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Carreira Literária
Carreira Literária

CARREIRA LITERÁRIA

 

Fiz um balanço da minha carreira literária.  Vai bem.  Ainda nem começou.  Não digo isso para assustar os amigos que vão aos meus lançamentos.  Prometo alguns anos de sossego e de economia.  Criamos uma rotina.  Até a ordem na fila dos autógrafos é a mesma.  Um colega não tem mais lugar na sua estante para as minhas obras.  Já publiquei 30 livros.  Tudo para esquentar a máquina.  Puro aquecimento.  Bom será o que ainda não escrevi.  Mas vou escrever.  Tenho certeza.  Imagino que seja o sexagésimo.  Em todo caso, até o centésimo acerto a mão.  Uau!

Passei por várias fases.  Na primeira, tive a certeza de que levaria o Nobel.  Devo ter escrito isso nalguma dedicatória.  Tipo:  “Ao fulano de Tal, este livro a caminho de Estocolmo.  Modestamente”.  Na segunda, fui tomado por um surto de expansão nacional.  Mandei exemplares para todos os jornais brasileiros.  Saíram algumas resenhas.  Já me via de fardão.  Na terceira fase, entendi que o Nobel demoraria mais do que o previsto.  Havia outros na minha frente.  Na quarta fase, para economizar com o correio, limitei a remessa de livros aos jornais do centro do país.  Rio de Janeiro e São Paulo me bastavam.  Na quinta fase, deixei o Nobel de lado, embora sem o recusar, e adiei o fardão.  Na sexta, cancelei o envio de livros para jornais de qualquer ponto do país.  Na atual, administro o empate.

Ideias geniais para novos livros não me faltam.  Estou pensando em escrever um romance revolucionário, algo capaz de colocar o realismo fantástico no chinelo.  A história da corrupção no Brasil contada do ponto de vista de uma personagem muito viva:  a propina.  Só não aceito pagar 10% para publicar.  Ninguém me propôs isso até hoje.  Será que é um problema?  Será uma crítica ao que escrevo?  Conversei com três dos maiores críticos literários do centro do país.  Os três me fizeram a mesma pergunta:  “O que você faz na vida?  Pretende escrever?”.  Culpei o Ibope pela manipulação da minha audiência literária.  Conversei com três críticos locais.  Os três me fizeram a mesma recomendação:  “Por que não investes na política?”.

Tenho sido patrono de muitas feiras do livro no Rio Grande do Sul.  Hoje, estarei, como patrono, na Feira do Livro de Vacaria.  É muita honra.  Gosto dos Campos de Cima da Serra.  Em novembro, serei patrono em Restinga Seca.  Dois motivos levam a que me escolham para patrono:  a enorme generosidade dos organizadores e a falta de gente mais gabaritada com a agenda livre.  É incrível como a agenda livre me dá a sensação de escrever bem.  Não duvido que, se a minha agenda se mantiver com espaço, bastante provável, eu acabe recebendo o Nobel.  Os melhores já ganharam ou morreram.  Tem o Lobo Antunes e o Michel Houellebecq na minha frente.  Mas a agenda deles está sempre lotada.

O fardão não me interessa.  Não quero ficar parecido com José Sarney.  Nem ser colega de Ivo Pitanguy.  A minha referência é Machado de Assis.  Farei como ele.  Fundarei uma academia.  Será a Academia Literária de Palomas.  O fardão será um poncho de baeta encarnada.

 

Fonte:  Jornal Correio do Povo/Juremir Machado da Silva (juremir@correiodopovo.com.br) em 23/1