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Eco, Nos Bosques da Fábula
Eco, Nos Bosques da Fábula

ECO, NOS BOSQUES DA FÁBULA

 

Voltei do Canadá em princípio de 1975.  A ditadura brasileira agonizava, mas continuava matando gente.  O escândalo do “suicídio” do jornalista Wladimir Herzog ocorreria ainda neste ano.  Regressei à redação do Correio do Povo e Antoninho González, como o chamávamos, então na presidência da Associação Riograndense de Imprensa e na direção do Curso de Comunicação da Unisinos, convidou-me a lecionar.  A faculdade era dirigida por Miron Stoffels, um jesuíta extraordinário, que hoje está no Espirito Santo, que eu saiba.

Na sala de professores, encontrei um fanático seguidor de Umberto Eco, o professor Francisco Araújo, igualmente radical defensor dos quadrinhos.  Graças a ele comecei a ler Umberto Eco.  Primeiro, Apocalípticos e Integrados, uma boa paulada nos frankfurtianos retrógrados que teimavam em seguir a condenação mecânica da indústria cultural.  Depois, li Obra Aberta, que me interessava muito, pela minha formação em um curso de Letras e minha preocupação com a crítica de arte.

Nos dois casos, as traduções da sempre vanguardista editora Perspectiva, de São Paulo, traziam um pensamento aberto, equilibrado, de abertura de caminhos e de rejeição a quaisquer dogmas.  Eco pensava o processo cultural dinamicamente.  Num caso defendia uma análise orgânica das obras de arte e da indústria cultural, mantendo-se equidistante tanto do que ele denominava de “apocalípticos” quanto de “integrados”.  No segundo caso, abria uma avenida para a crítica de arte, mostrando a vitalidade de qualquer obra de arte a partir, exatamente, de sua “abertura”, quer dizer, de sua provocação potencial para novas ideias e uma sempre renovada leitura/interpretação de suas propostas.

Mais tarde, retomando meus estudos de pós-graduação, li Lector in Fabula, que ele retomaria parcialmente, anos depois, em Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, de certo modo, uma alegre e coerente provocação, na medida em que Eco ali defende a ideia de que cada autor, de certo modo, escolhe seu leitor e um leitor, por seu lado, escolhe seu autor.  Com isso, quebrava-se o tabu da obra difícil e do leitor incompetente, com o que Eco voltava aos princípios defendidos em Apocalípticos e Integrados e Obra Aberta.

 

 

Muitos anos depois, quem diria?  Eis o acadêmico (relativamente) circunspecto a lançar um romance que logo se tornaria best-seller, ainda que, certamente, muita gente que comprara seu romance não chegaria a lê-lo.  Aliás, Eco contaria que o editor, depois de ler seus originais, pedira-lhe que cortasse as 100 páginas iniciais, longas e aparentemente monótonas (como a rotina do convento), ao que o autor se negara.  O romance saiu na versão original, mas muita gente pulava essas primeiras páginas, perdendo, talvez, o melhor do romance, misto de obra erudita, experiência de romance policial e narrativa histórica, no melhor sentido lukacksiano.

Quando escrevi um longo ensaio a respeito do best-seller, publicado, creio eu, numa revista acadêmica da UCS, valhi-me exatamente dos exemplos de Umberto Eco, Patrick Susskind e Gabriel Garcia Marquez (na ocasião, O Perfume e O Amor nos tempos do cólera), para evidenciar que o sucesso é consequência e que, por mais que um autor tente usar fórmulas narrativas, isso não lhe garante a boa recepção do público.  Mais tarde ainda, por coerência, acabaria defendendo minha tese de doutorado a respeito do romance folhetim, estudando especialmente as chamadas estratégias narrativas, na acepção de Jesús Martin Barbero, para entender porque tais tipos de narrativas são tão populares.

Por que falar disso tudo para chorar Umberto Eco?  Na manhã em que li, no jornal, sua morte, senti uma pontada.  Sem dúvida, me tiraram um pedaço.  Uma referência intelectual.  Um sujeito a quem sempre recorri quando queria defender uma ideia nova.  Porque Umberto Eco sempre a tinha discutido antes.  Assim foi, mais recentemente, com as  questões atinentes à importância e aos riscos da internet.  Eco não teve medo: reconheceu o bom e advertiu contra o mal.

Perdemos um intelectual, na acepção literal do termo.  Aquele que é capaz de pensar conceitos novos, defender suas próprias ideias e, sobretudo, ser coerente.  Mas acho que todos os que o leram com atenção, como eu, vamos continuar seus discípulos.  Sua liberdade perdurará em nós ainda por muito tempo.

 

Fonte:  Jornal do Comércio/Panorama/Antonio Hohlfeldt (Jornalista, professor dos PPGs de Escrita Criativa e de Comunicação Social da PUCRS) em 24 de fevereiro de 2016.