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O Ópio dos Intelectuais, de Raymond Aron
O Ópio dos Intelectuais, de Raymond Aron

A FÉ NO ERRO

 

O filósofo francês Raymond Aron desmontou a “religião secular” de seu tempo – o marxismo – e a crença, ainda viva em meios de esquerda, de que a doutrina supera os fatos.

 

“É melhor estar errado com Sartre do que certo com Aron.” A frase, que virou bordão famoso entre os militantes franceses depois das denúncias contra o stalinismo, captura muito apropriadamente a essência do grande debate intelectual do século XX. Dois intelectuais brilhantes, representantes da elite do pensamento francês, Jean-Paul Sartre (1905-1980) e Raymond Aron (1905-1983) escreveram muito, atuaram no debate público de maneira incisiva e ajudaram a moldar a filosofia política de seu tempo. De um lado, no entanto, estava um homem que justificou os campos de concentração na União Soviética e defendeu regimes totalitários e genocidas; de outro, um homem cujas convicções estavam firmemente do lado das instituições que garantem estabilidade política e liberdades públicas e individuais, não por acaso sempre manifestando grande admiração pela democracia liberal constitucional britânica. Como foi possível, então, que sucessivas gerações de intelectuais no Ocidente inteiro tenham preferido estar ao lado de Sartre e do gulag, não de Aron e das democracias constitucionais?

 

Em O ÓPIO DOS INTELECTUAIS, o filósofo e sociólogo francês Raymond Aron não apenas explica por que, de fato, tinha razão, como também nos mostra por que tantos intelectuais preferiram abraçar o erro. Publicado originalmente em 1955, este clássico – reeditado agora em nova tradução, depois de mais de três décadas ausente das livrarias – reúne, em um ensaio de fôlego, as reflexões de Aron sobre o tipo de aliciamento fanático que seduziu muitos de seus companheiros de geração. A fé que os aliciara tinha nome – marxismo – e uma história razoavelmente curta, mas seus efeitos sobre a mente dos adeptos foram e continuam sendo devastadores, para não falar nas consequências mortíferas que ela invariavelmente acarretou onde quer que tenha triunfado.

 

A aproximação entre religião e marxismo já não era nova quando da publicação do livro de Aron. O próprio autor vinha se valendo da expressão “religião secular” desde uma década antes, e a caracterização desse credo já estava razoavelmente estabelecida nos anos 1960. Sua forma mais plena é o marxismo, mas Aron – embora admitisse moderadamente o trabalhismo britânico –, no prefácio da edição americana do livro, em 1962, estende o alcance da crítica: “Tanto os liberais americanos quanto a esquerda no Reino Unido e na França partilham da mesma ilusão: a de que a história tem uma orientação constante em uma direção, a ilusão de uma evolução rumo a um estado de coisas em harmonia com um ideal”.

 

Os fundamentos dessa religião política secular, mostra-nos o autor, estão intimamente articulados: a veneração da esquerda como a única força política ocupada em proteger os desvalidos e engajada em conduzir todos ao futuro radiante; a convicção na revolução como o sangrento mas necessário veículo que a esquerda guiará para nos levar a esse futuro; a verdade manifesta de que o “proletário” é mais do que uma classe social, ele é o “salvador coletivo”, o “portador da história” - o agente capaz de fazer com que a humanidade seja, realmente, a Humanidade. Raymond Aron é minucioso, extraordinariamente bem informado e, felizmente, muito bem-humorado no desmonte que faz de cada um desses mitos, seja esmiuçando a imprecisão conceitual do par esquerda/direita, seja criticando a facilidade irresponsável com que intelectuais e artistas seduzidos pela religião marxista encamparam a violência como forma de fazer política.

 

Em O ÓPIO DOS INTELECTUAIS, surge diante do leitor um homem que pode discutir os pressupostos da filosofia hegeliana ou as informações factuais sobre as políticas americana e inglesa com precisão e sem pedantismo. Com isso, a rede de argumentos, de informações e de ilustrações factuais usadas para dissecar os mitos da “religião secular” ganha força. Não é que Aron contraponha a direita política à esquerda, preferindo a primeira à segunda. Antes, opõe os fatos e o bom-senso ao que enxerga como um fanatismo de seus ex-companheiros de geração (notadamente Sartre e Merleau-Ponty, por quem sempre manteve respeito pessoal) que preferiram ficar “do lado certo da história” - o stalinismo.

 

Dos exemplos arrolados por Aron, poucos poderiam ser mais eloquentes que o de Maurice Merleau-Ponty (1908-1961): para o filósofo existencialista, apenas o proletário está “na condição de realizar a humanidade”, pois “somente ele é a universalidade que ele pensa”. Merleau-Ponty, que ao lado de Sartre fez pouco-caso dos farsescos processos de Moscou e relativisou o problema dos campos de concentração na União Soviética, poderia ser criticado de maneira dura por esse alinhamento ao terror stalinista e ao marxismo de cartilha ao qual deu ares de pensamento digno. No entanto, basta a Aron desmontar a fraude que está sendo cometida contra o bom-senso: que razão haveria para que se considerasse o operário, digamos francês ou americano dos anos 1950 como a expressão da “universalidade da espécie humana”?

 

Derrotados pelos fatos, os intelectuais de esquerda buscavam uma “filosofia da história” que a tudo explicasse: não apenas a história tem um sentido – uma direção – como caberá ao partido, legítima instituição do proletariado, conduzir a humanidade até lá, e apenas o marxismo é capaz de nos garantir esse futuro. Nas palavras do mesmo Merleau-Ponty: “O marxismo não é uma hipótese qualquer, que pode amanhã ser trocada por outra; é o simples enunciado das condições sem as quais não haverá humanidade”.

 

O ÓPIO DOS INTELECTUAIS foi lançado um ano antes do famoso discurso de 1956 em que o líder soviético Nikita Krushev denunciou os crimes de Stalin. Mas, na França, as atrocidades do regime soviético já vinham sendo denunciadas com vigor por nomes como Victor Kravtchenko, David Rousset e Margarete Buber-Neumann ao longo da década de 40. A fé na história, no seu sentido, que somente os adeptos do marxismo conhecem verdadeiramente, fez de todos os crimes políticos um problema lateral. Merleau-Ponty pensa assim em HUMANISMO E TERROR (1947). A ele, os expurgos nos processos de Moscou e o gulag pareceram menos relevantes do que manter a luta contra o capitalismo. Aron é duro mas elegante em seu exame de HUMANISMO E TERROR, apontando a contradição de um autor que, na França, pode livremente defender um regime sob o qual não teria a mesma liberdade: “É sempre espantoso ver um pensador parecer indulgente com um universo que não o toleraria e implacável com aquele que o honra. (…) Só uma sociedade liberal tolera uma análise dos processos (de Moscou) tal como Merleau-Ponty a pratica. (…) Por que o filósofo raciocina como se a liberdade – sem a qual ele estaria condenado ao silêncio ou à obediência – não tivesse valor?”. Não foi diferente para Sartre. Como bem mostra Aron, subjacente a todo o alinhamento protagonizado por esses homens de inequívoca inteligência com a experiência assassina do socialismo do século passado há uma constante ojeriza ao capitalismo e a suas vitrines, os Estados Unidos e a Inglaterra, em particular.

 

A vitalidade do livro é espantosa. Certo, o debate ideológico hoje pouco tem a ver com as contendas da Guerra Fria, palco em que se desenvolve o drama das ideias de Aron. Mas a atitude intelectual de parte considerável da esquerda continua sendo a negação da realidade. Entre os fatos e a fé na doutrina ou no partido, muitos ainda escolhem a fé, como fizeram tantos intelectuais da esquerda marxista no último século. Tome-se, por exemplo, o inabalável entusiasmo pelo socialismo bolivariano que ainda anima boa parte dos partidos e dos intelectuais de esquerda. Mesmo na Inglaterra que Aron admirava, o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, participou, no ano passado, de um evento em “solidariedade à Venezuela”, no qual louvou as “conquistas sociais” do falecido Hugo Chávez, enquanto acusava os Estados Unidos de sabotar o país. Em linha com esse elogio do desastre, Corbyn escolheu para sua equipe Seumas Milne, ex-jornalista do The Guardian célebre por ter afirmado que, digam o que disserem da União Soviética, ao menos era uma alternativa política socialista. Mais de sessenta anos depois da publicação de O ÓPIO DOS INTELECTUAIS, podemos pedir o mesmo que pedia seu autor: “Desejamos a chegada dos céticos, se eles puderem extinguir o fanatismo”.

 

 

Fonte: Veja/Eduardo Wolf em 20/07/2016.