

Exibe-se involuntariamente a mulher que o homem vê. O corpo exposto que não foi tocado, mas foi amado. Dois corpos separados por um elo profundo. Olhares intensos. Um mínimo de tempo lhe rende o espaço da eternidade. Esconde-se dentro de si mesma. Ela se argui de sibilar a renúncia a esse amor. Seria dolorido demais. Uma história perdida. Quer tocá-lo, mas tocar a quem se ama será que não é um jeito de macular o “perfeito”? Fecha os olhos e viaja nos sonhos do anoitecer. Precisa preparar a solenidade da despedida.  Lembro o poema de Miguel Torga, com um estranho sentimento a essa mulher que se doa sem medidas, e o leio e releio para meu coração:

 

Súplica

 

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,

E que nele posso navegar sem rumo,

Não respondas

Às urgentes perguntas

Que te fiz.

Deixa-me ser feliz

Assim,

Já tão longe de ti como de mim.

 

Perde-se a vida a desejá-la tanto.

Só soubemos sofrer, enquanto

O nosso amor

Durou.

Mas o tempo passou,

Há calmaria...

Não perturbes a paz que me foi dada.

Ouvir de novo a tua voz seria

Matar a sede com água salgada..

 

É um paradoxo quase inexplicável o que lhe acontece. Ela entende a sua vulnerabilidade com o tempo. Fecha os olhos e dorme. A solidão faz-lhe companhia, apesar das noites serem de sonhos. Sorri. Mesmo sem estar acordada, pois seu coração dá-lhe avisos inconscientes. Em algum lugar da terra alguém também pensa nela e sente a mesma coisa. Um novo tempo há de vir. O tempo para amar!

 

 

Lígia Beltrão