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Coimbra dos Fados
Coimbra dos Fados

Coimbra e seu espelho no Rio Mondego

 

                                     COIMBRA DOS FADOS

 

       Andava pelas ruas de Coimbra como quem pisava o chão dos céus. Ia a passos lentos e leves, para não macular o caminho de pedras, que revestiam suas ruas seculares. Uma casa de Fados no caminho, na Rua do Quebra Costas, entre o Arco Almedina e a Sé Velha, me leva a entrar e olhar emocionada aquele lugar, que deve cantar no silêncio das noites, as mais lindas histórias de amor. Sim, porque o Fado, na verdade, é uma história de amor cantada com a força do peito, que explode em sentimentos profundos.

       

 

      Acariciei os móveis com os olhos apaixonados que me acompanham nessa andança de visitas e descobertas de mil coisas. Sou alumbramento! O fado é um estilo musical português. Geralmente é cantado por uma só pessoa (fadista) e acompanhado por guitarra clássica (nos meios fadistas, denominada viola) e guitarra portuguesa. O fado foi elevado à categoria de Património Oral e Imaterial da Humanidade pela UNESCO numa declaração aprovada no VI Comité Intergovernamental desta organização internacional, realizado em Bali, na Indonésia, entre 22 e 29 de Novembro de 2011.

      

      “Há os melhores músicos da cidade. Todos, músicos e colaboradores, são atuais ou antigos alunos da Universidade de Coimbra. Eles partilham suas experiências” – diz-me a moça que nos recepciona, com um alegre sorriso, de quem se orgulha do que me mostra e fala -, “venham assistir o nosso Fado, vão gostar – continua ela enquanto nos despedimos e prometemos voltar para uma noite de Fado -”. Saio dali com um pouco da magia do lugar entranhada em mim. Assim como sou enamorada da cidade. Como disse Manuel Alegre:

“De Coimbra fica o tempo que não passa. / Neste passar do tempo que não volta.”

      

      E eu vestida de uma alegria indescritível observo tudo o que cheira a Fado e a Coimbra. Cidade que me encanta e me faz sonhar. Sinto cheiro de amor e de poesia por essas ruas “ladeirosas” e inquietas de jovens estudantes com suas capas pretas. Lembram-me que já fui assim. Cheia de viço e de sonhos, riso solto, à toa. Quero arruar e não me canso. Subo equilibrando-me nas asas dos sonhos que sobrevoam o meu dia. Embriago-me de prazer. De vinho também. O deus Baco morreria de inveja de mim se aqui estivesse. Meus lábios, molhados do néctar dos deuses diz-me que tudo eu posso. Assim, profano a todos os deuses que inventaram Coimbra, e ela, feita soberana, reina, do alto majestoso que a ergue. Aos seus pés, o rio Mondego “lambendo-lhe”, e como o amante insaciável geme de amor cantando seu belo fado. E assim cantou José Afonso:

 

“Oh Coimbra do Mondego / e dos amores que eu lá tive / quem te não viu anda cego / quem te não ama não vive / quem te não viu anda cego / quem te não ama não vive. / Do Choupal até à Lapa / foi Coimbra meus amores / e sombra da minha capa / deu no chão abriu em flores”.

 

E assim canta-se Coimbra. E assim, quem não se encanta com Coimbra...

 

  

 

Lígia Beltrão

13/04/2015

 

 

Texto publicado no Jornal O COLUMINHO em 01/05/2015