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Inútil, Não Descartável
Inútil, Não Descartável

INÚTIL, NÃO DESCARTÁVEL

 

FILÓSOFO ITALIANO NUCCIO ORDINE MINISTRA (ministrou), NO PRÓXIMO DIA 10, A AULA INAUGURAL DO SEMESTRE LETIVO DA UFRGS.  VAI FALAR SOBRE A UTILIDADE DO QUE NÃO TEM VALOR IMEDIATO, COMO ARTE E FILOSOFIA, TEMA DE SEU LIVRO MAIS RECENTE.

 

Professor de literatura na Universidade da Calábria, o filósofo italiano Nuccio Ordine tem um longo percurso intelectual dedicado ao estudo da rebeldia – e de um rebelde em particular, o teólogo Giordano Bruno (1548-1600), assassinado pela Inquisição por defender ideias consideradas heréticas, como um sistema solar heliocêntrico e a ideia de um universo infinito.  Talvez por estar tão ambientado com um século longínquo e com uma polêmica que muitos consideram hoje superada, apesar de suas consequências  sangrentas na época, Ordine também se tornou um defensor de outro tipo de rebeldia: aquele conhecimento que muitos classificariam de “inútil”.  É esse o tema da Aula Magna que o italiano vai ministrar no próximo dia 10, abrindo o semestre letivo da UFRGS – universidade pela qual ele recebeu um título de Doutor Honoris Causa em 2012.

 

Em um de seus livros mais recentes, A UTILIDADE DO INÚTIL (publicado no início deste ano n o Brasil pela Editora Zahar com tradução do professor da UFRGS Luiz Carlos Bombassaro), Ordine afirma que medir todas as coisas pelo parâmetro de “utilidade” usado pelo atual estágio do capitalismo (em que tempo é dinheiro e o que vale é o empreendedorismo) é um erro que põe a perder conquistas essenciais da civilização.

 

“No universo do utilitarismo, um martelo vale mais de uma sinfonia, uma faca mais que um poema, uma chave de fenda mais que um quadro: porque é fácil compreender a eficácia de um utensílio, enquanto é sempre mais difícil compreender para que podem servir a música, a literatura ou a arte”, escreve.

 

Ordine é um bem conhecido crítico cultural, e A UTILIDADE DO INÚTIL é uma crítica a determinadas características incontornáveis da cultura contemporânea: atrelar o valor de algo a sua possibilidade de gerar lucro; a ideia de que todos os saberes devem ser orientados para a preparação para o mercado; o desdém institucionalizado por campos do conhecimento difíceis de serem “monetizados”.  O resultado é visível em várias áreas: cortes em qualquer atividade artística sob a sombra da crise econômica, a ascensão de uma mentalidade que privilegia direitos do consumidor à cidadania, na sociedade e mesmo na escola.

 

Para Ordine, a cada vez mais comentada cisão entre os saberes científicos e os “de Humanas, privilegiando os primeiros por sua aplicação prática e até mesmo pela sua utilidade financeira, perpetua uma separação artificial do conhecimento que é mais prejudicial do que propriamente útil, co contrário do que dizem os maiores defensores dessa clivagem.  Ele inclui em seu livro um ensaio pouco conhecido do acadêmico de Princeton Abraham Flexner, escrito em 1937, e que “apresenta uma narrativa fascinante da história de algumas grandes descobertas, para mostrar como até mesmo as pesquisas científicas teóricas consideradas mais inúteis, porque privadas de qualquer objetivo prático, têm inesperadamente favorecido aplicações prática das telecomunicações à eletricidade.”

 

Nesse cenário, Ordine defende em uma série de pequenos ensaios fragmentários que versam sobre literatura, grandes autores, ensino e filosofia, que o inútil é ele próprio um ato de rebeldia, uma espécie de pano de fundo capaz de gerar consciência crítica em um mundo em que as coisas cada vez mais pesam o quanto valem.

 

 

Fonte:  ZeroHora/Carlos André Moreira (carlos.moreira@zerohora.com.br) em 6 de março de 2016.