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Quando a Literatura Machuca
Quando a Literatura Machuca

Uma das coisas boas de ser professor é estar todos os dias com um leitor ou um possível leitor, ainda mais para quem é, além de professor, um escritor. E esse é o meu caso. Entretanto, a vida não é feita apenas de flores, há os espinhos. E nos bastidores da educação entramos em contato com muitos casos difíceis e tristes.

Certa vez, em uma das minhas aulas de “leitura”, leciono para séries iniciais do ensino fundamental, percebi que uma de minhas alunas estava ‘sem vontade’ de ler. Tenho em minha sala de aula uma biblioteca particular em caixas de papelão. Lá, cada aluno pode pegar o livro que desejar. Basta pegar e ler. Porém, essa aluna em especial não se mostrava adepta dessa minha prática. Pior, se negava em ler qualquer gênero ou tipo de leitura, nem gibis ela aceitava.

Primeiramente, deixei-a entregue à sua vontade, mas com o passar do tempo, minha curiosidade aliada à necessidade de ‘cumprir’ o meu dever de professora, fez com que eu enfim, decidisse questionar esse comportamento. E foi isso que fiz.

Ao ser indagada sobre o porquê de não ‘gostar’ de ler nada a aluna simplesmente me respondeu: “Não gosto de ler mentiras”. Eu fiquei intrigada. Quais seriam essas mentiras? Então, continuei o interrogatório ao qual ela me nocauteou: “São mentiras, tudo mentira. Nem todas as casas são coloridas, com dois quartos, banheiros lindos, salas enormes e uma família pra passear. Os livros mentem, enganam. Essas pessoas que escrevem essas mentiras deveriam ir lá em casa pra ver o que é lar. Eu nem tenho banheiro na minha casa!”.

Bem, depois desse depoimento, deixo a todos os leitores, professores e escritores a oportunidade de refletir sobre as nossas crianças, o nosso futuro e a produção literária. Para quem estamos lecionando? Para quem estamos escrevendo?