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Chatô, o Filme do Ano. Só que Não.
Chatô, o Filme do Ano. Só que Não.

CHATÔ, O FILME DO ANO. SÓ QUE NÃO

 

Seria o Brasil o país da vulgaridade?  Se não me engano, foi algum crítico literário dos anos 40 do século passado que aduziu que nunca produziríamos um texto como o do Francês Marcel Proust porque nossa sociedade não tinha sofisticação moral, intelectual e mesmo social que, saindo de Honoré de Balzac no século XIX, chegasse ao grau de refinamento (ainda que extremamente simples em suas construções básicas) da pena de Proust.  Talvez seja uma visão minúscula do país, porque o Brasil não são só seus vulgares, e talvez haja aí também nesta declaração do crítico um fundo colonizado, pois a França não são somente seus sofisticados, como em todo povo a vulgaridade também impera, e demais quem garante que todo sofisticado é um Proust, pode ser somente um bem-pensante vazio (como esmiúça um livro recente do sociólogo Michel Maffesoli).

 

 

Mas CHATÔ, O REI DO BRASIL (2015), a acidentada produção dirigida por Guilherme Fontes, é um produto acabado de nossa face mais vulgar.  As visões que Fontes propõe de dois de nossos maiores homens, o jornalista paraibano Assis Chateaubriand e o político gaúcho Getúlio Vargas, duas criaturas que saíram das províncias para ganhar a nação, pois as visões de Fontes sobre eles são bem rasteiras e seguem um prumo de delírio carnavalesco (alegórico e desorientado) em sua encenação.  As caricaturas do realizador se evidenciam.  A forma c arregrada com que Paulo Betti tenta imitar o sotaque gaúcho em Getúlio é tão dolorosa quanto aquilo que o escritor cearense José de Alencar fez com os costumes e o linguajar gaúchos num romance do século XIX (a propósito, o crítico gaúcho Augusto Meyer fez uma análise demolidora do gaúcho alencariano); pois o gaúcho de Betti é tão falso e pernicioso quanto o de Alencar.  E o ranço jornalístico de Chateaubriand não é menos simplório e artificial: Marco Ricca alteia os trejeitos para corresponder ao que o filme exige dele.

 

 

A produção de CHATÔ, O REI O BRASIL se arrastou desde 1995 e a partir de 1999 os fundos públicos aplicados no filme foram questionados judicialmente e o diretor teve condenações e até prisão decretada.  O lado íngreme da construção do filme de Guilherme se evidencia numa narrativa disforme, involuntariamente experimental: é um grande morro que despenca aos gritos: como Guilherme não é Glauber, o vulgar nunca se sofistica por qualquer lampejo de direção.  O elenco é coloridíssimo: inclui boas e belas atrizes como Andréa Beltrão, Leandra Leal, Eliane Giardini, mas elas também esbarram nos artifícios das propostas de personagens desde o roteiro.  Coo as filmagens têm vários anos, há cenas com gente falecida, como José Lewgoy e Walmor Chagas.  De tudo salta um descosido mal composto do conjunto.

 

 

Quando comparamos com o rigor moral, intelectual e estético da cinebiografia Pasolini (2014), do americano Abel Ferrara, (mesmo que a narrativa de Ferrara também seja tentacular), aí é que vem o desconsolo para com uma espécie de vulgaridade (que sai da visão de mundo para uma certa forma de filmar) em que amiúde nosso cinema insta...

 

Fonte:  Correio do Povo – CS Caderno de Sábado/Eron Duarte Fagundes (crítico de cinema) em 2 de janeiro de 2016.