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A Romaria Moderna
A Romaria Moderna

Vista panorâmica do Santuário de Nossa Senhora da Piedade

 

A ROMARIA MODERNA

                                                                               

       Era a romaria tradicional e secular a Nossa Senhora da Piedade, em Ribeira de Tábuas - Miranda do Corvo – Portugal. Lá fui eu, sem saber o que realmente encontraria, pois romaria para mim era outra coisa. Tal não foi a minha surpresa, quando entrei naquele salão para o almoço e me deparei com mesas imensas, onde as pessoas comiam em comunhão, numa tremenda algazarra. Festejavam num ritual, digamos moderno, o que eu estava acostumada a ver como veneração a algum santo, coisa que já quase não existe mais, e tudo era diferente do que eu conhecia. Tudo mudou. Não sei se para melhor, ou se tudo é só diferente, mas o certo é que com o passar do tempo, só os idosos mantém as tradições, pois os mais jovens estão preocupados com as coisas do seu tempo, como acontece em todo o mundo.

      

       Achei que estava invadindo o espaço dos outros, mas não, era realmente uma mesa comunitária, onde as pessoas mesmo sem se conhecerem, dividiam o espaço e celebravam juntas, em perfeita união. Mais uma lição do antigamente dessas terras, que eu aprendia encantada, com o novo descortinando-se para mim. Naquela mesa imensa eu observava as pessoas ali sentadas. A mulher com o seu colar de pérolas entrançado com outras pérolas negras e os dedos cheios de anéis mostrava-se vaidosa. O senhor de grandes óculos, com cara de avô bonachão contando causos alegres e as raparigas (moças novinhas) rindo-se timidamente com as suas brincadeiras.

      

       A viúva com cara de chorona e o guardanapo colocado no pescoço, como se fosse babador de bebê, e que, descaradamente pegou a nossa garrafa de vinho e encheu o seu copo, depois de ter entornado a sua garrafa completamente. E a viúva tradicional, toda de preto, com duas enormes alianças de ouro no dedo anular, sendo ajudada por uma neta a por o casaco nos ombros. O casal jovem que se olha todo o tempo, enquanto a mãe deste, típica mãe portuguesa, mas igualzinha a todas de qualquer lugar do mundo, contrariando a sua vontade e debaixo de negativas veementes, tenta lhe empurrar um bocado de arroz doce, sob o olhar da nora risonha, como se ele fosse ainda uma criança.

      

        E aquele senhor sentado diante de mim, que ao reparar na bela rapariga loira, que se senta à mesa à frente olha para o outro que está ao seu lado e diz-lhe: -“para dar conta dessa aí é preciso ser muito homem...”-, ao observar que eu, atenta, ouvira tudo, ele fica perturbado e seus belos olhos azuis riem alegremente. Todos comendo gulosamente o sarrabulho português com batatas. Mais adiante, alguém parte um melão para distribuir aos seus, como sobremesa. Lá fora a música ecoa pelas serras fazendo o vento requebrar e sussurrar alegria. O mundo parece comungar do instante.

      

        Dentro da pequena igreja, entro como se ouvisse o suspiro do Cristo mutilado. A história do lugar mexe com o meu coração. Lá está uma placa onde conta-se que em 1998 o fogo a tudo devorou e após ser combatido ferozmente, entre as cinzas estava o Cristo. Do seu altar, exatamente como foi resgatado, queimado e sem braços, ele saúda a todos e pelo jeito ouve os pedidos do povo, visto a quantidade de oferendas ali expostas em agradecimento as Graças alcançadas. Esses, com certeza, são o povo português. Um povo simples, que se senta a mesma mesa e come do mesmo pão, apesar da hierarquia herdada. As mãos calejadas da lida diária e um coração maior do que eles mesmos mostram a certeza de que podemos nos levantar após uma sofrida queda. Um povo que, por mais dura que lhes sejam o tempo e a vida, caminham em direção ao amanhã e carregam dentro de si, o céu.

 

  

 

     Lígia Beltrão

    12/09/2016