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Por Que Ler Eça de Queirós?
Por Que Ler Eça de Queirós?

POR QUE LER EÇA DE QUEIRÓS?

 

A pergunta encerra, na verdade, uma afirmativa:  não se lê Eça de Queirós – ou se lê pouco.  E concordo.  Se lê pouco ou não se lê Eça de Queirós.  As causas são inúmeras, mas entre estas está o banimento de Eça dos programas escolares do ensino médio.  Numa redução ab ovo, pode-se ainda perguntar: e por que foi banido?  Seguramente as talentosíssimas, oficialíssimas e excelentíssimas pessoas que organizam nosso ensino médio – que está a ponto de caricatura – acharam que Eça fala de algo muito remoto, numa linguagem remota, de um país remoto.  Talvez sejam essas superlativas pessoas, elas, que vivam no mundo da lua.

Mas então, cumprindo com sobriedade meu dever de encomenda, passo a enumerar algumas razões pelas quais Eça de Queirós é um autor que deve ser lido.

 

 

Deve-se ler Eça pelo valor linguístico.  Foi Machado de Assis, nosso escritor maior do século XIX, quem reconheceu Eça como um dos grandes cultores da língua portuguesa, isso numa célebre resenha, de 1878, que fez ao romance O PRIMO BASÍLIO.  Resenha devastadora sob outros aspectos, mas que jamais põe em causa a linguagem.  Machado, aliás, louva o estilo de seu colega, brindando-o com dois adjetivos bombásticos:  “vigoroso e brilhante”.  E é coisa de louvar, a linguagem de um escritor?  Em circunstâncias normais, não, dado que um romance tem o dever mínimo de ser bem escrito.  Aqui, entretanto, enfatizamos essa qualidade necessária, visto que já é tempo de dizer: escreve-se muito mal, em nosso país.  Quantos e-mails já tive de devolver a seu autor pedindo que o escreva de novo, dizendo exatamente o que deseja, porque não entendi nada?  Há pessoas que enchem o bolso de vírgulas e depois as despejam sobre o texto – e salve-se quem puder.  Outras, ao contrário, não sabem que as vírgulas existem.  Nem ponto-final.  Ler Eça é uma boa maneira de começar a corrigir isso tudo.  Outros bons escritores também dariam o mesmo efeito, mas já que tratamos de Eça, vamos a ele.

 

 

Deve-se ler Eça pelo conhecimento que é capaz de gerar.  Ler um romance de Eça é conhecer a sociedade portuguesa do século XIX.  Autor realista, tudo passa prova de existente e, portanto, passamos a saber o intrincado jogo das influências políticas (OS MAIAS), o arrivismo, a prepotência das classes ricas ou aristocráticas ante as classes subalternas (o que está bem visível em A ILUSTRE CASA DE RAMIRES), a imoralidade de alguns membros da Igreja (O CRIME DO PADRE AMARO), a beatice cega, obtusa e egoísta (A RELÍQUIA), a hipocrisia ética (O PRIMO BASÍLIO) e assim por diante.  O leitor já descobriu a razão dessa necessidade de conhecimento: claro, é pela analogia que podemos fazer com o momento presente de nossa própria sociedade.  Já que nossos autores não demonstraram muito interesse em tocar nos problemas sociais, leiamos Eça de Queirós; é só mudar o nome das personagens, tirar-lhes a cartola, dar-lhes uma roupa do século XXI e fazer com que andem de Lamborghini em vez de carruagem de luxo.  Tudo está ali.

 

 

Deve-se ler Eça de Queirós pelo aprofundamento psicológico de suas personagens.  Cito aqui um belíssimo romance póstumo, saído em 1925, A CAPITAL, em que conhecemos uma personagem patética, Artur Corvelo, um interiorano irredutível em sua ingenuidade, querendo vencer em Lisboa – a capital de que se trata – apenas com seu talento do poeta e algum dinheiro que um tio lhe deixou por herança; o talento era uma fantasia romântica, e o dinheiro transferiu-se para os bolsos de falsos amigos.  O retorno de Corvelo à então sonolenta Oliveira de Azemeis, ele triste e conformado, é um ato de grandeza que, em sua pequenez, ele mesmo não soube avaliar.  Artur Corvelo é, sem ajuda nenhuma, uma das maiores personagens da literatura do Ocidente, comparável a Raskolnikóv, Jean Valjean, Aleksel Ivanovitch ou Lucien de Rubempré.  Se acham que estou a exagerar, leiam A CAPITAL!  Outros retratos psicológicos impecáveis não faltam, como da infeliz Luísa, do citado O PRIMO BASÍLIO, que vem acompanhada de personagens inesquecíveis de outros romances, como Carlos da Maia, Maria Eduarda, Raposão, João da Ega, Cônego Dias, Jacinto de Tormes e tantas outras figuras que povoam o universo ficcional do grande autor que, por bem retratadas, tornaram-se verdadeiras lendas – como o patético Conselheiro Acácio, do qual derivou, inclusive, o adjetivo acaciano, hoje plenamente dicionarizado.

Deve-se ler Eça de Queirós para saber como se escreve um romance.  De fato, o tecido estrutural de suas narrativas convence-nos de que aquilo tudo faz sentido, e que, para além das categorias lineares de começo-meio-fim, mostra-nos que cada obra é concebida como uma unidade orgânica, na qual que tudo se articula em torno de um conflito essencial, e que todos os episódios parecem derivar da simples presença do protagonista.  Nada fica ao acaso; é possível imaginar que Eça pensou bem, antes de se pôr a escrever, por exemplo, OS MAIAS.  Complexo, esse romance trabalha linhas narrativas que se cruzam, se atraem e se repelem.  O que poderia desbaratar a ideia de um escritor-amador é superado pelo domínio completo que o autor tem sobre o material narrado, de modo que nada nos surpreende por sua gratuidade.

 

 

Seria possível ultrapassar facilmente os 5 mil caracteres com a enumeração de todas as causas pelas quais se deve ler Eça de Queirós, e de certeza o leitor terá suas próprias razões para aumentar a lista; fiquemos por estas: lê-se Eça para dominar melhor nossa língua comum, para conhecer a sociedade em que vivemos, para entender melhor a psicologia humana e para aprender como se escreve um romance.

Convenhamos, isso não é pouco.

 

Fonte:  Correio do Povo – CS Caderno de Sábado/Luiz Antonio de Assis Brasil (Escritor) em 31 de outubro de 2015.