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Não Há Maravilhas no País dessa Alice
Não Há Maravilhas no País dessa Alice

NÃO HÁ MARAVILHAS NO PAÍS DESSA ALICE

 

O INQUIETANTE DRAMA “A GAROTA DO LIVRO’ DENUNCIA O ABUSO MASCULINO.

 

As atribulações de jovens adultos enfrentando na cidade grande as demandas do amor e do trabalho são um dos temas prediletos das comédias românticas e dramáticas americanas atuais.  A abordagem da diretora estreante Marya Cohn em A GAROTA DO LIVRO (2015), porém, passa ao largo do riso condescendente e da simpatia cúmplice do público: sua narrativa dura e segura provoca inquietação e reflexão ao acompanhar o angustiante cotidiano de uma aspirante a escritora em Nova York, sufocada por um segredo do passado e pelo patriarcalismo do meio literário.

 

No filme, Alice Harvey (Emily VanCamp, de CAPITÃO AMÉRICA: GUERRA CIVIL) trabalha como assistente de uma editora de livros.  Aos 28 anos, a personagem não consegue deslanchar sua escrita por conta de um permanente bloqueio criativo, nem engatar um relacionamento estável – Alice preenche as noites vazias indo para a cama com homens que encontra em bares.  Filha de um poderoso e autocentrado agente literário, ela é confrontada com dolorosas lembranças ao ser designada por seu chefe, um editor autoritário, para trabalhar no relançamento do best-seller do escritor Milan Daneker (Michael Nyqvist, protagonista da trilogia sueca inspirada nos romances policiais da série MILLENNIUM).  Ao mesmo tempo em que inicia um namoro com o simpático ativista político Emmett (David Call), Alice recorda-se da adolescência, quando Milan, então um promissor cliente de seu pai, aproximou-se dela sob o pretexto de aconselhá-la em seus escritos.  A convivência com esse homem bem mais velho vai deixar marcas traumáticas em Alice.

 

O roteiro da realizadora Marya Cohn acerta n o tom: A GAROTA DO LIVRO consegue esboçar uma personalidade feminina reprimida por um entorno masculino hostil, evitando tanto o sentimentalismo autocomiserativo quanto o panfletarismo incendiário.  Ao contrário: o clima claustrofóbico da história retira sua força justamente das repressões sutis do dia a dia da protagonista e do caráter matizado dos personagens – Milan é muito mais complexo do que um mero vilão abusador e o comportamento afetivo de Alice é muitas vezes condenável.  Na busca pela expressão das emoções e contradições de suas criaturas, A GAROTA DO LIVRO explora os planos fechados nos rostos, filmados muitas vezes com a câmera no ombro – a imagem tremida ecoando a instabilidade de relações e estados de espírito em foco.  Tanto a atriz canadense Emily VanCamp quanto, especialmente, o ótimo ator sueco Michael Nyqvist dão conta das nuances interpretativas exigidas por essa proximidade da lente.  Merece destaque ainda a jovem atriz inglesa Ana Mulvoy-Tem, que encarna a insegura mas curiosa Alice adolescente.

 

Estabelecendo paralelos entre sua Alice e a pequena heroína das célebres aventuras escritas por Lewis Carrol, o longa denuncia com sensibilidade e sobriedade o vampirismo intelectual e o assédio sexual e profissional exercido por homens.  Drama feminino perturbador e cativante, A GAROTA DO LIVRO é um auspicioso começo para uma cineasta novata.

 

 

Fonte:  ZeroHora/Segundo Caderno/Roger Lerina (roger.lerina@zerohora.com.br) em 27 de maio de 2016.