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Literatura e Frente Fria
Literatura e Frente Fria

LITERATURA E FRENTE FRIA

                                                  

Análise:  Professor da Faculdade de Letras da PUCRS trata da literatura num Brasil de temperaturas extremas e paradoxais.

 

Enquanto na TV ecoam os gritos de uma ensolarada arena de Copacabana, observo, pela janela do meu apartamento, o Guaíba.  O céu continua acinzentado em mais uma manhã de inverno porto-alegrense.  Os jogos Olímpicos parecem ser realizados num país distante, em pleno verão. ´É inegável o contraste entre o frio, que penetra até os nossos ossos, e o escaldante ambiente do vôlei de praia.  Daí se origina um irônico paradoxo: assistimos, protegidos por mantas e casacos, imagens de areia, suor e sol.  Sentimos, ao mesmo tempo, uma sensação de estrangeridade e de inautenticidade  quando se trata de uma identidade tropical.  E mais: até que ponto partilhamos dos mesmos pertencimentos elencados nesse script de brasilidade?  Será que vivenciamos uma espécie de torcicolo cultural que nos coloca numa posição de excêntricos subtropicais.  E a literatura?  Como fica nessa esquizofrenia sulina?

 

Em um texto de 1800, intitulado Sobre a literatura do Norte e do Sul, a escritora Madame de Staël propôs uma teoria que buscava responder essas inquietações entre clima e estética.  Segundo esses pressupostos, as obras inglesas e alemãs, classificadas como literaturas do Norte, carregam características marcadas por um timbre filosófico, melancólico e triste.  Influenciados pelos bardos escoceses, os poetas ingleses estariam matizados pelo aspecto reflexivo à beira do mar e ao sussurro do vento.  A imaginação dos homens do Norte passaria por uma alma cansada frente aos confins selvagens e sombrios.  As pesadas nuvens que orlam o horizonte ameaçariam uma escura passagem da vida para a eternidade.  Contrariamente, os poetas do Sul (espanhóis, franceses, italianos) combinariam imagens de frescor, dos bosques frondosos, dos límpidos riachos com todos os sentimentos de vida.  Aquela vívida natureza despertaria mais ações que o pensamento.  Já os povos do Norte se ocupariam menos com os prazeres do que com a dor, e sua imaginação por isso é mais fecunda.  Nas palavras da escritora, “o espetáculo da natureza age fortemente sobre eles; ela age como se mostra naqueles climas, sempre sombria e nebulosa”.  Esse climograma estético seria tão forte que a poesia norte reproduziria o espírito de um povo livre, enquanto a servidão atravessaria a poesia do Sul.  O rio, em última instância, deixaria a arte mais melancólica, sombria, introspectiva e filosófica.  Em consonância, o espírito se torna mais guerreiro frente às asperezas do inverno e a tristeza do céu.

 

Oitenta e oito anos depois do textos de Madame de Staël, Araripe Junior publica um curioso texto, intitulado Estilo Tropical.  O crítico brasileiro estabelece novamente a simbiose entre clima e literatura.  Os aspectos feéricos do calor são analisados como empecilhos que embebedam diante a falta de oxigênio.  A imaginação superexcitada pelos trópicos levaria a uma afirmação radical, por parte do pensador: “o tropical não pode ser correto”.  A correção “é fruto da paciência e dos países frios; nos países quentes, a atenção é intermitente”.  O estilo “nessa terra é como o sumo da pinha”, que, quando viça, lasca, deforma-se.

 

Cabe aqui uma pergunta central: quais são os perigos desse determinismo geográfico e estético?  Flertar com um essencialismo nazista é um risco  absolutamente real.  Simular possíveis correlações estéticas através do espaço físico pode remontar ao aniquilamento da literatura enquanto constructo linguístico.  E mais: pode nos desumanizar ao ponto de introduzir uma visão desenvolvimentista e evolutiva da literatura.  Desse modo, é necessário muito cuidado com as incursões fascistas que sacralizam uma espécie de genoma da alta literatura e dos espíritos guerreiros.  O racismo à brasileira é uma realidade que não pode ser negada.  Encontrar defensores de uma teoria climática do subdesenvolvimento não será tarefa difícil: nas frias ruas sulinas ainda ecoam clichês a respeito da preguiça do Brasil tropical.  Para muitos defensores de uma ética do frio, calor e malemolência parece se constituir num binômio inseparável.

 

E a indagação permanece.  Será que o clima não influencia em nada na produção estética?  Talvez Vitor Ramil tenha sido quem rascunhou uma resposta mais produtiva.  Em 2003, numa conferência intitulada “Estética do Frio”, o escritor gaúcho propõe a condição de estranhamento como elemento marcante da literatura do frio.  Longe dos meros estereótipos de gauchismo, somos marcados por uma relação de alteridade no tocante ao Brasil tropical.  Estamos constantemente marcados por uma incerteza entre o “nós” e os “brasileiros”.  O sentimento que nos identifica é justamente o reconhecimento e a avulsão.  Ora somos fetichizados como estranhos, ora somos assimilados como testemunhas do ecletismo multicultural.  O sentimento de deriva nos interdita no cotidiano “não estamos à margem de um centro, mas no centro de uma outra história”, segundo Ramil.  Vivemos uma paralaxe identitária em interminável movimento.  Volto a assistir à Olimpíada, sediada nesse país ensolarado, no qual os cartazes de protesto são considerados armas perigosas e os medalhistas batem continência no pódio.

 

Madame de Staël

 

Fonte:  Correio do Povo/CS/Ricardo Barberena ( professor da faculdade de Letras da PUCRS) em 27/8/2016.