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Oswaldo Aranha, Uma Fotobiografia
Oswaldo Aranha, Uma Fotobiografia

PALAVRA COMO ARMA

 

Ao morrer, em janeiro de 1960, Oswaldo Aranha deixou uma longa lista de realizações no Brasil e no exterior. Um dos principais articuladores da Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder, e personagem fundamental da entrada do Brasil na Segunda Guerra ao lado dos Aliados, o político e diplomata gaúcho não imaginava que, 50 anos depois, seu nome estaria mais associado ao filé que batizou do que à política e à história do Brasil.

 

É como uma resposta a este esquecimento que o editor e neto de Aranha, Pedro Corrêa do Lago, escreveu OSWALDO ARANHA – UMA FOTOBIOGRAFIA (Editora Capivara). A obra traz centenas de imagens não só do gaúcho de Alegrete, mas também de diversas personalidades do século XX.

 

Corrêa do Lago era muito criança quando o avô morreu. Apesar de não se lembrar dele, diz que Aranha sempre esteve presente na memória familiar. Sua mãe, Dedei, a filha caçula, falava dele todos os dias. Ela foi responsável também por montar o significativo acervo familiar de onde saíram muitas imagens da fotobiografia. A primeira ideia do livro surgiu há mais de 20 anos, no centenário de Aranha.

 

Minha relação com ele é, ao mesmo tempo, próxima e distante. É o pai da minha mãe, mas eu tinha menos de 2 anos quando ele morreu. Não coloquei nenhuma foto minha com ele no livro porque não tenho (risos). Mas minha mãe era muito marcada pela presença do pai. Somos cinco filhos homens e crescemos ouvindo as histórias que ela contava”, lembra Corrêa do Lago.

 

A maior parte do livro se dedica à atuação de Aranha depois de 1930, até porque a juventude do diplomata já foi objeto do livro OSWALDO ARANHA, O RIO GRANDE E A REVOLUÇÃO DE 1930, do economista Luiz Aranha Corrêa do Lago, irmão de Pedro. Para evitar um tom excessivamente pessoal na biografia, o autor optou por dar voz a quem conviveu com seu avô e pesquisou sua vida.

 

Por ser parente, eu achava que podia não ser objetivo. Afoguei o livro em citações. São 500 depoimentos e 600 imagens que permitem ao leitor reviver três décadas fundamentais da vida do Brasil”, destaca Pedro Corrêa do Lago.

 

Aranha era simpático, não suscitava maiores oposições e ódios, ao menos que eu saiba. A não ser no Carlos Lacerda”, conta. O jornalista violentamente atacou Aranha em 1953, acusando-o de ter ajudado secretamente o jornal Última Hora, de Samuel Wainer, que vivia dificuldades financeiras. Na verdade, quem salvou o jornal de Wainer foi o conde Francisco Matarazzo, também atacado por Lacerda na sua Tribuna da Imprensa.

 

A principal arma de Oswaldo Aranha foi a palavra. Seu estilo era buscar o entendimento e, dessa maneira, abrir espaço para soluções. No período em que foi embaixador em Washington, na década de 1930, ele se aproximou de políticos e de homens do entretenimento, como Walt Disney e Orson Welles.

 

Após deixar o cargo, por discordar do golpe de Vargas, que deu origem ao Estado novo, aceitou assumir o Ministério das Relações Exteriores alguns anos mais tarde. Em 1947, se justificou: “Entrei para o governo não para servir ao Estado Novo, mas decidido a evitar a repercussão de seus malefícios internos na situação internacional do Brasil”.

 

No Itamaraty, Aranha costurou o acordo com os norte-americanos para a entrada do Brasil na guerra, que incluiu uma série de vantagens. Para isso, enfrentou uma disputa interna no governo. A Alemanha nazista contava com a simpatia dos generais Eurico Gaspar Dutra e Góes Monteiro, e do então ministro da Justiça, Francisco Campos.

 

Outro momento importante, lembra ele, foi na criação do estado de Israel. Ele ressalta que o avô não teve o “voto de Minerva” sobre a decisão, como muitas vezes é dito, mas agiu nos bastidores para convencer outros países latino-americanos e usou seu poder como presidente da 1ª Assembleia Geral Especial da Organização das Nações Unidas (ONU) a favor da causa.

 

Corrêa do Lago tem uma hipótese para o fato de o avô ser menos lembrado do que outras personalidades: as grandes aveninas já tinham sido batizadas pela geração anterior. “Com exceção do famoso filé, que eterniza o nome dele, ele não ficou associado a nada. Depois de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Rio Branco, já não havia mais grandes avenidas para a geração dele batizar. Se tivesse ganhado o prêmio Nobel, e foi por um triz que não ganhou, ele seria até hoje o único brasileiro”, finaliza.

 

Fonte: Jornal do Comércio/Panorama em 03/07/2017