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Olhai os Lírios do Campo, de Erico Verissimo
Olhai os Lírios do Campo, de Erico Verissimo

O GRANDE SALTO DE ERICO

 

Divisor de águas na carreira de Erico Verissimo, recordista de vendas entre os seus romances, OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO completa 80 anos neste mês. O best-seller surpreendeu o público e a crítica – que não o recebeu bem à época.

 

Livro mais vendido de Erico Verissimo, segundo dados da Companhia das Letras, editora das obras do autor, OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO completa 80 anos neste mês. Exemplar literário que recebeu críticas negativas, ainda hoje é folheado por novos leitores como a obra que permitiu mudar a carreira do autor para sempre.

 

A partir de 1938, ano de publicação deste best-seller, Erico Verissimo foi considerado um estranho contador de histórias para a crítica literária. Ovacionado por uns, recusado por muitos, Erico sofria mordaz exigência, a ponto de ser considerado um escritor de segunda linha. Quando começou isso? Para o crítico Antonio Cândido, foi após o entusiasmo do primeiro momento – quando o autor ainda se estabelecia como modernista. O público feminino devorou as tramas paralelas dos personagens de OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO. Leitores enviaram muitas cartas para o escritor, na esperança de que ele pudesse resolver dificuldades de ordem sentimental, moral ou financeira. Mas a crítica não poupou palavras de rejeição a essa popularidade, e Erico chegou a ser considerado um autor “vulgar”. Não há um senso comum em torno das causas dessa rejeição inicial, mas convém lembrar que o gaúcho de Cruz Alta estava fora do eixo geográfico dos demais escritores modernistas, não tratou de temas regionais antes do lançamento da trilogia O TEMPO E O VENTO (1949) e sua posição ideológica era considerada duvidosa.

 

A década de 1940 foi turbulenta. Vivia-se momento similar ao de hoje, com complexo contexto político internacional, a II Guerra Mundial (1939´1945) e, no Brasil, o Estado Novo (1937-1945). Os romances do Nordeste tratavam da seca, do cangaço, dos personagens da economia do açúcar e do cacau. Havia, sem dúvida, uma literatura de fôlego, em uma situação que indicava mudanças de paradigmas. As formas objetivas da vida social que produziam e reproduziam a violência eram semelhantes às da atualidade. Para alguns (mas nem sempre para os autores), a literatura devia ser “de participação”. Havia pessimismo com a ascensão do nazifascismo, que atingia a representação do conjunto das obras literárias. Era notório que Erico não militava no ativismo político, ou seja, não exigia a revolução social e publicava livros que não incentivavam a transformação do status quo. Alguns o chamavam de “comunista”, mas não havia ponderação por parte dos críticos ferrenhos, como se o trato fosse capaz de marcar a sua imagem.

 

Numa época em que a Editora Globo realizava lançamentos de escritores estrangeiros até então desconhecidos, procurava-se descobrir aproximações entre aprosa de Erico e a dos ficcionistas de língua inglesa, como se outros autores também não respondessem à tradição literária francesa. Mas, passadas tatas décadas, pode-se concluir que a origem de tal “norma” em torno da validade de sua obra decorre mais de uma questão de perspectiva literária do que de penetração popular. Não creio que se deva negar ao romancista o que nasceu com ele: a vocação de contador de histórias, não a de salvador do mundo.

 

O romance divisor de águas da carreira foi, portanto, apenas uma história que Erico quis contar. É evidente que a valorização temática de OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO oscila de acordo com as perspectivas do leitor. Não é improdutivo afirmar que o escritor se empenhava em descobrir novas dimensões no romance urbano. Toda uma literatura regional se especializava nos conflitos do Interior, admiravelmente revelados por Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado. O início da saga literária modernista sucedeu com A BAGACEIRA, de José Américo de Almeida, de 1928. Romancistas e sociólogos procuravam redescobrir o Brasil, buscando as raízes com Sérgio Buarque de Holanda ou construindo uma vigorosa obra de interpretação com base nos alicerces da CASA GRANDE E SENZALA (1933), de Gilberto Freyre. A ficção de sentido urbano não crescia com a mesma potência. Da sua maneira, Erico redescobria o Brasil, a presentava a Porto Alegre daquela década, criado personagens deslocados na cidade, ainda com hábitos interioranos.

 

Em OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO, narrava a classe média apreensiva com as fatalidades do cotidiano. À espera do resultado do conflito mundial que se aproximava, ressurgiria talvez o mundo de paz com que a personagem Olivia sonhava? Pieguismo e sentimentalismo social são dois dos defeitos ainda hoje apontados na personalidade da protagonista feminina daquele tempo, que acreditava na mensagem cristã dos lírios do campo. Ora, o romancista criou-a de acordo com os condicionamentos sociais da época. O fato de se opor à concepção de vida da personagem, de admitir ou não a verossimilhança, pouco tem a ver com a arte da narrativa ficcional.

 

Nas décadas seguintes Erico foi muito reconhecido. Durante 50 anos, dividiu com Jorge Amado o centro da popularidade nacional. Nas décadas de 1960 e 1970, ele, Amado e José Mauro de Vasconcelos formavam o trio de os únicos autores a viverem de direitos autorais no país. Para Erico, a virada se iniciou com OLHAI OS LÍRIOS NO CAMPO.

 

Foi ali que o romancista incluiu na ficção brasileira uma de suas preocupações enquanto narrador: a justaposição do tempo e do espaço. O romance foi, na sua totalidade, estruturado por meio da técnica de intercalação temporal. A obra compreende uma alternação do presente com uma soma de cortes que revelam o passado das personagens.

 

Vale lembrar que, em 1937, Erico e sua esposa Mafalda instalaram-se numa casa da Rua Qui tino Bocaiúva, em Porto Alegre. Foi nessa residência que o escritor começou a escrever OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO. À época, Erico não estava satisfeito com o que havia publicado. Foi quando fez uma visita a um amigo no hospital. Ali, viu um homem jovem saindo de um quarto com um bebê recém-nascido nos braços. Cotaram a ele que a mãe havia morrido ao dar à luz a criança.

 

De acordo com o relato do autor em sua narrativa autobiográfica SOLO DE CLARINETA (1973), a história reverberava em sua cabeça, provocando ideias e imagens – que definiram o universo de OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO. Erico conta que aquela situação lhe provocara uma “exaltação interior (o exterior como de costume era de apatia crepuscular)”. Revela ter tido vislumbres do passado em cada um dos personagens do romance.

 

Em suas páginas, o romance registra os costumes sociais da época, considerados conservadores, sendo substituídos por um frenesi de consumo e ascensão social – temática de destaque da obra. As combinações de elementos que determinaram a grande aceitação do público encontram-se nas entrelinhas da trama, fora dela e na própria estrutura narrativa. Para compreender o sucesso, podemos estabelecer uma conexão entre a biografia do autor, as sugestões temáticas do romance e a aceitação destas por parte do público.

 

Após menos de 30 dias de seu lançamento, o livro já tinha todos os exemplares esgotados. Conforme lia-se nos jornais da época, não havia caso semelhante na história da literatura brasileira. A segunda edição, de julho de 1938, dois meses depois da primeira, traz a marca do êxito: as livrarias porto-alegrenses venderam, em média, 70 exemplares ao dia, número bastante expressivo para a época.

 

Ao Diário de Notícias, o chefe da seção de publicidade da Livraria do Globo, Antonio Barata, informava, no dia 30 de julho de 1938: “OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO é a primeira obra de seu gênero a conseguir tal performance em nosso país. Está, pois, de parabéns, não Erico Verissimo, mas a própria cultura do Rio Grande do Sul”.

 

Em 1940, o livro seguia esgotando edições. Erico achava que a conquista podia indicar uma fórmula do que o público queria consumir – o que considerava perigoso. Em sua autobiografia, o autor comenta só a aceitação da crítica menos sofisticada, esquecendo os dissabores. Com as invasões nazistas, a humanidade pedia por ficções acessíveis como válvulas de escape – como a que OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO oferecia. O sucesso levou a edições internacionais e, no Brasil, à venda de 2 milhões de livros. Na publicidade de lançamento do livro seguinte de Erico, SAGA, de 1940, OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO fora chamado reiteradamente de “um verdadeiro recorde nacional”.

 

A autorização para a publicação de uma tradução em espanhol surgiu em 1940, e, em inglês, em 1942. Mas CONSIDERER THE LILIES OF THE FIELD só foi lançado em 1948, pela editora Macmillam, de Nova York, com tradução de Jean Neel Karnoff. Em 1969, a mesma tradução ganhou nova edição, pela Greenwood, também de Nova York. O livro ainda teve versões em alemão, francês, russo, japonês, italiano e indonésio.

 

Diversos países puderam ler a história de Olivia, médica e mãe solteira que seguia sua vida com dignidade, apesar da filha nascida fora do casamento, caso malvisto à época. A atitude modernista do livro está caracterizada em grande parte por essa trajetória da personagem feminina. Já o casamento por interesse de Eugênio e o abandono do “sacerdócio” da medicina pela personagem masculina não geraram impedimentos do leitor e da crítica.

 

São três os personagens médicos: além dos protagonistas, há o professor Seixas, o mentor da narrativa. O romancista explora o exercício da medicina de maneiras diferentes, ilustrando o momento da profissão no país. Outra característica de sua modernidade: a valorização da medicina científica. Todos os personagens defendem a obtenção do diploma, pois o charlatanismo era comum à época, especialmente no caso de aborto, um tema tratado na obra.

 

Pode-se dizer que há um elo importante entre OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO e a história pessoal de Erico Verissimo. As experiências de seu avô, Franklin, na prática da medicina homeopática, e de seu pai, o farmacêutico Sebastião, compõem os bens das vivências familiares para escrever a história de Eugênio. Além disso, recordar o livro remete não apenas ao seu caráter de best-seller, mas sua aceitação permanente ao longo de 80 anos. É, como o seu autor, uma obra que não morre.

 

 

Fonte: Zero Hora/Caderno DOC/Márcio Soares dos Santos/Jornalista, doutorando em Letras pela UFRGS em 10/06/2018.