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Me Chame pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino
Me Chame pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino

DESEJO À FLOR DA PELE

 

Um dos favoritos da temporada de prêmios, ME CHAME PELO SEU NOME retrata paixão entre dois jovens e tem brasileiro na produção.

 

Uma história de amor desde a troca de olhares inicial até a etapa final, passando por momentos de intimidade filmados com frescor e naturalidade – incluindo a estranheza da primeira relação sexual. É apenas por acaso que ME CHAME PELO SEU NOME, dirigido pelo italiano Luca Guadagnino e produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, retrata um romance entre dois homens. O que importa no drama indicado a três Globos de Ouro e um dos possíveis candidatos ao Oscar é o desejo que consome os amantes, impregnando a tela com uma sensualidade explosiva que não se limita às cenas de cama.

 

Como diz a canção do Prefab Sprout, todo o mundo ama os amantes”, afirma Guadagnino, referindo-se à faixa “All the World Loves Lovers”, lançada pela banda pop inglesa em 1990. “Quando a ideia é retratar o amor carnal no cinema, muitas vezes a câmera assume uma postura de voyeur, o que não me agrada. É por isso que a tendência aqui é nos apaixonarmos com os personagens”, afirma o diretor de 46 anos, em entrevista ao VALOR, durante a 13º edição do Festival de Cinema de Zurique (ZFF).

 

Para capturar o comportamento dos amantes com mais espontaneidade, Guadagnino procurou fazer a câmera passar despercebida no filme que chega aos cinemas brasileiros em 18 de janeiro. “Evitamos os movimentos mais exuberantes que geralmente levam o espectador a tomar consciência da posição do equipamento. Como nós, atrás das câmeras, precisávamos ser invisíveis, também opamos por usar uma única lente, a mais próxima do olho humano, durante toda a filmagem. Ao dispensar tanta preocupação técnica, o filme respirou muito mais, deixando a sua essência aflorar.”

 

A atração entre Elio (Timothée Chalamet), um garoto de 17 anos, e Oliver (Armie Hammer), um pesquisador oito anos mais velho, é desencadeada na paisagem luminosa do interior da Itália, na comuna de Crema, no Norte do país. A dupla se conhece durante um verão, na casa de campo da família de Elio, onde o pesquisador é recebido para ajudar o patriarca, professor de arqueologia, com a papelada acadêmica no período das férias.

 

Apesar dos contrastes (Elio é franzino e tímido, enquanto Oliver é alto e atirado), o romance é inevitável, à medida que eles passam os dias ensolarados grudados. Como tudo é filmado da perspectiva dos amantes, eles veem beleza e erotismo em tudo – ao colherem frutas do pé, espantarem o calor na piscina ou no riacho ou desbravarem a região de bicicleta. “Pelo filme ser essencialmente sensual, nós não precisamos ser explícitos em cenas de sexo. A proposta é explorar a química da atração”, diz Guadagnino, dos filmes UM SONHO DE AMOR (2009) e UM MERGULHO NO PASSADO (2015), que também tratam de desejo.

 

Os anos 80, época em que a trama de ME CHAME PELO SEU NOME é ambientada, contribui para a tensão sexual, na visão do cineasta. “As camisas abertas e os shorts curtos eram comuns naquela década, dando a impressão de que as pessoas eram mais livres na sua linguagem corporal. Mesmo de roupa, Armie [de 1,96mde altura] está muito sexy com as suas longas pernas de fora”, diz Guadagnino, rindo.

 

Aclamado pela crítica desde a sua première mundial, no Festival Sundance, ME CHAME PELO SEU NOME soma três indicações ao Globo de Ouro, o troféu concedido anualmente pela Associação de Correspondentes Estrangeiros em Los Angeles. Concorre na 75ª cerimônia do prêmio, agendada para 7 de janeiro, nas categorias de melhor filme dramático, melhor ator em drama (Timothée Chalamet) e melhor ator coadjuvante (Armie Hammer). No Independent Spirit Awards, considerado o Oscar do cinema independente e com festa marcada para 3 de março, são mais seis indicações (filme, diretor, ator, ator coadjuvante, montagem e fotografia). A Associação de Críticos de Los Angeles ainda o escolheu como o melhor filme do ano, além de eleger Chalamet o melhor ator e Guadagnino o melhor diretor (troféu dividido com Guillermo del Toro, por A FORMA DA ÁGUA).

 

Por ser uma das favoritas nessa temporada de prêmios, a produção da RT Features, baseada em São Paulo, deverá ser lembrada também nas indicações ao Oscar – os candidatos à 90ª edição serão conhecidos em 23 de janeiro, com entrega das estatuetas em 4 de março. Caso a Academia também se renda à atmosfera do romance, elegendo-o como o melhor filme do ano, será a primeira vez na história que um brasileiro ganhará um Oscar. É o produtor que sobe ao palco para receber a estatueta na categoria. “Adoro trabalhar com Rodrigo, por ele ser um produtor esperto e inteligente. Ainda demonstra bom gosto nas escolhas que faz e entende a personalidade dos cineastas”, afirma Guadagnino.

 

ME CHAME PELO SEU NOME guarda algumas semelhanças com o vencedor do Oscar principal deste ano, “MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR”. Também é uma produção de baixo orçamento (realizada com US$ 3,5 milhões) e com temática LGBT (sigla para lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros).

 

Inspirado no livro homônimo do americano André Aciman – com lançamento previsto no Brasil no início do ao que vem, pela editora Intrínseca –, o roteiro é assinado por James Ivory. Mais conhecido por UMA JANELA PARA O AMOR (2985), RETORNO A HOWARD’S END (1992) e VESTÍGIOS DO DIA (1993), o inglês escreveu e dirigiu outra história de amor gay, MAURICE (1987) – neste caso, mais sombria e desesperançosa.

 

O livro de E.M. Forster [1879-1970], no qual ‘Maurice’ foi baseado, celebrava o poder do amor entre o mesmo sexo, além das limitações impostas pela sociedade. Foi a adaptação cinematográfica que tomou um rumo mais obscuro, mostrando os personagens escravizados pelas aparências”, conta o diretor, que encomendou uma adaptação “inspiradora” de ME CHAME PELO SEU NOME a Ivory.

 

A ideia é que os personagens aqui se deixem levar pelos seus impulsos, como em qualquer caso de amor, gay ou não.” Guadagnino deixa claro que o destino dado ao romance, pelos seus protagonistas, não é necessariamente ditado pela pressão da sociedade. A reação do pai de Elio (vivido por Michael Stuhlbarg) é surpreendentemente favorável – talvez por ele ser um intelectual e ter uma visão mais abrangente da vida. “Os jovens são honestos a ponto de abraçarem o que sentem, vivendo intensamente a paixão, ainda que às escondidas. O que acontece depois é outra história, até porque amor de verão costuma ser efêmero. O mais importante é aceitar como a libido pode ser imprevisível, deixando-nos irremediavelmente inebriados de desejo.”

 

TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=7yCwv8FjidU

 

Fonte: Revista Valor/Elaine Guerini, de Zurique em 15/12/2017.

 

NOTA: Ganhou nove prêmios em diversos festivais, mais o Oscar de melhor roteiro adaptado.