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O Livro da Vida por Lurdes Maravilha
O Livro da Vida por Lurdes Maravilha

 Foto à entrada da Aldeia de Colo de Pito Concelho de Castro Daire

O LIVRO DA VIDA

CARTA DE UM PAI

Sabes filho, oiço ainda a coruja a assobiar de mansinho nos galhos velhos e magros do nosso longo castanheiro. A noite chegou outra vez embrulhada num manto pardo. As cortinas do céu cerraram-se e o sol também já foi dormir com a lua. Tento mais uma vez embalar o meu sono no aconchego da manta que só comigo partilho. Sim, ainda estou aqui naquele leito pobre, onde tantas vezes procuraste o afago do meu abraço, quando nos teus sonhos os gigantes galgavam as hortas e entravam na capoeira para comerem as nossas galinhas. Lembras-te?
Lá fora já tudo se encerra e hoje até os grilos adormeceram mais cedo saciados com o pólen das leitugas. A rua estreita do nosso peitoril adormeceu vazia com o abraço nulo dos vizinhos. Pobre rua que de amor e vida está tão faminta!
Sabes que nas paredes brancas das casas já não se espreguiçam os fios floridos das sardinheiras? 
Agora, o meu olhar vai perdendo o fio da luz e o aroma que se solta é um perfume encardido de rotina. Não sei se ainda existem estações do ano. No som frio deste silêncio já não sinto o renascer da primavera nem o bafo quente das noites de verão. E, no andar leve do meu velho carrossel vou perdendo a conta mitigada no fio do meu tempo. Também já não posso ir à missa. As minhas pernas adormeceram no vácuo de uma inércia. Estou velho. Sabias? As minhas sobrancelhas parecem um véu a limitar o meu olhar. As minhas mãos tremem de dor causada pelo abandono de um carinho que já não tenho.
Sabes que há muito tempo não consigo ver televisão? Avariou. Vê lá que até a minha única companhia parece que se quer despedir de mim.
Andaram aqui uns homens a mudar os canais e mudaram as coisas de tal forma que nunca mais consegui ver a missa na TVI. Sabes filho, estes homens não falam comigo. Fico triste e apenas penso porque é que eles não usam as palavras na boca.
Às vezes nem um simples bom dia sabem dizer e eu precisava tanto de o ouvir.
Sabias que estes homens andam a trabalhar com umas coisas nos ouvidos?
São uns homens que não gostam de falar e só ouvem o que querem. Já não sei se tiveram um pai ou uma mãe para lhes ensinarem as regras de berço ou se são mudos pelo cansaço de não se sentirem gente. Eles não conhecem o sentimento do amor e têm entejo de um velho.
Desde que a tua mãe foi morar com Deus partilho esta rua com a minha própria existência. O carteiro vai tendo mais sorte, despacha-se sempre mais cedo. Só trás a carta da minha reforma, mas este não usa os fios na cabeça e quando passa por aqui dá-me sempre dois dedos de conversa. Porém, anda sempre a correr. Porque é que estes homens correm tanto?

 

Tenho tantas saudades de conversar contigo e com a tua mãe.

Lembras-te da tua mãe? Aquela mulher corajosa, decidida, companheira e muito sonhadora. Pobre Maria, mas como sabes nem um bilhete de comboio lhe consegui comprar. 
Tenho tantas saudades da tua mãe!
Deus sabia que eu nunca lhe podia oferecer a sua viagem de sonho e levou-a a visitar o mais belo paraíso. Que grande partida que ele me pregou! 
Agora espero neste cais sozinho pelo meu bilhete para ir ao seu encontro. Será que a vou encontrar feliz ou zangada por nunca lhe ter comprado um bilhete de comboio? 
Sabes filho, se eu pudesse virar para trás a página do meu livro comprava agora a viagem mais bela para a tua mãe. Tenho tanto receio que ela um dia no céu não me queira mais abraçar. Se Deus me deixasse ia agora buscá-la e levava-a no mais belo cruzeiro e sei que tu estarias lá para nos abraçar. Neste sono inquieto ainda não adormeci e no meu pobre leito continuo a beber a seiva dos meus sonhos.
O meu abraço de pai

Maria de Lurdes Silva Maravilha

 

Foto na Aldeia de Pito Concelho de Castro Daire.