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Fazendo Literatura por Luiz Maurício Azevedo
Fazendo Literatura por Luiz Maurício Azevedo

SOBRE RATOS E HOMENS

 

LUIZ MAURÍCIO AZEVEDO, DOUTORANDO EM TEORIA E HISTÓRIA LITERÁRIA ANALISA O NOVO LIVRO DE CONTOS DO GAÚCHO CÁSSIO PANTALEONI

 

Há dois tipos de livros: os aduladores e os desapontadores.  Os primeiros confirmam as expectativas do leitor.  Bem, basicamente, o leitor quer diversão.  Sem diversão, ele abandona o livro e parte para a TV.  Lá, na TV, encontra apoio no relógio de Jack Bauer, no colo da babá Nice, ou mesmo nas ilusões políticas dos telejornais.  A TV, você sabe, segue o controle remoto segue aquele que está no sofá.  Para os conglomerados midiáticos, a vida é assim e isso não constitui nenhum  problema digno de nota.  A chuva é molhada.  Os seres humanos são mortais.  E a audiência manda.  Verdades banais, portanto.  Nada de novo sob o sol.  Nenhum Eclesiastes reloaded a caminho.  É assim, dizem.

 

Na literatura, contudo, esse assim é sempre questionável.  E suposições lógicas são destruídas na primeira página dos bons romances.  Contra os livros aduladores erguem-se os livros que desapontam o leitor.  E é eles – e somente eles – que interessam.  Esqueça o carinho verbal.  Esqueça a mão amiga.  Literatura não é comfort food.  A literatura é o coração da ironia.  Nela cabem somente problematização, encrenca e sabotagem.  Nenhuma confirmação.

 

Nenhuma certeza, exceto a de que é preciso destruir certezas.  Enquanto o mundo pede para aumentar a produção, a literatura oferece uma nova pastilha de freio.  Enquanto o patrão pede um melhor ambiente de negócios, a literatura entrega uma intervenção poética.  Por isso, fazer literatura, é fundamentalmente, desapontar.  Ivan Lessa diria que a boa literatura “trata a humanidade a tapas e pontapés”.  Eu digo: a boa literatura constrói lentamente uma poderosa máquina de destruição do mundo, para depois, no último segundo, desativá-la.

 

Thomas Bernhard (que, para efeito de preguiça, chamaremos aqui de “o autor holandês”) usou sua literatura para ofender a cidade onde cresceu o país onde viveu o grupo social do qual fez parte.  Michel Houellebecq, o maior de nosso tempo, escreve para constranger as pessoas, ao ponto de hoje em dia até mesmo sua simples menção causa desconforto.  “Politicamente incorreto.”  Ou “polêmico”, são as palavras mais usadas em textos sobre ele.  “Asqueroso.”  Ou “nojento” são as palavras mais usadas para descrevê-lo nas rodas de discussão literária dos bares da Vila Madalena (ou nas mesas da Lancheria do Parque).  É o preço.  Quem ofende precisa aceitar ser ofendido.  Chove para os dois lados do campo, afinal.  Mas Cassio Pantaleoni não é Michel Houellebecq.  Ele não deseja ofender ninguém.  Embora, ofenda.  Em seu livro, DE VAGAR O SEMPRE  (Edições Besouro Box), Cássio Pantaleoni reúne um  conjunto de contos de difícil deglutição, feitos com uma linguagem sem concessões, em uma dicção tão fascinante quanto hermética.  DE VAGAR O SEMPRE é um livro chato, como ULISSES, de James Joyce.  E não possui feições nacionais.  Caberia perfeitamente na bibliografia de Mia Couto.  E na combatividade linguística de José Saramago.  Um livro artesanal, cujo objeto principal é retirar o leitor de sua zona de conforto.  Tudo nele é quebra de expectativas: das narrativas, cujo final é sempre desolador, ao formato (sabe-se que editores detestam livros de contos: o leitor médio possui certa aversão por histórias curtas).  Seguindo por essa estrada, Cássio Pantaleoni não é, tampouco, Thomas Bernhard.  Ele se recusa a ocupar o espaço reservado para a literatura insossa.  Ele prefere arriscar,  Prefere desapontar.  Prefere mandar o leitor bovaryniano, simpsoniano para o sofá.  No melhor momento de DE VAGAR O SEMPRE, o narrador anuncia, em tom cortazariano:  “Se o medo é muito, a coragem vem com vistas de escuridão.  Porque tem que sobrar alguma luz do lado de fora.”

 

O que presume o narrador é que haja algo de bom no meio do caminho, uma iluminação, um esclarecimento, um brilho.  Mas tal presunção termina em uma cena com moscas, mães e órfãs desesperadas.  Mais desapontamento.  Mais demonstração pública de que pretende cuspir em tudo o que o leitor ama adular: a sintaxe, a santidade materna, a sobriedade do papel sulfite.  Pantaleoni faz com palavras a edificação de um projeto estético ambicioso.  Muito provavelmente não chegará a realizá-lo em sua completude.  Muito provavelmente terá bem menos leitores do que o necessário para se viabilizar editorialmente.

 

Muito provavelmente não estará na Flip do ano que vem.  Contudo, está fazendo literatura.  O que mais um escritor pode querer?

 

 

Fonte:  Correio do Povo/CS/Luiz Maurício Azevedo (Doutorando em Teoria e História Literária, pela Unicamp) em 30 de julho de 2016.