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Dona do Espaço por Lígia Beltrão
Dona do Espaço por Lígia Beltrão

Dona do Espaço

 

       Ela subia cada vez mais para o alto. O vento levava-a nos braços cantarolando a canção da liberdade. Parecia domar o espaço. Subia rodopiando, rebolando o seu colorido, achando que chegaria ao céu. Era a alegria contrastando com o azul singular. Lá no alto fazia mil piruetas. Não estava nem aí para a vida. Fora parida nas mãos do amor. Na pureza da alegria estonteante de brincar. Era única. Não importava se espalhadas pela terra houvesse milhares iguaizinhas a ela. Quem estava alí, naquele instante era ela, com toda a sua alegria e exuberância. Com o poder de subir às alturas. Parecia rir-se debochando de quem não podia cometer as mesmas façanhas. E subia cada vez mais alto. Os pássaros ao seu redor voavam como se a saudassem. Reverenciavam-na. Ela não respondia. Altiva, pensava por vezes, ser um deles. Ou, quem sabe, mais do que eles? Convencida!

 

       Abanava-se triunfante exibindo-se nas cores que lhe vestiram. Lá de cima via a terra e a festa que faziam à sua presença. Via olhos esbugalhados olhando-a como se fosse a maior maravilha do mundo. Admirando-a. Sentia-se realmente a maior de todas as coisas. Como era espetacular estar no espaço. O mundo era infinito. Ela, orgulho sem tamanho. Capacidade de alegrar os corações mais tristes. Poderia passar toda a vida assim que não cansava. Mesmo sem asas voava e dançava perdidamente apaixonada por si mesmo. Não era alada, mas tinha a capacidade de explorar as alturas.

 

       Eis que de repente ecoa um trovão. Surpresa. Está tudo mudando. O clarão de um relâmpago rasga as nuvens do céu e passa bem perto dela, alumiando ainda mais o seu colorido. Uma nuvem escura forma-se como a desafiar a sua beleza. Sente-se ameaçada, mas continua se exibindo majestosa. Dá um solavanco pra cima e outro pra baixo e volta novamente pra cima. O tempo começa a escurecer, mas ela não quer perder a oportunidade daquela dança silenciosa em círculos e ziguezagues. Ora! Será que será obrigada a descer e esconder-se no esquecimento? Continua com as suas piruetas no ar. Mãos hábeis impulsionam-na pra cima. Está lá no alto mesmo. Olhando da terra é quase só, um ponto colorido a revolver-se no espaço. Chegara o mais alto que pudera. Quer gritar de alegria, mas não tem voz. Uma rajada de vento quase a derruba, mas mãos ágeis cuidam para que continue a flutuar. Sabe-se dominada, porém, sabe do amor daquelas mãos. Daquele coração. A sua vida está presa por um fio, portanto, vale desfrutar de cada momento, pois nunca se sabe quando será o último. Aproveita-se do tempo. Amostra-se. Cai. Enroscada num fio elétrico ela contorce-se sem ter como escapar. Muda, jaz agora como a colorida alegria transitória do tempo.

      

       Olhando-a lá em baixo, as mãos nervosas e insistentes tentam resgatá-la à vida. Inútil. Trovões ensurdecedores guardam as alegrias do dia. Ele puxa pra cá, pra lá, o céu destampa-se. Ele desiste. Corta a linha que a segurava no espaço tendo o cuidado de enrolar no carretel. Precisaria dela para construir a próxima. Olha-a sem querer aceitar a realidade que está à sua frente. Dá as costas e segue apressado para proteger-se da tempestade cruel. Seus olhos voltam-se mais uma vez e desaguando o mar do peito despede-se silencioso da sua bela e colorida pipa que agora, perdida, abana a rabiola no espaço a despedir-se dele.

 

                                                                                         Lígia Beltrão