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Com a Palavra... Rick Chesther
Com a Palavra... Rick Chesther

COM A PALAVRA RICK CHESTHER

 

Se vender água não é para você, então a crise não está no Brasil, está dentro de você.

 

Rick Chester ganhou certa notoriedade há cerca de um mês, quando veículos de comunicação e blogues apresentaram-no como um brasileiro que ascendeu de vendedor de água na praia de Copacabana a palestrante sobre empreendedorismo em Harvard, nos Estados Unidos.

 

O que parece ter dado projeção a Chesther foi um vídeo postado em maio no YouTube, com 42 mil visualizações, o primeiro da série Minuto do Empreendedorismo. Nele, o mineiro de Pitangui, 41 anos, recomenda que os desempregados vendam água em Copacabana. No fim, sentencia: “Ah, vender água não dá para você, não? Então a crise no seu caso não está dentro do país, está dentro de você”.

 

A partir dali, Chesther apareceu na TV, saiu no jornal, começou a dar palestras e conseguiu patrocínios (virou garoto propaganda de um produto de microcrédito do banco Santander). No fim de setembro, lança seu primeiro livro, PEGA A VISÃO, pela editora Buzz – a responsável por levá-lo a Harvard, para participar de um evento para um público brasileiro na prestigiada universidade americana.

 

Na última segunda-feira (27 de agosto), ele concedeu a seguinte entrevista a ZH, por telefone:

 

 

 

Como tu resumirias tua trajetória para quem não te conhece?

Eu sou o retrato típico de um brasileiro genuíno, que vai honrar a 47ª frase do seu hino, onde diz “Verás que um filho teu não foge à luta”, e que através dessa 47ª frase vai levantar todas as vezes que a vida lhe jogar no chão. Esse é o retrato do povo brasileiro, que em algum momento deixou de praticar isso, mas isso existe dentro de cada um, e eu sou apenas um mensageiro que surgiu agora para reacender essa chama.

 

 

O que tu achas que te tornou conhecido?

Não é nem que eu ache. Eu tenho certeza. Foi a quantidade de tempo que me preparei para disponibilizar o meu produto, que sou eu mesmo. O brasileiro tem o defeito de ser muito imediatista, ele deita um dia, sonha em abrir uma camisaria, por exemplo, e ele acorda já correndo para uma loja, já pegando um cartão de crédito, mesmo sem ter crédito, comprando R$ 2 mil, R$ 3 mil em camisa, e sai falando: “Estou vendendo camisa”. Ele não fez nenhum tipo de pesquisa, ele não pesquisou aceitação, nada. Ele simplesmente sonhou, acordou, comprou e falou que está vendendo. Ou seja, ele não se preparou. O que me diferencia é que desde os sete anos de idade eu trabalho com venda. E, em 1994, eu me vi na situação de optar entre estudar e trabalhar. Tinha uns 17 para 18 anos. Daí tive de decidir: “Olha, os horários que tenho para estudar são os mesmos em que eu trabalho”. E aí optei por trabalhar. Só que abandonar a sala de aula para alguns é fechar literalmente essa janela, lacrar e não olhar mais. No meu caso, não. Abandonei a sala de aula e passei a ler quatro livros por semana. Buscava muita informação para continuar me preparando, à minha maneira.

 

 

Que tipo de livros eram?

Sempre livros que agregavam valor à vida. Penso que a dimensão do ato de ler é enorme, e nem todos os livros canalizam para a direção que você quer. Uma coisa é você ler, por exemplo, um romance, É um ótimo livro para um ótimo público em um determinado momento. Outra coisa é você ler livros que te dão direção de foco, de determinação, de visão.

 

 

Isso foi a tua preparação de anos?

Calma, que vou concluir. De 1994 a 2017, eu li quatro livros por semana. Dos sete anos até 1994, eu trabalhava e estudava, depois comecei a apenas ler. Então, passei 40 anos me preparando para fazer aquele vídeo da água. Porque eu sou um produto e entendi que, quando disponibilizasse esse produto, eu tinha de estar pronto para o mercado. Quando soltei aquele vídeo, não era um vídeo de um acaso qualquer, eram 59 segundos de uma preparação de 40 anos. Era muita certeza de que aquilo era consistente. Não era o dormir e acordar sonhando com a camisaria.

 

 

Como é que a água entrou na tua vida?

Eu vinha para Copacabana no Réveillon, sempre, e um dia vi que era muita gente, muito sol, e eu também estava com vontade de tomar água. Falei: “Cara, água vende”. E comecei a vender água. Foi um processo comum. Poderia ser sacolé, picolé.

 

 

Por quanto tempo vendeste água na praia?

Foram três meses, no máximo. Três não, espera aí… Cinco meses, no máximo.

 

 

Que foi quando fizeste o vídeo, e o vídeo mudou a tua vida.

Não. O brasileiro tem mania de olhar para o resultado. As pessoas precisam saber que o vídeo da água não mudou a minha vida, o que mudou a minha vida foram os 40 anos de preparação que eu tive antes do vídeo da água. O vídeo da água foi só o resultado. Se você olhar para o resultado de qualquer produto, não vai entender como foi fabricado.

 

 

Quando foste vender água em Copacabana, já pensava em virar youtuber?

Não. Nem me considero youtuber. Você pode colocar como jornalista, mas eu, Rick, não me considero. Quando eu vendia água em Copacabana, estava só pensando em trabalhar.

 

 

Que situação de trabalho você tinha quando foi vender água? Estava desempregado?

Não, porque desde os sete anos de idade não me sinto desempregado. Eu trabalho desde os sete anos, empreendendo. O Brasil tem mania também de entender quem não está na CLT como um desempregado. É outra coisa que precisamos corrigir, porque senão não vamos construir o país que precisamos. O Brasil tem mania de contar uma história como uma historinha triste que deu certo no final, e eu não sou isso. Sou uma história que deu certo desde os sete anos de idade. “Ah, não dava para fazer mais nada e ele foi pra praia vender água, postou, viralizou e deu sorte”. Eu não sou essa historinha. O que aconteceu com o Rick não é um “era uma vez um cara que foi vender água, postou um vídeo e ficou famoso”.

 

 

Isso é exatamente o que todo mundo está escrevendo, a história do cara que começou vendendo água e…

É que todo mundo está escrevendo por conta própria. Quando consultam Rick diretamente, não é isso. Eu não mudei depois do vídeo da água. O que me transformou foi o que aconteceu antes do vídeo da água.

 

 

Sobre esse antes, o que tu vendias ao longo dos anos?

Vendi verdura, sacolé, picolé, fui camelô, vendi bijuteria, vendi fruta, vendi muita coisa, papel para embrulhar presente. Vendi o que tinha de vender naquela época.

 

 

Sempre de maneira informal?

Isso para mim se chama empreendedorismo. Não é informal, é uma forma de trabalhar. E a pessoa costuma dizer, para diminuir a importância disso, que é trabalho informal, que é ambulante.

 

 

Esse caminho te ensinou o que exatamente?

A minha preparação me ensinou que posso chegar a qualquer lugar. Ensinou que todo ser humano pode chegar a qualquer lugar, inclusive a lugar nenhum, única e exclusivamente baseado nas suas escolhas.

 

 

O retorno financeiro que tu tinhas como empreendedor, antes dos vídeos, era qual?

Era o que eu pleiteava naquele momento. Se pegar os lugares onde eu vivia de aluguel, todos vão falar: “Ele nunca atrasou uma conta, nunca atrasou um aluguel”. Então, era dentro do que me propunha alcançar. Eu estabelecia uma meta, um custo de vida X, e eu ia chegar naquele custo de vida através do empreendedorismo.

 

 

No tempo em que vendias água em Copacabana, faturavas quanto?

É muito relativo. Depende do dia, da época, do calor. Não gosto de falar de números. O que posso afirmar é que faturava o suficiente para suprir as minhas metas, as minhas necessidades, e conseguir ter a minha vida normal. Minha concepção é simples: se você pegar todo o dinheiro da humanidade e distribuir em partes iguais para todas as pessoas do mundo, rapidamente ele vai voltar para as mesmas mãos. Porque ninguém fica rico com aquilo que ganha, mas com o que consegue poupar. E eu sou esse cara.

 

 

Isso significa que, na tua opinião, as pessoas que são ricas, são ricas por mérito?

Depende. Tem pessoas que são ricas por injustiça, outras por corrupção. Essa questão de ser rico ou ser pobre é muito pessoal e é muito relativo. A humanidade tem muitas histórias de pessoas que são milionárias porque tomaram esse dinheiro de alguém em algum momento da vida. O Brasil está passando agora por algumas investigações, como a Lava-Jato, que estão mostrando que uma grande parcela de pessoas se beneficiaram de recursos para se tornarem milionários. Então, não quer dizer que quem está milionário ou está rico chegou nisso trabalhando. Eu não falei isso. Falamos foi da distribuição da riqueza e do retorno dos valores às mesmas mãos, baseado em poupar ou gastar.

 

 

O pobre seria responsável pela própria pobreza?

O ser humano, seja pobre ou seja rico, é responsável pela situação em que ele está. Costumo dizer que você nascer em condição desfavorável – não gosto de usar o termo pobreza, que é muito pesado – pode ter sido culpa de alguém que veio antes de você, mas se você morrer naquela condição, daí foi opção sua. Nosso povo precisa apreender isso. Se você morre na condição que nasceu, e essa condição foi desfavorável, você fez a opção de morrer daquela forma.

 

 

Você não acredita que as condições em que a pessoa nasce podem complicar sair dessa situação?

Eu não acredito em uma forma de Brasil onde existe uma parcela de pessoas que tendem a querer que a outra parcela fique ignorante para que essas pessoas não consigam sair do lugar onde estão. O maior problema no Brasil são pessoas de um determinado espaço trabalhando para que outros permaneçam ignorantes, falando que o povo precisa ser assistido, quando na verdade ele precisa ser libertado.

 

 

Libertado em que sentido?

Em todos os sentidos. Nós não temos de assistir. Penso que uma parcela de pessoas viciou nosso povo em ser assistido. E quando você está assistindo, você está dizendo às pessoas: olha, você está só assistindo.

 

 

De que tipo de assistência você está falando?

De todos. A assistência só é louvável se tiver data para início e fim. Se se tornar algo contínuo, vira prisão.

 

 

Você fala de assistência do governo?

O leitor vai ler e levar para o seu universo. Eu não entro nessas coisas.

 

 

O grande salto na tua vida foi a partir do primeiro vídeo, certo?

O grande salto foi a partir dos sete anos de idade, quando meu pai falou que tínhamos de estar prontos em virtude de um problema de saúde da minha mãe. Ali eu comecei a vender verdura. O meu salto foi ali. O vídeo foi resultado. E você insiste em levar para o resultado, ao invés de levar para a trajetória. O resultado é só consequência. O grande salto do Neymar, por exemplo, não foi jogar no Barcelona, foi um dia ter feito a inscrição na escolinha do Santos.

 

 

Mas o reconhecimento foi a partir do vídeo…

Não. Sempre tive reconhecimento das pessoas que consegui alcançar. É claro que, quando postei aquele vídeo, alcancei mais pessoas e veio um outro tipo de reconhecimento. Por exemplo, eu sou diretor de comunicação e marketing da Nação Mangueirense desde 2015. Isso já é reconhecimento. E só em 2018 eu fui postar o vídeo da água. O Brasil é viciado em jogar as pessoas para o resultado, porque jogando as pessoas para o resultado, elas não vão entender a trajetória. Isso é assistir, falar para as pessoas: vocês estão assistindo a uma vitória em vez de estarem entendendo o percurso. Isso é dizer para as pessoas que um chegou e os outros não conseguem. Não é essa a minha bandeira. Eu falo o contrário: qualquer um pode chegar.

 

 

Você chegou a um resultado. É seguido por muitos nas redes sociais, dá palestras, tem patrocinadores. Entendes que o interesse das pessoas é naquilo que você conseguiu, no sucesso, inclusive financeiro?

Hoje sou um exemplo internacional. Fui para os Estados Unidos e tenho convites para ir a outros três países. Costumo dizer que águia reconhece águia. Está no meu livro também. E os que são realmente águias são os que me mandam milhares de mensagens por dia me perguntando pelo caminho. As pessoas que têm visão não olham para resultado. Elas olham para percurso. Baseado na pergunta que a pessoa faz na minha rede eu já sei se ela é uma águia ou se ela é um pardal. Porque, se você olhar para o resultado, você não é uma águia. A águia não vai pular de um penhasco olhando um corpo lá no chão porque a outra águia pulou. Não, ela vai pular do penhasco convicta de que ela consegue fazer aquele percurso e chegar lá embaixo.

 

 

Como foi a experiência nos Estados Unidos?

Foi uma honra entrar naquele plenário com a bandeira do meu país, com a bandeira da minha escola de samba, com a minha caixa de isopor. Nas minhas palestras, sempre levo a caixa que eu usava para vender água. Ela é a minha fiel escudeira, minha melhor amiga. Quem foi para os Estados Unidos não foi um CPF, foi um povo. Lá eu entrava num supermercado, andando na rua, as pessoas me reconhecendo.

 

 

Tua principal atividade hoje são as palestras?

Tem muita coisa que eu faço. Publicidade, livro, as palestras. A palestra é uma forma de eu levar a mensagem. Estou levando a um número considerável de pessoas. Consegui pegar uma informação que serve para o cara que está debaixo do viaduto, para o cara que está fazendo samba, para o pastor, para o padre, para o pai de santo, para o empreendedor, para o empresário.

 

 

Como você vê o momento político do Brasil?

Não entro nessa discussão. A única coisa que eu falo é que o povo precisa acordar para a realidade em que o país está e se enxergar como ator principal dessa realidade. O resultado de uma eleição é escolha de um povo.

 

 

E a crise econômica?

A crise econômica é resultado da crise pessoal do ser humano. É o que falei no vídeo da água, que viralizou. Se vender água não é para você, então a crise não está no Brasil, está dentro de você. A crise econômica é resultado do paralisar de cada pessoa. Nenhum setor precisa melhorar tanto quanto a mentalidade do povo brasileiro.

 

 

Fonte: Zero Hora/Caderno DOC/Itamar Melo (itamar.melo@zerohora.com.br) em 02/09/2018.