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As Águas de Portugal - Rio Ceira
As Águas de Portugal - Rio Ceira

 Fotografia de José Bagulho.

 

                                             As Águas de Portugal – Rio Ceira

 

       Caminhar pelas aldeias de Portugal é como descobrir as maravilhas do universo e sentir-se dentro do paraíso. Suas montanhas choram água límpida por todos os lados. E essas lágrimas quando se encontram saem cantando fados de amor, sobre as pedras que lhes servem de leito, cortando e lambendo os chãos das cidades por onde passam. Alumbramento! Abraço esses rios com o coração, e as mãos sentem essas águas escorrerem por entre os dedos dando-me a ilusão de um batismo espiritual. Sou emoção ao descobrir alí, caminhos parecidos com os da minha infância. Orgulhosa, eu percorri tantos chãos, com a cantiga das águas nos meus ouvidos... Quantos caminhos teria a vida? Qual deles seguir?

 

       Quero os caminhos desses rios para escutar sempre essas canções. Precisava percorrer as veredas de mim mesma. As de Portugal abriam-se majestosas à minha frente. E como são lindas! Assim cheguei ao Rio Ceira. Majestoso. Gargalhava aos meus ouvidos na sua incontrolável alegria de correr chãos. Soube que ele nasce lá pras bandas da Serra do Açor, a uma altitude de 1.118 metros, perto da Aldeia do Piodão, forma-se das lágrimas que escorrem das pedras, que choram imóveis açoitadas pelos ventos frios. O conheci em Góis, rasgando-a ao meio o chão, desbravava os caminhos exuberantes de o seu caminhar. Na orla, a cidade embevecida o cortejava. Afluente da margem esquerda do Rio Mondego no qual vai desaguar junto a Coimbra.  Disse Leon Tostoi:

 

“Os homens são como os rios. Um dos preceitos mais enraizados e mais geralmente admitidos é o de acreditar que os homens possuem em si qualidades imutáveis: há homens bons ou maus, inteligentes ou estúpidos, enérgicos ou apáticos, e por aí adiante. Ora, os homens não são assim. Podemos apenas dizer que um homem é mais vezes bom que mau. Mais vezes inteligente que estúpido, mais vezes enérgico que apático, ou o contrário; mas classificar um homem, como sempre fazemos, de bom ou inteligente e um outro de mau ou estúpido é um erro. Também os rios, todos de água, são umas vezes mais estreitos, outros rápidos, outros largos ou calmos, transparentes ou frios, caudalosos ou tépidos. Ora, os homens são como os rios. Cada um traz consigo a semente de todas as qualidades humanas, de que revela, em certos passos, umas características, noutros, outras, chegando mesmo, em certas ocasiões, a mostrar-se sob uma forma completamente oposta à sua natureza íntima, que, não obstante, mantém.

(in Ressurreição)”

 

       Que beleza misteriosa se esconde no canto das águas? Que poder é esse que emana das vozes dos rios e da sua força? Recolho-me solenemente ao meu eu mais silencioso, para que eu possa ouvir a música da vida. Dentro de mim o Rio Ceira canta fados de amor. Eu vi o rio contorcendo-se naquele bailado exuberante. Eu vi. Quero pegar esse rio entre as mãos, mesmo que ele escorra livre e corra de mim. Quero senti-lo escorrendo por entre os meus dedos muitas vezes mais. Hei de sentir. Quero segui-lo em sua trajetória e ouvir seu canto e contar-lhe histórias, mesmo que ele parta para outros chãos zombando de mim. Aquele rio já é parte de mim.

 

Lígia Beltrão