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Polêmica na Música Gaúcha Tradicionalista
Polêmica na Música Gaúcha Tradicionalista

POLÊMICA DE GALPÃO

 

Shana Müller diz que não é “china, nem égua, nem quer que o velho goste” e acende o debate sobre o machismo nas letras da música nativista.

 

Shana Müller: “Há uma diferença entre algo que é parte da história, como uma letra machista do passado, e algo que não pode ser perpetuado nela, que é essa visão de mundo sobre a mulher. O tradicionalismo não é intocável.”

 

Shana Müller chutou o pau da barraca. Ou do galpão, no caso.

 

Em um texto publicado no site do programa GALPÃO CRIOULO, da RBS TV, no dia 7 de abril, a apresentadora questionou a representação da mulher na música tradicionalista. O título é deveras autoexplicativo: “Não sou china, nem égua, nem quero que o velho goste.”

 

A reflexão de Shana parte de um dos refrãos mais populares e repetidos do cancioneiro gaúcho. Célebre, curiosamente, na voz de uma mulher, Berenice Azambuja: “Não precisamos ir longe. Quem de nós já não ouviu e/ou cantou junto “churrasco, bom chimarrão, fandango, trago e mulher. É disso que o velho gosta, é isso que o velho quer!” Ahãm. Bem isso: essas “coisas” quer o velho. Mas a gente não é coisa, a gente é gente, escreve Shana.

 

Apresentadora cita trechos mais pesados de outras canções, como “ajoelha e chora, quanto mais eu passo o laço, muito mais ela me adora”, antes de concluir: “A gente alimenta, incentiva, encoraja as situações de violência, de preconceito, de maus-tratos contra as mulheres. E isso está todos os dias na nossa vida, e a gente não percebe. A cada nove segundos, uma mulher é violentada, e música, sim, comprovadamente, incentiva isso. E pior: massifica o pensamento comum de que a mulher é menos, é coisa, é bicho!”

 

Após mais de 5,8 mil reações e mais de mil compartilhamentos em sua página no Facebook, a apresentadora avaliou a reação:

- Um pouco surpreendente até, eu diria. Recebi, inclusive, bastante reações de mulheres se posicionando contra o que eu disse. Dizendo que a tradição não tem esse intuito, ou que nunca se sentiram ofendidas. Ninguém é obrigado a concordar comigo. São coisas que eu mesma estou repensando. Que tantas vezes cantarolei antes de refletir sobre o que eu estava dizendo. Uns me mandaram ir criticar letras de funk. Ora, em não trabalho com funk – declara Shana.

 

Shana cita um texto de 2014 da violinista e etnomusicóloga bajeense Clarissa ferreira, chamado “Nem chinoca, nem flor, nem morocha: sobre o machismo e a música gauchesca”, publicado no blog Gauchismo Líquido. Nele, Clarissa cita um artigo científico que analisou 80 letras nativistas e as classificou em sete categorias conforme a representação da mulher. A mais numerosa, com 27 letras, era a que a mulher aparecia “coisificada”. Ou seja, comparada a um objeto a ser admirado, a um instrumento a ser tocado ou mesmo a um animal a ser domado ou consumido como carne.

 

- O texto da Shana é uma revolução. A revolução está em fazer as pessoas começarem a pensar sobre o assunto. Tanto os espectadores quanto os artistas precisam ter a consciência de que estão cantando e ouvindo. Querendo ou não assumir esse papel, o artista é um agente político. A partir dessa reflexão, ele vai decidir se vai continuar cantando. Mas a reflexão já é um passo adiante – elogia Clarissa, contente com o número crescente de meninas em trajes nativistas curtindo a página Gauchismo Líquido no Facebook desde a publicação do texto.

 

Seguir ou não cantando músicas misóginas, machistas, racistas, homofóbicas ou de qualquer forma desconfortáveis a algum segmento social é um debate recorrente. Este presente, por exemplo, no Carnaval passado, quando marchinhas tradicionais como Cabeleira do Zezé foram deliberadamente excluídas de alguns blocos de rua. Algo que o professor de Canção do Instituto de Letras da UFRGS, Guto Leite admite ser uma “questão espinhosa”:

- Em primeiro lugar quero deixar claro que sou Shana Futebol Clube nesta questão, e que as mulheres têm todo o direito de dizer “não aceitamos que vocês cantem mais isso para nós.” Em casos muito radicais de ofensa, não acho absurdo banir uma música de um repertório. Porém, é preciso lembrar que a arte é o espaço do contraditório. Às vezes, silenciando a arte, se silencia o lugar em que o debate floresce, nesse caso sobre a violência e o machismo – avalia Guto.

 

O professor cita como exemplo una polêmica da década de 1970, quando Gilberto Gil deixou plateias de cabelos em pé ao regravar a canção Minha Nega na janela. Em um dos seus trechos mais escabrosos, a letra diz: “Olhei pra ela e disse: ‘Vai pra cozinha.’ Dei um murro nela e joguei dentro da pia. Quem foi que disse que essa nega não cabia?”.

 

- Um cara como ele, autor de letras lindas como Super-Homem, cantar aquele horror era incompreensível para algumas pessoas. Mas o argumento era que ele cantando aquilo servia como um protesto. Mostrava para todo mundo que aquele tipo de atitude existia, não podia ser silenciada – conta Guto.

 

No caso da polêmica proposta por Shana Müller,a artista acredita estar passando por uma fase de avaliação crítica do seu repertório. Às vezes, a um custo alto. Preferiu, por exemplo, deixar de fora dos próximos shows um clássico – Cevando o Amargo, de Lupicinio Rodrigues – porque não julga ser um bom momento de cantar o termo “chinoca”. A artista esclarece que a motivação para escrever o texto não é fazer um acerto de contas com o passado do nativismo, mas, sim, uma preocupação com o presente e com o futuro da música regionalista.

 

- As pessoas acham que a ideia daquele texto veio do caso José Mayer. Não foi. Veio na gravação de um programa em que uma banda jovem nativista estava reproduzindo aquela velha representação da mulher como coisa. Então, há uma diferença entre algo que é parte da história, como uma letra machista do passado, e algo que não pode ser perpetuado nela, que é essa visão de mundo sobre a mulher. O tradicionalismo não é intocável- declara Shana.

 

PALAVRA DO COMPOSITOR

 

O que diz Luis Cláudio, compositor de Não Chora Minha China Velha, junto com Elton Saldanha, e de Ajoelha e Chora, parceria com Marquinhos Ulian e Sandro Coelho – as duas músicas foram apontadas como exemplos de letras machistas no texto publicado por Shana Müller no site do GALPÃO CRIOULO:

 

Eu sou amigo de longa data de Shana Müller, e nós estamos no mesmo lado ao pregar respeito à mulher. As duas letras citadas são sátiras ao gaúcho. Ajoelha e Chora surgiu de uma discussão entre amigos sobre quem mandava em quem nos casais, que tenho certeza que se repete entre amigos. E aí surgiu essa letra do homem que era bonzinho até virar o fio. Mas o laço, é bom deixar claro, não é um chicote. É uma boleadeira. Isso fica claro até na coreografia, que as mulheres fazem para os maridos nos nossos shows. Em Não Chora Minha China Velha, a espora é metafórica. Uma brincadeira com o ditado do gaúcho que é tão bagual que dorme de esporas. Na verdade é ‘desculpa se te machuquei com a minha grosseria’. E acho legal ressaltar que são duas brincadeiras que funcionam em um contexto, e em meio a dezenas de composições que já fiz mostrando a mulher de forma delicada. Observe Sentimentos:

 

Cada vez que eu abro o fole dessa gaita /

E me desmancho em acordes com sentimento /

Talvez seja pra esquecer aquela prenda /

Que por querer meu causou tanto sofrimento /

Cada nota que o fole sopra pra fora /

É um pedaço da vida deste peão /

Que por se encambichar assim profundo /

Só conseguiu machucar seu coração.”

 

 

 

 

Sou meio louco, bagaceira,

bebo um pouco / ninguém vai me segurar /

Não quero trago de graça,

Se bobear eu quebro a tasca /

E faço chinedo chorar / Não chora

Minha china veia , Não chora /

Me desculpe, se eu te esfolei com as

minhas esporas / Não chora minha

China veia, Não chora / Encosta a

Tua cabeça no meu ombro / E este

bagual veio te consola

 

Trecho de “Não chora minha china velha”

 

 

 

 

Tava cansado de me fazer de bonzinho/

Te chamando de benzinho de amor e de patroa /

esta malvada me usava e me esnobava /

e judiava muito da minha pessoa /

endureci resolvi bancá o machão / daí

ficou bem bom agora é do meu jeito /

de hoje em diante sempre que eu te chamar /

Acho bom tu ajoelhar e me tratar com respeito /

Ajoelha e chora / ajoelha e chora /

Quanto mais eu passo laço muito mais ela me adora

 

Trecho de “Ajoelha e Chora”

 

 

 

Fonte: Revista Donna ZH/ Caue Fonseca em 16/04/2017