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Cartas na Mesa no Instituto Moreira Sales
Cartas na Mesa no Instituto Moreira Sales

CARTAS NA MESA

 

O Instituto Moreira Salles disponibilizou online em 11 de agosto, no site Correio IMS (no endereço correioims.com.br) um acervo que reúne 100 cartas escritas pelas mais diversas personalidades brasileiras.  Entre os correspondentes, constam escritores, poetas, pintores, músicos, arquitetos, figuras da história cultural e política do país – com cartas por vezes inéditas, por vezes já publicadas antes em livros, estudos e coletâneas.  A ideia da seleção é fazer um grande apanhado íntimo da história social e cultural do país, por meio de correspondências como a carta de despedida que Dona Amélia, segunda esposa de Dom Pedro I, escreveu ao seu enteado Pedro de Alcântara, futuro Dom Pedro II, quando o casal voltou à Europa e deixou o menino como futuro imperador no Brasil.  Ou pelas cartas apaixonadas do jurista Rui Barbosa a sua mulher, Maria Augusta.  A coleção reúne ainda mensagens escritas por autores como Drummond, Ana Cristina César, Ziraldo, entre outros.

Leia, abaixo, trechos antecipados de duas dessas cartas.  A primeira, escrita por Machado de Assis (1839-1908), lamenta a perda de sua mulher; Carolina.  O destinatário era seu grande amigo Joaquim Nabuco (1949-1910).  A segunda é um trecho de carta de Erico Veríssimo (1905-1975) à amiga Lygia Fagundes Telles.

Os textos explicando o contexto de cada correspondência foram elaborados pela equipe do IMS e também estarão online.

 

Machado de Assis:  “Foi-se a melhor parte da minha vida”

Em 1868, Machado casou com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, irmã de seu amigo e poeta Faustino Xavier de Novais.  A morte da mulher, depois de 35 anos de convivência, lhe inspirou o antológico soneto A Carolina.  Machado ainda exprimiu a dor da perda nesta carta a Nabuco.

 

Rio de Janeiro,

20 de novembro de 1904

Meu caro Nabuco,

Tão longe, em outro meio, chegou-lhe a notícia da minha grande desgraça, e você expressou logo a sua simpatia por um telegrama.  A única palavra com que lhe agradeci é a mesma que ora lhe mando, não sabendo outra que possa dizer tudo o que sinto e me acabrunha.  Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo.  Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada.  Éramos velhos, e eu contava morrer antes dela, o que seria um grande favor; primeiro porque não acharia a ninguém que melhor me ajudasse a morrer; segundo, porque ela deixa alguns parentes que a consolariam das saudades, e eu não tenho nenhum.  Os meus são os amigos, e verdadeiramente são os melhores; mas a vida os dispersa, no espaço, nas preocupações do espírito e na própria carreira que a cada um cabe.  Aqui me fico, por ora na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus.  Tudo me lembra a minha  meiga Carolina. [...]

Machado de Assis

Fonte:  Correspondência Machado de Assis & Joaquim Nabuco.  Organização de Graça Aranha.  Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras/Topbooks, 2003, pp. 126-127.

 

Erico Veríssimo:

 

“Ando com saudade dum papo contigo”

Leitora de Erico Veríssimo desde a adolescência, foi a ele que Lygia se dirigiu quando pensou em publicar seus primeiros contos.  A amizade entre os dois escritores fundou-se em admiração recíproca, de que é testemunho esta carta.

 

Porto Alegre,

29 de outubro de 1974

[...]

Mas eu lhe escrevo para dizer que ando com saudade dum papo contigo.  Sim, e para te contar que achei teu conto sobre a bolha de sabão* uma joia.  Li-o duas vezes.  A primeira vez como leitor de ficção que sou.  A segunda, com olho de oficial do mesmo oficio. Repito, é uma joia.  Como pôde essa menina de suéter verde que conheci em 1943 (sorry pela data!) chegar a esta altura.  As Meninas?  Continuo a afirmar que foi o maior romance deste ano e de muitos outros.  Fico assim com um orgulho de tio quando leio ou ouço alguém dizer bem desse livro.  Você chegou muito alto no seu ofício, e vai manter-se aí por muito tempo.  E ninguém lhe deu uma mão forte, decisiva.  God bless you!  (Que vontade tenho de que Deus exista!) Vou voltar ao Solo.  Estou empacado em Portugal. Feitiço do Salazar? Sei lá.

[...]

  • A Estrutura da Bolha de Sabão.

Fonte:  Acervo Erico Veríssimo, cedido ao IMS

 

Fonte:  Jornal Zero Hora de 09/08/2015