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E agora José...?
E agora José...?

E AGORA JOSÉ...?

por Cláudia de Villar

José nasceu escritor.

E, quando cresceu, nada mais justo que José se dedicasse às letras. Dessa forma, José foi se aperfeiçoar. Os cursos Literários surgiam em sua frente a cada piscar de olhos. Cursos de escrita, leitura, poesia, narrativa, cenários, espaços, enfim, havia cursos para todos os gostos. José fez todos!

Mas nada era de graça! José investiu na carreira. Sabia que escrevia bem, mas precisava ter em seu currículo aquela gama de cursos. Causava boa impressão. Dava-lhe um ar de estudioso da causa literária. José estufava o peito e dizia: “Eu fiz tal curso!”.

A conta bancária de José, que era minúscula, passou a ficar microscópica, após os cursos. Nada era de graça! José trabalhava 8 horas por dia para escrever à noite. Sonhava com o dia em que ele seria convidado a ministrar palestras, dar oficinas, ser chamado para um bate papo nas escolas. No dia em que ele venderia seus livros!

Eis o problema. Vender os livros. José era escritor, não vendedor. Não sabia vender.

Todo mundo sabe que a carreira de escritor depende da mídia. Muita mídia. E para José, precisava de um milagre! A propaganda, que é a alma do negócio! Para José significava vender a sua alma! José divulgava na família, nas redes, na padaria, mas... Ninguém conhecia José. Como ser escritor famoso se nem o pai comprava um livro?

“Essa coisa de ser escritor é coisa de fresco!” “Vá trabalhar feito homem!”, dizia o pai de José. A mãe tentava colocar panos quentes. José ia se afundando em dívidas. Pagava ilustrador, pagava editora, pagava a gráfica, pagava porcentagem para a livraria, pagava, pagava, pagava. E quando José iria ganhar? Só Deus sabe...

José precisava reaver pelo menos a grana investida para produzir os livros! Mas como? Um lançamento pomposo (conforme a grana permitia). E, dessa forma, José idealizou, marcou, divulgou! E o dia chegou! Só poderia dar certo! Contratou garçons, serviu refrigerante e vinho, salgadinhos não poderiam faltar. E o povaréu foi chegando: pai, mãe, irmão, tios, primos, a família em peso. Alguns vizinhos... Alguns amigos... Alguns conhecidos... José era todo sorriso! Sua obra, enfim, sendo prestigiada. Será que renderia uma notinha no jornal? José estava ansioso para ouvir os comentários sobre a sua obra! Caminhava entre os convidados com as orelhas em pé... Queria ouvir!

“Mas que salgadinho gostoso, não?”

“Quem foi que fez esses pastéis?!”

“Que maravilha de brigadeiro!”

“Mas que vinho bom!”

“Bem que ele poderia ter servido água para os convidados!”

“Que unha de fome, ele! Uns salgadinhos tão minúsculos!”

E José... Deixou sentiu as orelhas caírem... Segue até o CAIXA da livraria. Será que, pelo menos, vendera o bastante para pagar os “comes e bebes?!”.

“Dois”

“Dois?!”

“Dois.”

“Como assim vendou apenas dois exemplares?!” pergunta José.

“A maioria disse que havia trazido de casa o livro.”

E José lembra-se dos pedidos:

“Ah... Para mim que sou seu pai você vai dar um livro!”

“Ah, eu sou sua tia Carmem. Te vi crescer!”

E, assim por diante... Até que José foi dando... Dando...

Dois exemplares.

José estava enforcado em dívidas!

O amigo de infância aparece na porta da livraria! Oba! – pensou José – Serão três exemplares!

José vai até o amigo.

“Meu grande amigo, José! Eu sabia que você um dia iria brilhar!”

“Obrigado”

“Tenho certeza de que o seu futuro será promissor!”

“Você já está com o livro? Vou autografá-lo para você!”

“Bah, eu estava passando... Mas eu mereço ganhar um... Pela nossa amizade de anos”.

Continuarão sendo apenas DOIS.

Em casa, após os dois livros vendidos, José recebe uma ligação. Era de uma escola. Seria a sua salvação!

“Sr. José. Nós soubemos do sucesso de seu lançamento e gostaríamos de fazer um convite ao senhor.”

“Sim, sim!”

“O senhor poderia vir até a nossa escola e nos prestigiar com um bate papo sobre a sua obra?”

“Sim, sim!”

“Que bom! Sabíamos que poderíamos contar com a sua colaboração.”

“Colabora...”

“Sim, sim! A nossa escola fica na periferia e não temos como adquirir as suas obras. Mas a sua colaboração, doando alguns exemplares, em muito nos ajudará!”

José lembrou-se da sua imensa dívida. Da sua microscópica conta bancária.

É... Vida de escritor não é fácil.

E agora, José?