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A Peça
A Peça

 

                                            A Peça

 

       O tempo havia corrido. As lembranças eram muitas e a maior parte delas perdia-se no meio do caminho. Tinha desejos ocultos guardados dentro do peito, que fechara a sete chaves. Tanta coisa aconteceu na sua vida. Tantos sonhos adormeceram com medo de mostrarem-se. Fez-se de durona para aguentar os trancos da sua existência. Foi mil vezes ao inferno e voltou refeita. Vestiu-se numa armadura de sentimentos fortes, para suportar as pedras do caminho. Afogou-se em desesperos e submergiu de águas profundas e turbulentas. Era só uma mulher. Uma mulher que sonhava ainda. Carecia dos sonhos para sentir-se viva. E sonhava...

       Vestiu-se na pele daquela adolescente que fora, em seu coração não faz tanto tempo assim. Relembra os momentos passados. Abrira a gaveta das recordações, aquela, a qual havia fechado com a chave dourada do esquecimento, mas era preciso cutucá-la de quando em vez. Reparar pedaços partidos e jogados de qualquer jeito, como se a vida não fosse importante. Rupturas inesperadas e indesejadas maculam de dor os sonhos que se atrevia a sonhar. As recordações embalam o coração abarrotado de destroços das noites e dos dias que viveu. Rememora sonhos. Escuta aplausos.

       Queria escalar montanha, atravessar rios e voar... Por que não era alada? Por que não tinha a coragem das feras indomáveis para segurar a própria vida, deixando-se dominar pelo desespero do não pode, ou não deve... Mas de repente se dá conta de que pode e deve. Escreve. Coloca pra fora as ideias que martelam sua cabeça. Mostra a sua professora de português e admirada ela lhe diz:

- É uma peça! Uma linda peça de teatro!

Olha-a surpresa. O coração dá saltos de felicidade.

- Acha que posso ensaiá-la e encenar no teatro da cidade? – pergunta comovida -.

- Claro que sim. Darei todo o suporte necessário. Vamos encenar esta peça. Será a primeira de muitas que com certeza escreverá.

       Assim foi feito. Atores escolhidos. Peça ensaiada. Correria danada... Tudo pronto. O dinheiro dos ingressos, após serem pagos os gastos, seria para ajudar na festa de formatura da sua turma do colégio. Chegou o grande dia de a peça ser encenada no teatro da cidade. Seu coração não acreditava naquela dádiva. Seu sonho estava se realizando. Seria uma grande escritora! Ah! Seria... Escreveria muito, peças, romances, poemas e ficaria famosa. Sonhava alto. O público, de pé, aplaudia entusiasticamente. O teatro estava lotado. Era a glória! Tinha só quatorze anos. Saiu dali consagrada. Mas...

       O palco do teatro passou a viver no seu passado. Foi escrever a própria história e encená-la no palco do mundo. Nunca mais escreveu uma peça. Lembrou uma grande frase que havia lido num livro e pensou nela. William Shakespeare disse:

O mundo é um palco. E homens e mulheres, não mais que meros atores. Entram e saem de cena e durante a sua vida não fazem mais do que desempenhar alguns papéis.”

       Era verdade. A cortina fechou-se... Para sempre? ...

 

 

       Ainda hoje os aplausos ecoam em seus ouvidos.

 

Lígia Beltrão

 

19/04/2014

01h 38min