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O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint Exupéry
O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint Exupéry

PEQUENO NOTÁVEL

 

O príncipe menino criado pelo francês Antoine de Saint Exupéry é um fenômeno de longevidade. Passados mais de setenta anos da publicação do livro, ele ainda ocupa as listas de mais vendidos. E não são só as crianças que o leem.

 

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”

 

Leia o capítulo 21”, recomendou o adolescente que, acanhado, presenteava a namorada com um livro, no qual apôs uma delicada dedicatória: “Para uma linda princesa”. Sheila Dryzun, então com 14 anos, correu para a parte indicada pelo jovem apaixonado. Lá no capítulo 21, uma romântica raposa – trata-se, afial, de uma fábula – dizia a conhecida frase que se lê acima. Esse foi o primeiro contato de Sheila com O PEQUENO PRÍNCIPE, clássico infantil do francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) que passa por um renascimento no mercado livreiro brasileiro: nesta semana (em fev/2016) ocupa o terceiro lugar na lista de mais vendidos de VEJA, e foi o livro de ficção mais vendido no Brasil ao longo do ano de 2015. Sheila, hoje com 65 anos, fez da obra presenteada pelo namorado de juventude um novo negócio. Uma empresa sua, a Luk Marcas, é a responsável, designada pelo espólio de Saint-Exupéry, pela marca O PEQUENO PRÍNCIPE no Brasil. Cadernos, roupas, chocolates, itens de decoração – qualquer badulaque com a figura do menino de cabelo loiro e capa principesca passa pela Luk. São mais de 250 produtos licenciados, fabricados por quinze empresas.

 

O apelo da marca ampara-se em um popular personagem infantil que também cativa (para usar o verbo caro à raposa) adultos. O PEQUENO PRÍNCIPE pertence à categoria dos best-sellers perenes. É um dos livros mais traduzidos da história – para 250 idiomas – e, estima-se, já vendeu 140 milhões de exemplares pelo mundo. E contando: embora lançado há 73 anos, ainda vende milhões, todo ano. “Essa longevidade se deve ao fato de ser uma obra moderna, atemporal e profundamente humanista. É ainda a chave para a compreensão de temas essenciais, como o amor, a vida, a morte, as relações humanas, a natureza”, diz Olivier d’Agay, sobrinho-neto do autor. A sensibilidade de Saint-Exupéry para ver o mundo com olhos de criança se atesta já nas primeiras páginas, quando o aviador que encontra o Pequeno Príncipe em um deserto recorda o desenho que fez quando criança. Representava, em traços simples, uma jiboia digerindo um elefante, mas, aos olhos dos adultos, parecia apenas um vulgar chapéu. As crianças, sugere o livro, veem coisas que escapam ao estreito utilitarismo dos adultos. Há outra frase famosa. “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.

 

O tom filosofante – certo ar de autoajuda é inegável –, condensado nas frases líricas (algumas delas estampadas ao longo desta reportagem) que os admiradores gostam de citar, também foi fundamental para fazer deste livro um sucesso eterno. E explica seu poder sobre gente crescida, como o engenheiro paranaense Bruno Reginato, 31 anos. Ele conheceu Suzana Baltar, hoje sua noiva, pela internet, e só a encontrou pessoalmente, em 2009, em uma exposição sobre O PEQUENO PRÍNCIPE em São Paulo (organizada, aliás, por Sheila Dryzun). O namoro engrenou e, em 2014, ele fez um pedido que parou uma ala do shopping paulista, no meio de outra exposição sobre o personagem: vestido de raposa, ele pediu Suzana em casamento. “O livro é um símbolo. Vamos encaixar o tema de alguma forma em nossa festa de casamento”, diz.

 

Todas as pessoas grandes foram um dia crianças”.

 

 

Os aspectos mais fáceis e apelativos da obra acabaram por convidar ao deboche: frequentemente citado em concursos de beleza quando se perguntava sobre o livro favorito das participantes. O PEQUENO PRÍNCIPE tornou-se “livro de miss”. Bem, segue assim – e qual o problema? Camilla Della Valle, 22 anos, miss Mato Grosso e uma das cinco finalistas do Miss Brasil 2015, encontra lições preciosas na história do príncipe menino que vivia em um minúsculo asteroide na companhia de uma rosa cheia de caprichos: “Muitas vezes mantemos relações por interesse e esquecemos o que realmente é importante, como o amor, a pureza e a sinceridade. É um livro aparentemente infantil, mas muito profundo.”

 

Foi a esse livro profundo que Sheila retornou, cerca de quarenta anos depois do primeiro e memorável contato com O PEQUENO PRÍNCIPE. Quando pensou em lançar uma linha de joias infantis. Em 2004, foi a Paris em busca dos herdeiros de Saint-Exupéry. Não tinha nenhum contato prévio, e estava prestes a retornar ao Brasil quando um concierge do hotel conseguiu levantar o endereço de Olivier d’Agay. No ano seguinte, ela se tornava a representante dos licenciamentos no Brasil. Mas atenção: se a marca ainda rende dividendos aos herdeiros, o livro propriamente dito já caiu em domínio público. E isso explica, em grande parte, a súbita explosão de vendas que se viu no Brasil em 2015. Até então publicado só pela Agir – origialmente uma editora católica, fundada pelo crítico Alceu de Amoroso Lima, mas hoje um selo da HarperCollins Brasil, uma joint venture entre os grupos HarperCollins e Ediouro –, O PEQUENO PRÍNCIPE ganhou uma profusão de novas traduções e versões por várias editoras. Tem em livro de bolso ou capa dura, com dobraduras pop-up ou com cadernos de fotos sobre a vida do autor. Há até uma versão do texto mais simplificada, da própria Agir, que se anuncia como O PEQUENO PRÍNCIPE PARA CRIANÇAS. Como se o texto original fosse para adultos.

 

Saint-Exupéry não testemunhou o impacto de sua obra, nem pôde aproveitar o êxito comercial. A investida na literatura infantil, em 1943, foi tardia: exilado nos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial, foi incentivado por editores americanos, que viram sua habilidade como desenhista amador, a fazer uma obra para crianças. Até ali, seus livros, sempre destinados ao leitor adulto, falavam de uma paixão profissional: a aviação. Nos anos 20 e 30, o francês foi um pioneiro dos serviços de correio aéreo. Chegou a fazer uma linha que ia da costa brasileira (em algumas paragens, era conhecido pelos locais como “Zé Perri”) até a Argentina. O narrador adulto de O PEQUENO PRÍNCIPE, não por acaso, é um aviador. E foi como aviador que o escritor morreu, abatido, em 1944, por um caça alemão, quando fazia uma missão de reconhecimento na França ocupada. Os destroços do avião só foram encontrados em 2004. Tal como o Pequeno Príncipe no final do livro, Sait-Exupéry parece ter apenas desaparecido da Terra.

 

As estrelas são todas iluminadas… será que elas brilham para que cada um possa um dia encontrar a sua?”

 

Fonte: Revista VEJA/Bruno Meier em 24/02/2016