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Carta a um Amigo por Lurdes Maravilha
Carta a um Amigo por Lurdes Maravilha

CARTA A UM AMIGO


Felisberto:

Hoje, chove de mansinho nos abrigos dos meus passarinhos. Gosto de sentir o cheiro casto da terra a sobrevoar a plenitude que os meus olhos ainda alcançam. Lembrei-me outra vez de ti, meu amigo Felisberto. Todos os anos, por esta altura, lembro-me sempre de ti e de uma forma muito especial. Sabes porquê? A escola está quase a começar. Que saudades dessas vidas! Lembras-te? Sempre juntos e parceiros da mesma carteira, ma nunca mais te vi. Que destino foi este que há quase quatro décadas que não cruzamos o nosso olhar?
Acredita que nunca te quis varrer do meu pensamento, porque os momentos de partilha da minha infância, nunca me pesam na bagagem.
Foram momentos tão belos de fraterna e terna amizade, mas também muito difíceis. Ainda estou a ver o teu olhar cansado quando chegavas à escola. Sim muito cansado, porque quando me olhavas, já tinhas caminhado cerca de cinco quilómetros por caminhos de pedras e com o estômago sempre mal aconchegado.
E a tua sacola azul? Sim a tua única sacola na qual transportavas o escasso material escolar que tinhas e a pobre merenda para te alimentares durante todo o dia. Sim, repito, todo o dia. Não havia sequer uma sopa quente servida a estas crianças. Não digo mentiras. Quem morava longe da escola tinha que se governar com uma bucha, muitas vezes mal-amanhada ou com a caridade prestada por quem também mal tinha para comer. Momentos bastante conturbados. Como é que se podia raciocinar com um estômago vazio? Como é que uma cabeça podia pensar se o seu corpo estava tantas vezes molhado e os pés nunca aqueciam?
Como é que se podiam fazer os deveres escolares na devida perfeição se os braços eram usados com tanta dureza para abraçar e cortar os molhos de erva para alimentar os animais?
Claro meu amigo Felisberto, tens toda a razão e fico a pensar naquele dia. Aquele tal dia, em que a professora te pediu a lousa para ver os deveres e estava tudo apagado pelo vinco soprado da humidade. Que castigo que ela te deu! E ai de ti que te queixasses à tua mãe. Lembras-te? Chorei tanto por ela te bater com a régua nas tuas mãos tão franzinas. Parecia que ela estava a bater em mim.
Eu sei meu amigo e colega da escola, nessa altura o nosso aquecimento eram as brasas da nossa lareira quase primitiva, onde aquecíamos de leve os sonhos da nossa alma. E a luz? A luz era uma lanterna a qual servia para iluminar tudo e a todos, porque o petróleo era um bem muito escasso. 
Sabes Felisberto, foi nesta luz que aprendi a guiar os voos dos meus sonhos. Uma luz fraca, mas muito forte de espírito porque em mim nada se apagou.
Ainda sei a cor da inocência e a incerteza do teu olhar.....
Aquele nosso abraço, da tua grande amiga e colega de carteira que te quer encontrar.

Lurdes Maravilha