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Moby Dick
Moby Dick

MOBY DICK, OU A BALEIA

 

PERSONAGENS QUASE HUMANOS – PARTE 6

 

Ao contrário de seu breve e explicativo título, “Moby Dick, ou A Baleia”, é um romance hiperbólico, que tem como características o super-humano e o sobrenatural.  Publicada em 1851 pelo norte-americano Herman Melville (1819-1891), a obra ultrapassa tudo o que o escritor já publicara em livros anteriores a respeito de suas experiências de viagem nos Mares do Sul.  De uma forma impressionante, ela rompe as fronteiras da narrativa realista e descritiva, ingressando n um mundo de fantasia e obsessão.  As duas criaturas que encarnam esse mundo são o capitão Ahab e a baleia Moby Dick.

Mas Moby Dick se aproxima dessas dimensões de maneira gradual e serena.  Ishmael, o jovem narrador, levado pelo desejo de espantar a depressão , abandona seu posto de mestre-escola do interior dos Estados Unidos em uma época imprecisa, que podemos identificar com a época em que a obra foi escrita – a metade do século XIX.  Em meio à intensa migração de pessoas para o Oeste em busca de ouro e terras, que provoca uma sublevação de valores e uma mistura de etnias jamais vista na história da nação americana, Ishmael vai na direção contrária.  Dirige-se a Nantucket, na costa leste, então um porto fervilhante de marujos, comerciantes e armadores.  Inexperiente, tem a sorte de conhecer Queequeg, um selvagem, exímio arpoador, e ambos juntam-se à tripulação do baleeiro Pequod.

 

                  

 

Na longa viagem de três anos que se inicia, ao mesmo tempo em que desempenha as inúmeras tarefas de um aprendiz a bordo do baleeiro, Ishmael vem a conhecer a heterogênia tripulação do Pequod:  os arpoadores Tashtego, um indígena, e Dagoo, um africano; uma equipe de arpoadores asiáticos especialmente contratada pelo capitão do navio, sob o com ando de Fedallah; os imediatos Starbuck, Stub e Flask; o cozinheiro, o carpinteiro e todos os numerosos ajudantes que viajam a bordo para matar baleias e extrair delas o óleo que tornará ricos os proprietários do enorme barco.  Depois de semanas no mar, o último a emergir de sua cabine, cercado de um grupo de arpoadores orientais que ele mesmo contratou, é o capitão Ahab – o verdadeiro protagonista, com uma perna de marfim e o corpo marcado pelo confronto com uma baleia.  Em meio a uma tempestade espetacular, dá a entender à tripulação atônita que o propósito da viagem não é levar riquezas para terra e sim dar caça a Moby Dick, a gigantesca baleia branca que o mutilou.  Só Starbuck, um dos imediatos, tem a coragem de opor-se aos planos do capitão, mas sua voz é calada por outro fato imprevisto:  Moby Dick é subitamente avistada ao longe.

A partir de então, todas as energias da tripulação contagiada se concentram na perseguição desse animal fugidio, que se tornou a monomania do capitão e alimenta a fantasia de seus comandados:

Eu, Ishmael, fazia parte dessa tripulação;  meus gritos haviam subido com os dos demais;  meu juramento somara-se ao deles; e mais forte ergui meus brados, e mais firmemente martelei meu juramento por estar com a alma aterrorizada.  Um sentimento bravio, misterioso, solidário me tomava; a inextinguível animosidade de Ahab parecia minha.  Com ouvidos ávidos aprendi a história daquele monstro assassino, contra o qual eu e todos os outros havíamos jurado violência e vingança.

Os testemunhos a respeito da verdadeira existência de Moby Dick – um cachalote branco – provêm de outros pescadores de baleias que andam pelos mares do mundo.  Aqui e ali, eles avistam “um cachalote de tamanho e malignidade invulgares”.  “Depois de ter causado grande dano a seus atacantes, lhes havia escapado completamente”.  Em um trajeto que se estende do Norte do Atlântico ao Norte do Pacífico, passando pelo Atlântico Sul e o Oceano Índico, o monstro fora visto várias vezes e nos mais diversos lugares.  Sua ubiquidade, a que se acrescenta uma brancura sinistra, gera boatos, faz com que lhe sejam atribuídas qualidades humanas e defeitos diabólicos.  Tais características, que aterrorizam a maioria dos capitães e pescadores, por alguma razão, estimulam a fúria do capitão do Pequod, que move à besta uma perseguição tenaz e sem tréguas, muito além dos limites do racional.  Por que o faz, se conhece os perigos do empreendimento?  Para Ishmael, “O Cachalote Branco nadava diante dele como a encarnação monomaníaca de todas aquelas malignas intervenções que alguns homens profundos sentem corroê-los, até que ficam vivendo com meio coração ou com um pulmão pela metade”.  E mais:

 

 

Todos os sutis demonismos da vida e do pensamento; todo o mal, para o doido Ahab, personificava-se visivelmente e podia praticamente ser atingido em Moby Dick.  Ele amontoava sobre a corcova do Cachalote Branco o total da raiva e do ódio sentidos pela humanidade desde os tempos de Adão; e então, como se seu peito fosse um morteiro, estourava nela a granada de seu coração ardente.

O desfecho, narrado nos três últimos dos 135 capítulos da obra, dá conta da perseguição final, que se estende por três dias.  Mortos os seus arpoeiros e destruídos os seus barcos, o próprio Ahab lança-se sobre Mody Dick, mas, preso a uma corda, morre agarrado ao flanco da baleia.  Em seguida, esta lança-se contra o navio, que faz soçobrar com toda a tripulação restante.  Agarrado a um ataúde que fora feito para seu amigo Queequeg quando ele estava com febre, o único a salvar-se é Ishmael.  Termina aí seu aprendizado – o baleeiro, como já havia dito, fora para ele Harvard e Yale.

 

Fonte:  Correio do Povo/Pedro Theobald (Professor de graduação e pós-graduação (PPGL) em Letras da PUCRS) em 12/09/2015.