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Como Nasce um Poeta?
Como Nasce um Poeta?

COMO NASCE UM POETA?

 

“A POESIA NÃO TOLERA MÁSCARAS.  ELA É, EM DEFINITIVO, O HOMEM CONFRONTADO COM O PRÓPRIO DESTINO”.

 

Existe um ditado que diz: “De poeta e louco cada um tem um pouco”.  Outro ditado, de origem latina, pretende maior objetividade:  “Poeta nascitur, orator fit”, isto é, “O poeta nasce, o orador se faz”.  Há algo de verdadeiro nos dois ditados.  Ninguém se torna poeta por decisão pessoal.  O poeta parece-me que se torna criador por uma espécie de contágio, por instinto de imitação.

 

Principiei a escrever “poesias” pela razão elementar de que outros as escreviam, e eu desejava escrever como eles, compondo versos que me agradavam por sua diferença em relação à prosa, e porque tais “objetos verbais” possuíam uma qualidade extra da fala comum, que vim a conhecer mais tarde como a melodia das palavras.  Notei muito cedo que certas expressões populares eram rimadas.

 

No meu tempo de menino e pré-adolescente adotava-se, como livro de leitura para o Curso de Admissão e para a Primeira Série do Curso Ginasial, uma antologia que tinha o sugestivo título:  “A Alegria de Ler”.  Seu autor era Julio Cesar de Melo e Souza (1895 – 1974), escritor e pedagogo que se celebrizou sob o pseudônimo Malba Tahan, do qual um best seller, “O Homem que Calculava”, é ainda apreciado.  Tive a felicidade de ser iniciado na leitura por essa coletânea, na qual os ditados eram frequentes.  Exemplos:  “O bom por si se gaba; o mau por si se acaba”; “se estiveres na tua tenda, não te acharão na contenda”; outros lembretes eram quadrinhas ao gosto popular, como: “Quem pedir a um macaco / para um coco lhe atirar, / se o receber na cabeça / não tem de que se queixar”.

 

Como minha família era católica descobri que grande parte dos textos usados no culto litúrgico eram poemas, especialmente Salmos.  Algumas preces apresentavam uma qualidade literária excepcional, como a antífona Salve Rainha – que João Simões Lopes Neto considerava a mais bela prece católica.  Resumindo: interessei-me pela poesia por causa das rimas, palavra que procede do grego latinizado rhytmus.

 

As comemorações do Dia da Pátria e de outras festas escolares contribuíram para familiarizar-se com a poesia.  As declamações de então incluíam joias, como a famosa poesia de Olavo Bilac:  “Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste! / Criança! Não verás nenhum país como este!”.

 

Nessa época eu não sabia que a poesia fora desde o início recitada, quase sempre acompanhada por instrumentos musicais.  Homero e os Poetas Bíblicos nunca escreveram seus poemas.  Eles os diziam em voz alta para um público que adorava ouvi-los.  A Bíblia está cheia de advertências como: “ouve, Israel... Povo meu, escuta!”  O próprio Jesus nunca escreveu uma única linha, embora soubesse escrever, como o provou na ocasião em que se pôs a escrever no chão diante de seus adversários.  Jesus somente falou.  Nunca se dirigiu às multidões com discursos retóricos ou filosóficos.  Anunciava-lhes o reino de Deus exclusivamente por meio de parábolas, através de uma linguagem poética, que era empregada eventualmente pelos Rabinos.  O famoso biblista Richard Gutzwiller denomina tais textos poemas.  Segundo esse especialista, Jesus seria autor de aproximadamente 70 poemas.

 

Sabe-se que o primeiro manuscrito autógrafo de um poema ocidental só apareceu no século XIV, como no-lo informa Paul Zumthor, em seu livro “A Letra e a Voz” (SP, Companhia das Letras, 1993).  Suponho que os poemas, rigorosamente falando, só se impuseram à minha cabecinha quando, mais taludinho, fui me tornando “culto”.  Nessa altura os professores já me tinham informado que existiam escritores, e entre eles, poetas.

 

Quis ser um deles!

 

Meu ingresso nesse universo ocorreu quando vim a conhecer um verdadeiro poeta da poesia escrita.  Chamava-se Antônio Nobre (1867 – 1903).  A poesia desse autor, que me foi dada a conhecer por nosso professor de língua portuguesa, fazia parte de um livro intitulado “Só”.

 

Transcrevo os versos de Antônio Nobre que me fascinaram:

 

O João dorme... (Ó Maria dize àquela cotovia que fale mais devagar: não vá o João acordar...

 

Advirto que nessa época eu apenas sabia da existência de Mario Quintana, quer mais tarde viria a conhecer pessoalmente.  Ignorava que Quintana fora influenciado por aquele poeta.

 

Após Antônio Nobre, veio Camões!  A epopeia dos Lusíadas era lida por nós em voz alta, integralmente, durante as aulas de vernáculo.

 

Para sorte minha, um de meus professores teve um dia a ideia de nos falar sobre autores gaúchos, em especial sobre Erico Verissimo e Mario Quintana.  Leu-nos “A Rua dos Cataventos”.  Fez-nos perceber os encantos dessa obra-prima da poesia brasileira.  Dois sonetos dessa “Rua” me deixaram fascinado por sua simplicidade e rigor poético: o soneto VIII e o soneto XVII.  Vejamos os primeiros quartetos do soneto VIII:

 

“Recordo ainda... E nada mais me importa...

Aqueles dias de uma luz tão mansa

Que me deixavam, sempre, de lembrança,

Algum brinquedo novo à minha porta...”;

 

Vejamos, também o primeiro quarteto do soneto XVII, o qual tem o mais imprevisto início de um soneto de nossa literatura:

 

“Da vez primeira que me assassinaram

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...

Depois, de cada vez que me mataram,

Foram levando qualquer coisa minha...”

 

Até então eu não mergulhara nas profundidades abissais da poesia!  Com Quintana fiz meu primeiro mergulho submarino.  Não senti, no primeiro momento, nenhum calafrio.  O mais profundo mergulho iria ocorrer, em breve, com a borboleta de Rilke.

 

Como assim?  É que, de repente, eu tivera  a audácia de procurar duas famosas atrizes declamadoras de minha cidade natal.  Sandra Maria.  Uma delas, Ruth Farias que, com o tempo, se tornou professora de grande reputação na cidade.  Procurei-as, não só para pedir-lhes sugestões, mas também, levado pela minha vaidade de “autor” recém autodescoberto.  Esperava delas (vejam só!) uma modesta coroa de louros... Imaginava que essas intelectuais talvez chegassem até a escolher poemas de minha autoria para suas aclamadas exibições nos palcos da cidade.  As amáveis declamadoras leram uma boa parte de meus poemas, e me disseram que os poemas não tinham valor algum.  Eram, na avaliação delas, poemas anacrônicos.  Estavam compostos num estilo fora de moda.  Perguntei-lhes quais eram, nesse caso, os poetas que eu deveria ler, e tomar por modelos.  Responderam-me que o estilo atual era o modernista, e que os maiores poetas da atualidade chamavam-se Mario de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles.

 

Confesso que mal ouvira falar neles.  Conhecia um pouco Jorge de Lima e Murilo Mendes, porque um de nossos professores tinha lido em aula poemas do livro “Tempo e Eternidade”, composto em parceria pelos citados autores, que tinham assumido a tarefa de “restaurar a poesia em Cristo”.  Ninguém na nossa aula gostara de tais poemas, seja porque apresentavam imagens diferentes das habituais, seja porque os poemas eram em versos livres, e não tinham estrofes, nem rimas.  Como eu insistisse com elas para que me revelassem outros “grandes nomes”, uma delas proferiu, de repente, um  nome estranho – e mágico: Rilke!

 

Saí imediatamente à procura desse gênio, visto que eu imaginava que os grandes poetas estavam à disposição dos leitores em qualquer livraria.

 

Santa Maria em 1958 era uma cidade interiorana.  O incrível é que, na sucursal da Globo de minha cidade deparei com um livro de Rilke:  “Obra Poética”.  Versión castellana y notas de E.S. Danero.  Buenos Aires, Libreria Perlado Editores, 1956.  Comprei o livro, e na mesma noite li todos os poemas de Rilke.

 

Um de seus poemas me impressionou – particularmente.  Foi para mim uma espécie de gatilho lírico, completando o que em mim havia principiado com Antônio Nobre e Mario Quintana.  O poema de Rilke levou-me a descobrir A Poesia na sua amplitude, profundidade e comoção interior.

 

Reproduzo o poema de Rilke (1875 – 1926), traduzindo-o da versão espanhola:

“Caminha pela Malvasinka*

Seguindo o atalho dos meninos,

Onde dormem Anika ou Ninka

O seu sono mais pesado.

Numa colina vê-se, ajoelhado

- as altas sensitivas quase o ocultam –

Poeirento, com uma asa quebrada,

Um grande anjo de barro.

Dá pena esse menino desasado!

Contemplo-o: pobre criança!

De repente, dentre seus lábios

Voa uma frágil borboleta.”

(*Cemitério Judaico de Praga).

 

Sentirão os leitores de hoje o que então senti?

 

Poesia não é só uma questão de linguagem.  A Poesia é a linguagem quando ela se afasta de tudo o que Quintana denominava “fofoca”, e recupera sua nudez original que a faz coincidir com a verdade.  A Poesia não tolera máscaras.  Ela é, em definitivo, o homem confrontado com o próprio destino.

 

Charles Baudelaire (1821 – 1867) definiu-a:

“A poesia é a infância reencontrada”.

 

Atenção, porém!  É imprescindível relacionar a definição de poesia de Baudelaire com um episódio referido por Lucas no seu Evangelho:

 

“Apresentavam-lhe também os pequeninos para que ele os tocasse. Vendo isso os discípulos repreenderam-nos.  Mas Jesus chamou-os a si, dizendo:  “Deixai vir a mim os pequeninos, não os impeçais, pois deles é o Reino de Deus.  Em verdade vos digo: quem não receber o reino de Deus como um menino, não entrará nele”.  (Lc 18,15-17)

 

O menino das rimas de Santa Maria tornou-se, com o tempo, um scholar, um professor universitário.  Doutorou-se na Universidade  de Fribourg, na Suíça, com uma tese sobre Henri Bergson.  Em 1963 fez concurso para Professor Universitário na UFSM.  Mais tarde, transferiu-se para a UFRGS.  Escreveu coletâneas poéticas e ensaios de literatura e estética.

 

O que aconteceu, porém, com o poeta?

 

Continua vivendo num Brasil onde a poesia pode ser comparada a uma Cinderela esquecida no seu borralho.

 

Mas o poeta tem a consoladora esperança de que a Vida no Além não se materializará unicamente numa Biblioteca – como a imaginou Jorge Luís Borges – mas que ela poderá ser um “estado” existencial, de natureza sem dúvida sobre-humana, onde nos seja possível sentir o coração puro.


Em algum de seus livros Albert Camus declarou que isso nem sempre acontece neste mundo!

 

 

 

Fonte:  Correio do Povo/Caderno de Sábado/Armindo Trevisan (Poeta, crítico de arte, ensaísta e teólogo) em 4 de junho de 2016.