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O Jornalista que Mergulhou no Arquivo Mitrokhin
O Jornalista que Mergulhou no Arquivo Mitrokhin

O JORNALISTA QUE MERGULHOU NO ARQUIVO MITROKHIN

 

LITERATURA:  INVESTIGAÇÃO REVELOU REFERÊNCIAS A ESCRITOR GAÚCHO JOSUÉ GUIMARÃES.

 

Em março deste ano, uma série de reportagens do jornal português Expresso desvendou a rede de informação que a KGB soviética manteve em Lisboa ao longo da Guerra Fria.  Entre os nomes levantados pelo jornalista Paulo Anunciação, estava o do escritor gaúcho Josué Guimarães (1921 – 1986), que morou na capital portuguesa nos anos 1970.  Meses depois da revelação, o autor de TAMBORES SILENCIOSOS era citado nas redes sociais como um “espião” da agência da URSS, embora o texto de Anunciação não o classificasse assim – o escritor era citado como “agente”, sem especificar se era remunerado pelo serviço nem o tipo de informação.  Procurados por ZH, familiares e amigos de Guimarães negaram o vínculo.  As reportagens publicadas são resultado de meses de trabalho de Anunciação sobre o Arquivo Mitrokhin, maior acervo de informações sobre os serviços secretos soviéticos, depositado na Universidade de Cambridge.  Nesta entrevista, o repórter fala sobre a repercussão e afirma que o Brasil ainda pode se surpreender com o passado da KGB no país.

 

DOCUMENTOS NÃO DIZEM SE JOSUÉ GUIMARÃES ERA AGENTE.

ENTREVISTA:  PAULO ANUNCIAÇÃO – JORNALISTA

 

O que você encontrou sobre o Brasil e a América Latina ao pesquisar o Arquivo Mitrokhin para suas reportagens?

O Arquivo Mitrokhin tem milhares de documentos e por isso tive de me centrar unicamente em Portugal.  Alguns documentos estão organizados geograficamente por país ou região, mas Portugal – infelizmente – não tem direito a seção própria no Arquivo.  Por isso, demorei tanto tempo a pesquisar.  Os documentos incluem muito material, naturalmente, sobre os países que eram objeto de particular interesse para os serviços secretos soviéticos (Estados Unidos, Reino Unido, outros países ocidentais, etc.).  Mas lembro-me de encontrar alguma coisa também sobre países da América Latina.  Lembro-me, por exemplo, de ler sobre um diplomata brasileiro que teria sido pago pela KGB, mas não me lembro do nome e não fotografei.  No início da década de 1980, o Brasil era um dos quatro países do continente americano que a KGB descreveu como “alvos prioritários”.

 

Você entrou em contato com familiares de pessoas apontadas como agentes da KGB em Portugal?

Infelizmente, muitas das pessoas nomeadas nos arquivos já faleceram.  Mas falei com todos os vivos e com familiares dos mortos.  Penso que entrevistei 60 ou 70 pessoas em Portugal.  Apenas uma manifestou surpresa (que não me pareceu genuína, por sinal) por ver o seu nome envolvido nos arquivos da KGB.  Todos os outros tinham certa história ou recordação que justificava a sua inclusão na lista da KGB (“lembro-me que havia este assessor da embaixada soviética que me telefonava e convidava para almoçar...” e coisas assim).  Tive sempre o cuidado de relembrar a credibilidade que a generalidade do mundo acadêmico atribui à documentação transcrita por Mitrokhin e explica que o fato de alguém ser citado nos arquivos e ter nome de código não significa que trabalhava ou era espião da KGB (dava nome de código a pessoas que trabalhavam para os serviços secretos soviéticos mas também a pessoas que eram meros alvos ou outros – como ministros ou oficiais estrangeiros – que não tinham qualquer ligação à KGB).

 

Como foi a repercussão da reportagem em Portugal?

A reportagem foi publicada ao longo de três semanas, retomada pelas televisões, social media e outros jornais.  A repercussão foi enorme, sobretudo no que dizia respeito às revelações sobre a aparente ligação muito estreita entre o Partido Comunista Português (PCP) e a delegação da KGB em Lisboa.  O PCP, claro, nega tudo.  Alguns dos visados me pediram por tudo para que seus nomes não aparecessem na reportagem (recusei, claro; mas dei voz a todos os visados).

 

Sobre Josué Guimarães, há algum documento que prove que ele era um espião ou agente contratado?

O documento não faz referência a Josué Guimarães não diz que ele era espião ou agente contratado ou que recebeu dinheiro dos soviéticos.  Apenas diz que foi incluído na rede da agência (KGB) em Lisboa.  Também diz que era olhado como um “homem progressista”, o que não será surpresa para ninguém.  Mais interessante é a nota de que, entre 1976 e 1980, ele manteve 42 reuniões com os agentes Novikov, Budyakin e Bykov em três cidades/países diferentes.  A nota transcrita por Mitrokhin também diz que Guimarães conhecia bem a forma de trabalhar dos serviços secretos soviéticos, nomeadamente quanto às noções de segurança, conspiração e meios pessoais ou impessoais de comunicação.  Estes são os únicos dados referidos na fic há da KGB transcrita por Mitrokhin.  A única conclusão que se pode retirar é de que a informação transmitida por Josué Guimarães era tida em alta consideração pelos soviéticos, pois se não fosse assim não teriam tido tantas reuniões.  É importante dizer que as dezenas de fichas “portuguesas” que recolhi nos Arquivos Mitrokhin são geralmente muito pormenorizadas, com dados biográficos e profissionais completos e sem erros.

 

O Brasil ainda pode se surpreender com o Arquivo Mitrokhin?

Sim.  Penso que o Arquivo Mitrokhin poderá ter alguns segredos que outros brasileiros prefeririam manter enterrados para sempre.

 

O ARQUIVO MITROKHIN

 

<>  Considerado a maior fonte de informações sobre serviços secretos soviéticos, o Arquivo Mitrokhin tem grande parte de seu acervo disponível para consulta desde 2014 na Universidade de Cambridge.  O espaço foi visitado por Paulo Anunciação para série de reportagens publicadas em março no jornal português Expresso.

 

<> O acervo consiste nas anotações do ex-arquivista da KGB Vasili Nikitich Mitrokhin (1022 – 2004).  Ao longo de décadas de trabalho na agência soviética, Mitrokhin copiava a mão documentos confidenciais e os enterrava em caixas no assoalho de sua casa.

 

<>  O agente soviético guardava as informações para divulga-las no futuro, pois se desiludiu com a URSS por conta das perseguições a dissidentes e do esmagamento da Primavera de Praga, em 1968.

 

<>  Em 1992, depois da dissolução da URSS, Mitrokhin apresentou parte do seu material à embaixada do Reino Unido na capital da Letônia.  No mesmo ano, a família de Mitrokhin e seu acervo foram transferidos para a Inglaterra.

 

<>  O ex-agente passou seus últimos anos viajando de carro pelo país que o acolheu.  Morreu na Inglaterra, em 2004, aos 81 anos.  Seu arquivo foi transferido para a Universidade de Cambridge.

 

     

 

Fonte:  Zero Hora/Alexandre Lucchese (alexandre.lucchesse@zerohora.com.br) em 22 de julho de 2016.