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O Pensador da Alegria
O Pensador da Alegria

O PENSADOR DA ALEGRIA

 

GILLES DELEUZE – NESTE NOVO MODELO DE COMPREENSÃO A SENSIBILIDADE E OS AFETOS SÃO AS NOVAS POTÊNCIAS CONSTITUTIVAS.  O MUNDO EMERGE COMO TEIA TECIDA PELO DESEJO DO CORPO SEM ÓRGÃOS, MAS SELECIONADA PELO PRÓPRIO PLANO DE CONSISTÊNCIA QUE ESTÁ SENDO TRAÇADO.

 

Gilles Deleuze pertence à geração de pensadores que enfrentaram os problemas nascidos nas revoltas e lutas dos anos 60.  A quebra do poder disciplinar diante das demandas das novas culturas das mulheres, jovens, negros, homossexuais se traduz em uma ampla recusa da família, da escola, do exército e do trabalho.  Em pouco tempo, as transformações atravessaram a Europa e América do Norte contagiando até o Oriente.  Deleuze foi um dos epígonos dessa corrente, chamada de filosofia da diferença por valorizar a mudança e a transformação ao invés da inércia e fixação.  Desde a irrupção em 1962 de seu livro sobre Nietzsche, Deleuze se propõe a pensar partindo de que é o vivo quem duvida, age e fala.  Sua filosofia se diz pragmática e construtiva.  Trata-se de pensar como o vivo pode viver sua vida através das ações que conduzem seu corpo e como o viver pode se compor com as vidas que o rodeiam e os vivos que nelas atuam.

 

 

CORPO SEM ÓRGÃOS E AGENCIAMENTO.  Dois conceitos se apresentam para nos ajudar a entender o pensamento de Deleuze.  O primeiro é o do corpo sem órgãos, noção composta por Artaud para falar do corpo vivo para além dos objetivos de seu funcionamento – comer, beber, respirar, etc. – e do plano de organização racional no qual estaria imerso.  É o corpo sem órgãos quem deseja, para além das necessidades funcionais e dos interesses racionais, fazendo do vivo uma máquina desejante.  O corpo funcional da biologia podia ser entendido como uma existência – ec-sistência – que se opõe solitária no aberto, tendo sempre o órgão adequado para exercer suas atividades.  O corpo sem órgãos em contrapartida é privado do uso voluntário e organizado de suas faculdades.  Ele vive através das teias que faz.  Embora sem olhos, nariz ou boca, sua sensibilidade registra as ondas de intensidade programadas através da teia até seu corpo.  Mesmo sem ainda existir, a comunicação distribuída em rede interativa é uma virtualidade para os novos sujeitos.  Deleuze casa os incorporais estoicos com o poder de ser afetado espinozista para definir a vontade de potência de Nietzsche neste novo sujeito constituído como um corpo sem órgãos.  Máquinas desejantes, máquinas miraculantes, máquinas celibatárias povoam essa vasta teia onde a vida se faz.

O segundo conceito é o de agenciamento, que vem se contrapor às relações e às conexões e se apresenta como o que nos faz pensar.  Pensamos os coletivos que as falas invocam e apelam e as máquinas onde o desejo se compõe e propaga. O agenciamento constrói ao mesmo tempo o sujeito e o meio em que ele vai viver.  Ele inventa compatibilidades entre as forças e faz do mundo uma teia dos seres.  Não há sujeitos na consciência fenomenológica das relações ou na experiência eletroquímica das conexões; só há agenciamentos coletivos de enunciação e agenciamentos maquínicos de desejo.  O objeto do desejo é o afeto que a máquina produz e sustenta, o objeto da fala é um coletivo onde ela ecoa e ressoa.  Sobre as ruínas do mundo do trabalho material feito de fábricas, empregos e carreiras, Deleuze faz surgir em meio ao caos das festas, dissonâncias e estados alterados o novo mundo dos trampos, aplicativos e projetos.

 

 

Pensar o diferente, viver a diferença.  Deleuze vai propor a substituição do plano de organização dos interesses conscientes da inteligência e seu plano de desenvolvimento racional como modelo de compreensão do vivo e seu mundo de necessidades.  Neste modelos as criaturas são existências individuais expostas aos riscos e ameaças do aberto, o assustador inferno do outro.  Ele vai pensar a partir da consistência.  Consistere é a comum abertura do indivíduo e seu mundo, do vivo e seu viver.  A abertura se faz das compatibilidades que a diferença das forças é capaz de construir.  O plano agregado ao fazer-se deste mundo é um plano de composição para inventar as novas compatibilidades que possam expandir os vivos e seus diferentes modos de viver.  Neste novo modelo de compreensão a sensibilidade e os afetos são as novas potências constitutivas.  O mundo emerge como teia tecida pelo desejo do corpo sem órgãos, mas selecionada pelo próprio plano de consistência que está sendo traçado.

 

 

VIVER, LUTAR E ALEGRAR-SE: A IMANÊNCIA.  As vidas que lutam e se reinventam nos 60 precisavam encontrar o entendimento capaz de fazê-las escapar à maldição da falta de sentido e perda do valor.  Dar sentido aos problemas que o viver constitui para si mesmo e valor às mudanças que o vivo abraça foram os passos dados por ele para fazer sua filosofia.  A diferença em si mesma das expressões do vivo – vontade de potência – e a repetição para si mesmo dos modos de viver – eterno retorno – foi o seu jeito de abraçar e afirmar a estridência das guitarras, a dissonância dos cantos, o incêndio das indumentárias e a psicodelia dos gestos.  Multiplicidade dos corpos e intensidade das expressões preenchem o vazio do tempo em seu pensamento.  A loucura dos festivais, consertos e orgias, da recusa das casas, escolas e trabalhos vira uma vasta rede de lutas por novos modos de ver e sentir, por novos estilos de existir.  Viver é lutar a alegre luta de seu próprio viver.  A imanência: uma vida.

 

Fonte:  Correio do Povo – CS Caderno de Sábado/Henrique Antolin (Professor e Pesquisador da Escola de Comunicação da UFRJ) em 17 de outubro de 2015.