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Memórias de Leonilson
Memórias de Leonilson

MEMÓRIAS DE LEONILSON

 

FITAS-CASSETE GRAVADAS PELO ARTISTA, FALECIDO EM 1993, DERAM ORIGEM A DOCUMENTÁRIO A PAIXÃO DE JL

 

 

 

Em janeiro de 1990, três anos antes de sua morte, o artista José Leonilson Bezerra Dias começou a criação de um diário íntimo gravado com fitas-cassete.  A partir desses registros, o diretor Carlos Nader, amigo íntimo do cearense, construiu o longa-metragem A PAIXÃO DE JL, que entra em cartaz no circuito nacional do Espaço Itaú de Cinema, incluindo Porto Alegre.

Nas narrações, Leonilson faz menção ao cotidiano, com comentários e reflexões sobre trabalhos, tristezas e alegrias, amores e desamores, medos, família, homossexualidade e a descoberta da doença.  “É apenas a história de uma pessoa que viveu durante três anos com coisas cotidianas da vida, paixões, relações amorosas.  E tudo muda quando ela descobre que vai morrer em dado momento”, conta Carlos Nader.

Através de seus relatos, o espectador embarca em uma história pessoal de paixão, dúvidas e questionamentos, arte e criação, acompanhados por imagens, músicas e algumas das principais obras do artista.  Em uma hora e meia, a composição poética audiovisual conduz às impressões do que José Leonilson viu e sentiu em seus últimos anos.

 

 

Pintor, desenhista e escultor brasileiro, José Leonilson nasceu em Fortaleza, em 1957, e morreu em São Paulo, vítima de Aids, aos 36 anos.  A convivência com a doença foi uma das características predominantes em suas obras.  Em um de seus últimos trabalhos, uma instalação concebida para a Capela do Morumbi, em 1993, é percebido um sentido espiritual que alude à fragilidade da vida.

Os áudios vieram à tona durante uma pesquisa que Nader fazia para organizar a exposição retrospectiva do artista, Sob o peso dos meus amores, em 2011, da qual ele também foi curador.  Contudo, o diretor afirma que Leonilson não havia feito o diário com o intuito de deixa-lo escondido, pois tinha conhecimento de que, no futuro, seu conteúdo seria de interesse público.  “Ele sabia da sua importância como artista e gravou os registros como uma espécie de último trabalho, uma autobiografia deixada por ele.”

Amigos de longa data, Carlos Nader afirma que, apesar de ser uma figura próxima do artista, conseguiu manter um distanciamento para criar a obra.  “Mesmo que seja delicado você selecionar trechos da vida de uma pessoa conhecida, eu consegui olhar aquilo de forma diferente, sem misturar sentimentos.”

Segundo o diretor, um dos maiores desafios foi transformar 17 horas de gravação que não traziam nenhum tipo de confusão ou descoberta em um conteúdo que transmitisse a humanidade e sensibilidade do pintor.  “Acho que é justamente isso que emociona no filme, o fato de que ele apresenta situações muito banais, sem grandes fatos”, comenta.

 

 

O documentário apresenta semelhanças com as obras de Leonilson, conhecido por suas pinturas autobiográficas.  Nader conta ainda que o artista tinha muitos amigos, mas que ainda não havia tido um grande envolvimento amoroso e estava em busca de um relacionamento mais profundo.   “O filme mostra esse aspecto, a vida de uma pessoa que está à procura de alguém, mas que, quando a encontra, descobre ser soropositivo, o que, na época, era considerado uma sentença de morte.”

Nader destaca que o título do documentário se refere a traços da obra de Leonilson, como a presença constante de temas como paixão no sentido do amor, além da paixão como sentido de dor, sofrimento.  Mesmo não sendo religioso, Leonilson trazia em suas pinturas de peixes e cruzes, símbolos cristãos.

Com dois anos e meio de edição, A PAIXÃO DE JL é uma produção do Itaú Cultural e já foi premiado em diversos festivais do Brasil e do exterior, como É Tudo Verdade, em 2015, e o prêmio especial pelo júri no 37º Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano de Havana.

 

Fonte:  Jornal do Comércio/Panorama/Luiza Fritzen em 25 de fevereiro de 2016.