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Novos Tempos por Tatiana Mareto Silva
Novos Tempos por Tatiana Mareto Silva

NOVOS TEMPOS

por TATIANA MARETO SILVA

O Boticário fez uma publicidade muito legal retratando casais, amigos e familiares se presenteando. Recebeu diversas críticas porque, dentre os casais, havia homoafetivos. A publicidade foi considerada, por alguns, capaz de ajudar em uma maligna conspiração illuminati para acabar com a família.

Daí o Boticário faz outra, retratando casais que estão se separando. Os três casais, de pessoas magras, brancas e aparentemente de classe média alta/alta, dizem por que o casamento acabou.

As mulheres, depois, passam por uma transformação de beleza e se encontram com os ex maridos para assinar o divórcio. E pans! Lindas, estonteantes, mega power, elas chocam os ex maridos com sua beleza de miss e...

Chega. Podemos parar por aí para analisar algumas coisinhas que me incomodaram muito.

 

 

Primeiro que o divórcio não é um assunto que eu entenda que deva ser abordado levianamente. Já participei de vários divórcios na condição de advogada, e uma pequena parcela deles foi realmente consensual. Há muita mágoa e ressentimento no fim de um relacionamento, mesmo que ele "acabe bem". Acabar bem, nesse sentido, é geralmente não acabar em um filme de terror, com morte e alienação parental. Mas não é bem, bem mesmo. Tem exceções, mas não podemos tomar a exceção como regra.

Então, fazer publicidade de cosmético abordando o divórcio... não. Não aprovei só da, nem se fosse para fazer piada.

Mas o principal problema da publicidade é mesmo a reafirmação nociva de dois estereótipos patéticos que todos deveríamos lutar contra: 1) A mulher só existe se for bonita (e, por bonita, entenda-se dentro de padrões estabelecidos por sei lá quem) e 2) O homem só se interessa pela mulher bonita externamente. Vamos adicionar um terceiro estereótipo aqui, focando os relacionamentos humanos: a beleza física é o principal ingrediente para manter um casamento/namoro.

O que é beleza, afinal? Quem é bonito e quem é feio? Eu lá tenho alguma competência para ditar um padrão universal de beleza? O Boticário tem? Alguém tem? Vemos todo dia pessoas morrerem ou perderem a saúde para se adequar a um padrão inacessível para a maioria das pessoas na Terra. Um padrão de pessoas que não são pessoas, mas que tentam nos impor como se fosse a regra da beleza. Seja uma Barbie ou será feia, e ninguém vai te querer. Seja um Ken ou será feio, e ninguém vai te querer. Essa coisa de padrão de beleza era mais um problema feminino, hoje atinge bastante os homens, também. Então, enaltecer essa tal beleza que as pessoas precisam sofrer para atingir não me parece lá uma coisa muito legal, não.

 

 

Tudo bem que o Boticário vende cosméticos, como bem li em um texto falando do mesmo assunto. Mas ele precisa vender para transformar todo mundo em Barbie? Não seria mais proveitoso pegar a onda da diversidade mostrada na publicidade dos casais e mostrar que seus cosméticos servem para enaltecer a beleza de cada um? Porque sim, eu acredito que toda pessoa é linda e não vejo problema em gostar de maquiagem para se tornar mais linda. O problema está em se tornar escravo de padrões inatingíveis.

Partindo do princípio que o Boticário está reforçando esse padrão de beleza que me incomoda, ele também reforça que mulheres precisam segui-lo para manterem o casamento, para serem importantes, para se sentirem empoderadas. As 3 mulheres retratadas na publicidade já eram lindas sem o makeover, então, elas não precisavam dele para se sentirem nada. Nem para fazer inveja nos ex maridos. Fala sério, Boticário! Mostrar a mulher toda produzida e o olhar surpreso do cara no estilo "olha o que você perdeu" não tem nada a ver com o que foi mostrado no início da publicidade, de que os casamentos acabaram por "várias coisinhas". O que eles mostram, na verdade, é que o casamento acabou porque os maridos passaram a achar as mulheres feias, ou comuns demais, e que apenas se eles a achassem lindas é que o casamento se manteria.

 

 

Aí vem à baila outro estereótipo, o de que todo homem só enxerga essa beleza externa idealizada. De que todo homem só quer peitão, bundão, mulher maquiada desde a hora em que acorda, com escova no cabelo, cintura de pilão, vestindo 36 (porque 38 é gorda e 42 é plus size). Que, se não for assim, ele vai buscar outra para colocar no lugar, vai trair, vai "cair na farra" com as novinhas (termo deplorável!).

Eu não acredito que toda mulher precise se enquadrar em um padrão de beleza para ser empoderada, pelo contrário. Esse é um estereótipo que precisa ser banido. Não consigo aceitar UM padrão de beleza. Há muita beleza que não conseguimos apreciar porque continuamos presos ao que nos ensinaram que é belo. E desprezamos o que consideramos feio, insistindo em nos tornar aquilo que não somos. Para que? Para agradar a quem, AOS HOMENS? De novo: Fala sério, Boticário!

Também não creio que os homens sejam todos assim. Se são, está na hora de mudar isso, não de reforçar. Homens que amam suas parceiras porque elas são muitas coisas, também bonitas, e que não deixam de "olhar para elas" porque engordaram, ganharam estrias, cortaram o cabelo ou não fizeram a unha.

O Boticário deu uma bolaça fora nessa publicidade, que só serviu para empoderar estereótipos horríveis.

PS: li um comentário em uma matéria de que o comercial seria empoderador sim, e que as mulheres estavam se arrumando para elas, não para reconquistar os ex.

Empoderador para a mulher não é insistir que ela precisa ser linda e cheia de maquiagem para ser alguém e se sentir bem. Ela tem que se sentir bem do jeito que ela quiser, com maquiagem ou sem. Ela tem que se sentir bem sendo ela mesma. Se todas precisaram passar por um makeover para enfrentar o divórcio, não estavam tão preparadas assim para o momento (o que me retorna ao início do meu textão, sobre os divórcios serem problemáticos em sua essência) e precisavam estar lindas para jogar na cara, sim, que são poderosas - mas depois do makeover. Elas não seriam poderosas sem ele?

 

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