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O Enterro dos 100
O Enterro dos 100

O enterro dos 100

por Cláudia de Villar

http://claudiadevillar.blogspot.com/

Completar 100 anos de vida não é pra qualquer um e, nos dias atuais, o gaudério que tem a felicidade de festejar essa idade se dá por muito satisfeito.

Esse era o caso de seu Antônio. Ao se aproximar o dia dele completar as suas cem primaveras, vô Antônio estava faceiro. Cem anos. Muitas coisas ele viu. Muitas coisas ele ainda queria ver.

Tudo pronto para o dia “D”. Seria uma grande festa para Seu Antônio. O salão do bairro estava todo enfeitado. Os convites já distribuídos e os músicos, previamente contratados, chegariam mais cedo para arrumar o som. Seria uma festa de arromba. Tudo ao som de Carmen Miranda, Francisco Alves, Augusto Calheiros, Noel Rosa, Silvio Caldas e aí por diante. Seria uma belezura de festa.

Os convidados? Bem, aí são outros quinhentos. O problema foi a lista de convidados. Seu Antônio insistia em convidar alguns amigos, uns amigos do peito. Mas a maioria, senão todos estavam desaparecidos ou mortos! Por mais que os filhos insistissem em opinar e sugerir convidados, seu Antônio não abria mão da sua lista. Segundo ele, o aniversário era dele e ele não queria “penetra”. Não teve jeito. A lista foi feita pelo vovô.

Eis que na noite anterior ao aniversário, a família reunida em torno da mesa, rola o seguinte diálogo:

- Vô, quem sabe podemos convidar a dona Etelvina?

- Não quero saber daquela fofoqueira na minha festa!

- E dona Gertrudes?

- Nem a conheço direito!

- Seu Amaro?

- Velho ranzinza! Além do mais, ele não faz parte do meu grupo de amigos do peito!

- Mas pai – interrompeu o filho, já se exasperando -, assim não vai ter ninguém na festa!

- Nem nós! – reclamou o neto, uma vez que o vô não queria ninguém da família, apenas os amigos do peito da juventude.

- Você é que pensa! Será uma festa de arromba!

Os familiares apenas se olharam. Não se conformavam. O filho, que havia gasto uma nota preta no aluguel do salão, na contratação dos músicos e no buffet, estava indignado.

Todos foram dormir. Seu Antônio despediu-se feliz, dos familiares:

- Amanhã será um grande dia. Um dia para ficar na memória de todos!

O filho não acreditava nisso. Seria um vexame total. Tanta música, comida boa pra quem? Somente para o pai. Afinal, da lista de seu Antônio, somente o seu Anselmo havia confirmado presença.

O vô foi para o quarto. Estando em sua cama, decidiu rever a sua lista de convidados. Havia 99 pessoas. Todos fizeram parte de sua juventude. Ele era muito querido na juventude. Tinha muitos amigos. Seria muito bom revê-los. Jogar conversa fora. Falar sobre assuntos que todos compreendiam. E ouvir boa música! Alguns daqueles que estavam na lista, ele não via há uns 50 anos ou mais. Ah... Dona Judith, e a bela Amália? Como ela estaria? Era uma bela rapariga. Dormiu com a lista em suas mãos.

 

 

Todos haviam confirmado presença em sua festa de 100 anos.

O dia amanheceu e a casa já estava barulhenta. Apenas vovô Antônio dormia. O sono dos justos, segundo ele costumava dizer. Estava na dele. Apenas a espera do baile.

Porém, alguma coisa não estava fechando. O sol já estava alto e o seu Antônio não levantava. Bateram na porta, mas nada de resposta. Como ele trancava a porta por dentro, ninguém podia entrar. De repente, ouve-se a campainha. Seria o pessoal do buffet chegando? Não, era o seu Anselmo que estava na porta. O filho suspirou aliviado afinal, pelo menos um convidado viria para o centenário do pai.

Seu Anselmo, um senhor já beirando o além, foi informado sobre o estado do vovô. Ele foi até a porta e se apresentou. A porta abriu-se. Mas seu Antônio não quis aparecer, apenas deixou o amigo do peito entrar.

- Meu querido amigo, quanto tempo!

- Alegria em revê-lo, caro amigo!

Após, algumas horas de risadas e conversas abafadas, seu Anselmo saiu do quarto dizendo: Eu cuido do meu bom e velho Antônio. Podem ir para as suas casas. O meu amigo está sob minha responsabilidade!

O filho achou melhor não contrariar. Saiu da casa, levando a família junto. Dali a uns minutos viu os dois amigos saírem de casa rumo ao salão. Vô Antônio entrou no local da sua tão esperada festa. Os amigos do peito estavam todos lá. Sorrisos e gargalhadas ouviam-se lá da rua. Após uns apertos de mãos e umas conversas jogadas fora, a música começou.

O filho resolveu ligar para a família de seu Anselmo. Era melhor averiguar essa situação.

- Quem?

- Anselmo.

- Aqui?

- Sim, por acaso o seu Anselmo mora aí?

- O senhor não soube?

- O quê?

- Ele faleceu há 15 dias!

- Morreu?

- Sim, morreu.

O filho correu para o salão. Chegando lá, não havia música, embora os vizinhos terem confirmado que umas horas antes os músicos tocaram várias vezes. Os músicos estavam boquiabertos

- Seu pai esteve aqui, sim. Sozinho.

- Sozinho?

- Sim, mas estranho. Falava e ria pro nada. Pediu pra gente tocar. Nós tocamos. Depois, por fim, pediu Chão de Estrelas e partiu.

- Partiu? Como assim, partiu? Partiu com quem?

- Partiu sozinho.

- Ele falou alguma coisa?

- Disse apenas que agora o grupo dos amigos do peito estava completo, antes faltava apenas ele para completar 100.

- Ele disse para onde iria?

- Pro enterro dos cem.

O vô foi encontrado deitado em sua cama com a lista de amigos da juventude. Nota, todos da lista faleceram por infarto (amigos do peito).  A lista, antes com 99 convidados, estava com um novo nome, agora completando 100: Antônio Silva da Silva.