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Miguel de Cervantes, Marginal
Miguel de Cervantes, Marginal

CERVANTES MARGINAL

 

Um dos marcos literários de 2016 foi – sem sombra de dúvida – a recordação de uma espécie de orfandade literária comum a todos nós e motivada pelos 400 anos da morte de dois gênios das letras universais: Miguel de Cervantes (Alcalá de Henares, 1547 – Madri, 1616) e William Shakespeare (Stratford-upon-Avon, 1564-1616). Agora, em 2017, é hora de lembrar do nascimento deles, numa inversão compensatória do ano passado que trouxe tantas desventuras.

 

Enquanto a biografia conhecida do autor inglês nos fala de uma vida aparentemente sossegada, a vida de Cervantes constitui a maior fonte de inspiração para sua ficção literária, cheia de viagens, misérias e de várias prisões.

 

Cervantes, que viveu num tempo cujo ideal de vida consistia em buscar a junção das armas e das letras, viajou ainda jovem para a Itália e lutou bravamente na Batalha de Lepanto, onde provavelmente perdeu o movimento de seu braço esquerdo. Em 1575, voltando à Espanha, foi feito refém pelos corsários berberiscos, passando cinco anos preso na cidade de Argel, onde conheceu o melhor e o pior da condição humana.

 

Tentou quatro fugas, sem sucesso. Resgatado e já de volta à corte espanhola, buscou um emprego na administração e no exército do Novo Mundo. Mas suas tentativas de demonstrar à Inquisição que tinha sangue “limpo”, isto é, católico de quatro gerações, foram em vão. Só conseguiu um emprego público como arrecadador de impostos, o que lhe trouxe mais problemas que lucros.

 

Acusado de má gestão, foi parar na prisão de Coria del Río (Córdoba), em 1582. Em 1599, foi preso de novo quando o banco onde ele depositara uma enorme quantidade de dinheiro arrecadado foi à falência, deixando o escritor com uma imensa dívida que não foi capaz de pagar. Dessa vez foi para na Prisão Real de Sevilha, edifício que era, na época, uma verdadeira cidade penitenciária. Ali ficou encarcerado cinco meses e possivelmente foi onde começou a gestar “o melhor livro de todos os tempos”, DOM QUIXOTE – escolhido em 2002 por um grupo de 100 escritores de 54 países.

 

Quatro anos depois, quando Cervantes saboreava o sucesso do seu cavalheiro andante, foi levado à prisão uma vez mais após um homem chamado Ezpeleta aparecer morto em frente a sua casa em Valladolid, sem que se pudesse provar que o escritor tivesse alguma relação com essa morte.

 

Apesar de tantas desventuras, Cervantes se converteu em um romancista bem sucedido com suas “Novelas exemplares”, em um poeta narrativo com VIAGEM AO PARNASO, um poeta dramático com suas COMÉDIAS, um escritor culto com PERSILES, e isso graças à experimentação marginal que fez com seu universo de referências de grande leitor, onde chegou a ter a ousadia (para a época) de dar voz aos ciganos, e foi além, a uma personagem cigana. Mas não só isso. Também, com o resultado que conhecemos, deu voz a um fidalgo empobrecido e a um camponês rústico, a Dom Quixote e a Sancho Pança.

 

O gênio de Cervantes está precisamente nessa capacidade de ajustamento dos acontecimentos à própria realidade, a criada por ele, perfeita interpretação daquele fator capital humano proposto pelo filósofo espanhol Julián Marías, que faz com que o imaginado e o desejado possam vir, sim, a ser a pedra angular das nossas vidas.

 

Fonte: Correio do Povo/Estefanía Bernabé Sánchez e Ruben Daniel Méndez Castiglioni (Escritora e filósofa e Professor da UFRGS – Organizadores do livro Velis, nolis Cervantes (Editora do Instituto de Letras-UFRGS) em 22/04/2016.