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Aquarelas do Brasil/Contos da nossa Música Popular
Aquarelas do Brasil/Contos da nossa Música Popular

LITERATURA COM TRILHA SONORA

 

Em versão ampliada, volta às livrarias antologia de contos que tem como pano de fundo a música popular brasileira.

 

AQUARELAS DO BRASIL – CONTOS DA NOSSA MÚSICA POPULAR de Flávio Moreira da Costa, Editora Nova Fronteira, 318 páginas.

 

Semanas atrás escrevi sobre UM HOMEM CÉLEBRE, conto de Machado de Assis sobre o pianista Pestana, inspirado criador de polcas dançantes, apreciadíssimas pelo público (principalmente o feminino), mas que ele fazia a contragosto, desejando mesmo ser um autor erudito, no que fracassou, apesar das tantas tentativas. O conto abre AQUARELAS DO BRASIL, antologia sobre a presença da música na literatura organizada por Flávio Moreira da Costa. Lançado originalmente em 2005, o livro retorna em segunda edição revista e ampliada, com sete novas histórias. De Machado (1839-1908) ao também carioca Sérgio Sant’Anna (1941), são 33 contos de 24 autores e leitura saborosíssima.

 

Mesmo presença dominante em vários textos, como esse de Machado, a música não é o tema principal mas o pano de fundo da maioria. Os sujeitos dos contos são o Brasil e o povo brasileiro ao longo de mais ou menos 150 anos, a partir da metade do século 19. Então, o que temos é também um resumo vivo, com cores e sons reais de nossa história cultural. Alguns contos são especificamente significativos nesse sentido. Por exemplo, O SAMBA, de Magalhães de Azevedo (1872-1963), se passa em uma senzala, em meio ao horror da escravidão. Foi publicado em 1900, e Moreira da Costa afirma ser a primeira menção à palavra “samba” como designativa de uma reunião com canto e batuque.

 

Azevedo descreve as jovens que dançam: “Que elasticidade de molas têm as cinturas finas entre os seios fortes e os amplos quadris!”. A sensualidade e o erotismo estão em inúmeros contos, mostrando que os preconceitos sexuais sempre foram desafiados. Em CLÓ, Lima barreto (1881-1922) conta que, em um baile de Carnaval, “madame Rego e Silva e o marido levantaram-se com a pequena Dulce, amante de ambos no dizer da cidade em peso”. Em O BEBÊ DE TARLATANA ROSA, também no Carnaval, mas nas ruas, João do Rio (1881-1921) registra a atração de Heitor por uma bela moça, meio estranha, voz rouca. Ela o provoca mas é fugidia. “Talvez seja um homem”, desconfia um amigo. Travesti em 1900?


Cito estes contos porque a música popular sempre esteve ao lado dos amantes da noite, da liberdade e da libertinagem. Claro que AQUARELAS DO BRASIL anda além disso, mas não deixa de ser interessante notar que os autores atuais dos contos “musicais” praticamente não utilizem o componente sexual. Talvez porque liberou geral. E diante de contos como o fantástico O CONCERTO DE JOÃO GILBERTO NO RIO DE JANEIRO, de Sérgio Sant’Anna, quem precisa disso? Na orelha do livro, Zélia Duncan o define: “Uma pesquisa fina e abrangente, que nos relembra um lugar hoje vazio e abalado: a autoestima brasileira”.


Autor de mais de 40 livros, entre romance, conto, ensaio, coletânea e biografia, Flávio Moreira da Costa é considerado o mais importante antologista brasileiro. Sua primeira obra, ANTOLOGIA DO CONTO GAÚCHO, é de 1970. Nascido em Porto Alegre em 1942, vive no Rio de Janeiro desde 1963. No texto de apresentação de AQUARELAS DO BRASIL, ele faz uma inconfidência que, acho, pela primeira vez vem a público: “Meu pai falava também de Lupicínio Rodrigues, que fora empregado – bedel, como se dizia – da Faculdade de Direito de Porto Alegre (e, comentava-se em segredo, filho bastardo do diretor, um desembargador conceituado)”.


OS AUTORES NA ANTOLOGIA


Machado de Assis, Olavo Bilac, Manuel Antônio de Almeida, Arthur Azevedo, Lima Barreto, Raul Pompeia, João do Rio, Eduardo Campos, Inglês de Souza, Sérgio Sant’Anna, bernardo Élis, Alcântara Machado, Nei Lopes, Inácio Peixoto, Ribeiro Couto, Aníbal Machado, Marques Rebelo, Magalhães de Azevedo, João Antônio, João Gilberto Noll, Carlos Jurandir, Jaime Prado Gouvêa e Flávio Moreira da Costa.


Fonte: Zero Hora/Paralelo 30/Juarez Fonseca (juafon@gmail.com) em 04/05/2018