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O Brasil de Abramovic
O Brasil de Abramovic

O BRASIL DE ABRAMOVIC

 

ESPAÇO ALÉM ACOMPANHA JORNADA ESPIRITUAL EMPREENDIDA PELA ARTISTA SÉRVIA MARINA ABRAMOVIC NO INTERIOR DO PAÍS AO LONGO DE TRÊS ANOS.

 

A sérvia Marina Abramovic, 69 anos, é um dos maiores nomes da arte da performance na história.  Nos últimos anos, desde que começou a colaborar e aparecer ao lado de estrelas da música e do cinema como Lady Gaga, Jay-Z e Brad Pitt, sua fama tem sido amplificada em escala mundial, transformando-a em uma celebridade que extrapola o mundo das artes.

 

O ponto alto desse sucesso foi a exposição A Artista Está Presente, em 2010 que arrastou multidões para o MoMA, de Nova York, e rendeu um filme.  Durante três meses, Marina passou várias horas do dia dentro do museu sentada em uma cadeira de frente para outra sala vazia, que recebia um a um os visitantes que formavam extensas filas para vê-la.  A performance da artista consistia em ficar encarando em silêncio, e o quanto fosse possível, cada um que sentasse diante dela.  Na experiência, muitos chegavam a chorar.

 

Antes de conquistar a atual fama, Marina fez história a partir dos anos 1970 com performances agressivas que testavam os limites do corpo, fazendo dele a própria obra.  Era um tipo de produção underground à época e que, por se dar ao vivo, na presença do público e não resultar em um objeto artístico vendável, estabelecia uma crítica ao valor mercadológico da arte.

 

Muitas dessas ações protagonizadas pela artista foram atos radicais e polêmicos, como oferecer facas e revólveres para o público fazer o que quisesse diante dela; deitar dentro de uma estrela em chamas até desmaiar pela falta de oxigênio; correr e se arremessar contra a parede repetidas vezes; gritar até perder a voz; trocar tapas no rosto ininterruptamente; desenhar uma estrela na barriga com uma faca fazendo-a sangrar; colocar uma mão aberta sobre a mesa e com a outra manejar um punhal desferindo golpes rápidos entre um dedo e outro.

 

A passagem dessa Marina visceral para a atual celebridade atraiu o interesse de uma renovada e ampliada plateia, enquanto boa parte de seu antigo público passou a vê-la como uma artista crític a e contundente que teve a força do trabalho enfraquecida por ceder aos caprichos da fama e às contingências do mercado.

 

Agora surge uma terceira Marina, que se revê e desconstrói no filme ESPAÇO ALÉM – MARINA ABRAMOVIC E O BRASIL.  O documentário acompanha a jornada espiritual que a artista empreendeu no país entre 2012 e 2015.  Marina percorreu mais de 6 mil quilômetros atrás de rituais místicos, cerimônias xamânicas e terreiros de candomblé.  No interior de Goiás, assistiu às cirurgias espirituais realizadas com facas pelo médium João de Deus e às lições da curandeira Dona Flor.  No Vale do Amanhecer (DF), foi à comunidade espiritual da médium clarividente Tia Neiva.  Na Bahia, participou de um ritual xamãnico na Chapada Diamantina, onde experimentou o santo daime (ayahuasca) pela primeira vez. E, em Salvador, conheceu o sincretismo afro-religioso.  Também visitou Minas Gerais (Corinto, a terra dos cristais) e Curitiba (o Centro de Estudos Ancestrais Raízes de Dan).

 

- Vim para o Brasil em busca de pessoas com um certo tipo de energia – diz a artista no filme.

 

DOCUMENTÁRIO MOSTRA ARTISTA EM BUSCA DA CURA

 

No filme MARINA ABRAMOVIC – A ARTISTA ESTÁ PRESENTE (2012), sobre a exposição apresentada dois anos antes no MoMA de Nova York, vemos o modo como ela desenvolveu suas performances desde os anos 1970 e como conquistou a atual fama mundial.  ESPAÇO ALÉM – MARINA ABRAMOVIC E O BRASIL oferece um contraponto ao mostrar Marina despida do status de celebridade.  É como uma artista à paisana, misturando-se às “pessoas comuns”, que ela percorre as profundezas místicas e esotéricas de um Brasil que nem todos conhecem.  Marina diz estar em busca da cura, não do corpo, mas do espírito.  Daí seu interesse em ir ao encontro de médiuns, rezadeiras, curandeiros e centros espirituais que ela chama de “locais de poder”.  O documentário dirigido por Marco Del Fiol acompanha bem de perto essa jornada, com destaque para o ritual em que Marina passa mal depois de beber o chá de ayahuasca.  Mas o filme peca por fazer m registro tradicional, mistura de reality show com Globo Repórter, e por não contextualizar a artista para o público que não a conhece.  Por outro lado, consegue apontar o que a performance e os rituais têm em comum: um trabalho que envolve o corpo e o espírito.

 

 

Fonte:  ZeroHora/Segundo Caderno/Francisco Dalcol (francisco.dalcol@zerohora.com.br) em 3 de junho de 2016.