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O Canto e a Igreja
O Canto e a Igreja

 

O CANTO E A IGREJA

 

       A porta estava aberta convidando-me a entrar. Lá de dentro vinha o som de uma música. Quase um clamor de amor. Engraçado, nunca havia ouvido e sentido por esse lado. Mas, sempre é tempo de aprender, principalmente com a vida. Entrei quase que solenemente. Era a casa Dele. Fiz a minha prece e sentei-me. De olhos fechados deixei que a música penetrasse o meu coração. O meu corpo se arrepiava a cada nota. Era como se ouvisse cânticos de anjos. Acalmava a alma e me levava a um paraíso imaginário. Extasiada eu abria os ouvidos e o coração àquela melodia.

       Os últimos dias haviam sido duros. Sofridos. Perguntava-me o porquê de tanta dor que fora se acumulando ao longo dos tempos? A vida realmente nos prega peças inesperadas. E eu estava ali a comprovar isso. Sentia uma vontade enorme de chorar, mas segurava as lágrimas num último esforço para mostrar toda a coragem que não tinha, porém era necessário ser forte para segurar toda aquela dor que oprimia o meu peito. Alí na igreja, de repente eu me acalmava e conseguia respirar mais tranquila.

      O canto gregoriano é a mais antiga manifestação musical do Ocidente e tem suas raízes nos cantos das antigas sinagogas, desde os tempos de Jesus Cristo. Os primeiros cristãos e discípulos de Cristo foram judeus convertidos que, perseverantes na oração, continuaram a cantar os salmos e cânticos do Antigo Testamento como estavam acostumados, embora com outro sentido, à medida que os não judeus gregos e romanos foram também se tornando cristãos, elementos da música e da cultura Greco-franco-romana foram sendo acrescentados às canções judaicas. A partir da iniciativa de dom Mocquereau, no final do século XIX, o Mosteiro de São Pedro de Solesmes, na França, passou a ser o grande centro de estudos e prática do canto gregoriano. Seus monges, na época, deram início a um trabalho de paleografia (estudo dos manuscritos antigos) de canto gregoriano e de recuperação dos sinais escritos nos séculos VIII e IX.

       A música tem um poder inexplicável de nos refazer. O grande William Shakespeare, que foi um poeta, dramaturgo e ator inglês, tido como o maior escritor do idioma inglês e o mais influente dramaturgo do mundo. É chamado frequentemente de poeta nacional da Inglaterra e de Bardo do Avon, disse sobe a música: “O homem que não tem a música dentro de si e que não se emociona com um concerto de doces acordes é capaz de traições, de conjuras e de rapinas”. Realmente, a música mexe com as criaturas de tal forma que se sabe capaz de salvar vidas. Enlevam-se as almas aos doces acordes de um melodioso som. Transporta-nos aos céus.

       Outro grande homem da história, Aristóteles, filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande. Seus escritos abrangem diversos assuntos, como a física, a metafísica, as leis da poesia e do drama, a música, entre tantas ciências, vem em meu socorro com a seguinte frase: “A música é celeste, de natureza divina e de tal beleza que encanta a alma e a eleva acima da sua condição”. Creio que é exatamente isso que a música fez comigo nesse momento. Encantou a minha alma e a elevou acima da sua própria condição. Nesse momento lembro-me de alguém que fez parte da minha adolescência e muito me ensinou. Dom Gerardo Wanderley era monge beneditino, poeta, de teatro, escrevia e nos ensaiava para encenarmos no teatro da cidade onde morávamos. Cantou muitos anos o canto gregoriano no Mosteiro de São Bento, de Olinda, e hoje deve entoar este belo cântico lá nos céus, para onde se mudou há algum tempo.

 

       Senti vontade de chorar, mas não vou. A música me transporta aos céus...

 

Lígia Beltrão  ________________________ 2015