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Pensando um País - Parte 8/Atrofiado e Dependente
Pensando um País - Parte 8/Atrofiado e Dependente

PENSANDO UM PAÍS – PARTE 8

 

AINDA SOMOS ATROFIADOS E DEPENDENTES?

 

A leitura para conhecimento e a reflexão para a decisão caminham lado a lado quando decidimos voltar nossa atenção ao que já foi dito e ainda ecoa pelas paredes do tempo presente.  Assim, lembremos de 1970, ano em que Antonio Candido, no ensaio LITERATURA E SUBDESENVOLVIMENTO, problematiza a respeito de certa “atrofia” intelectual brasileira resultante de uma obediência estética aos modelos culturais europeus.

O primeiro passo a fim de entendermos a nossa condição de atraso cultural estaria voltado para a análise das deficiências materiais que impedem o avanço de uma literatura nacional dependente da estruturação de um sistema de circulação das obras no meio social.  Como problema inicial, o analfabetismo, que destruiria aquele dinamismo sistêmico no tocante à categoria de público leitor.  Numa segunda falha sistêmica, alinham-se os meios de comunicação que carecem de melhor difusão no seu papel de disseminação cultural (editoras, jornais, revistas) e os escritores numa evidente “impossibilidade de especialização” em suas tarefas literárias.

 

 

Na esteira destes pensamentos sobre os motivos do subdesenvolvimento nacional, nada mais lógico que Antonio Candido introduza o conceito de dependência cultural como um “fato por assim dizer natural, dada a nossa situação de povos colonizados que, ou descendem do colonizador, ou sofreram a imposição de sua civilização”.  O crítico situa claramente os seus pressupostos quanto ao nosso “vínculo placentário” em relação às literaturas europeias, fato “quase natural”, que não deixa dúvidas sobre a constituição de um quadro de expressão artística nacional dependente das formas culturais importadas.  Paradoxalmente essa dependência poderia ser considerada o estágio inicial para a organização de “obras de primeira ordem” que, influenciadas por modelos europeus, fundariam uma causalidade interna de afiliações estilísticas; por exemplo, a literatura dos anos 1930 e 1940 teria sido fruto de um modernismo brasileiro.  No final dos anos 1960, tais concepções totalizantes cediam lugar a um discurso sobre os descaminhos e os descompassos entre o contexto cultural da América Latina e os padrões estéticos metropolitanos europeus.

 

 

Cabe a nós, portanto, reler Candido.  E hoje, após 45 anos da publicação desse seminal ensaio, ao relembrarmos mais um ano da independência nacional, perguntarmos se ainda somos dependentes.  Na bolsa de valores literários, já somos capazes de influenciar as literaturas do hemisfério norte?  É crível utilizar uma gramática teórica pautada pelos signos da atrofia e da debilidade cultural?  Ainda somos subdesenvolvidos culturalmente apesar do nosso protagonismo em grande eventos mundiais?  Ainda faz algum sentido idealizar um mundo das letras que esteja ameaçado pelo espectro da dependência e do anacronismo?  Ainda existe o medo de sermos um monstrengo regurgitado e composto pelos restos das altas literaturas?  Ainda somos seres-espantalho que habitam o quintal da cultural e político da literatura mundial?

Talvez qualquer resposta unilateral e definitiva seja temerária.  Somos habitantes limiares que sofrem de um inexorável torcicolo de paroxismos:  pois, se é verdade que a literatura nacional tem sido homenageada em Salões do Livro mundo afora, também não é menos verdade que sofremos com um vergonhoso ranqueamento mundial quanto aos índices de alfabetização.  Se não somos periferia, também não somos centro.  Talvez um entre-lugar intercambiante.  Até porque o binarismo margem e centro parece não resistir à realidade constelatória e rizomática da contemporaneidade.

 

 

Existe um ensinamento de Candido que deve sempre estar na nossa mesa:  “literatura é um direito”.  Mas esse direito ainda é para poucos.  O que nos afasta de uma espécie de partilha do sensível, da ternura e do afeto.  Afinal, a literatura humaniza em sentido profundo, “porque faz viver”.  Em última instância, a literatura também é tecnologia escapista de resiliência e sobrevivência.  É voar fora da asa, nas palavras de Manoel de Barros.  Que continuemos lutando para que mais brasileiros tenham acesso às epifanias das palavras-pássaro.

 

Fonte:  ZeroHora/Ricardo Barberena (Professor de Teoria Literária na PUCRS)

            Em 06/09/2015.