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Retificação
Retificação

 

                                                   Retificação

 

       Estou a cascavilhar-me por dentro como um condenado à morte, que repensa seus erros e clama perdão aos céus até pelos pecados que não foram cometidos. Escondo-me num beco escuro, lá bem dentro de mim e vejo nos seus estreitos a transgressão do imaginário. Que pecadora que sou! Não careço de atalhos para gritar o que me vai à alma, e, aquele beco frio que me pressiona a andar lenta e cuidadosamente, não me acolhe mais, antes, me sufoca. Tento esgueirar-me por outras veredas. Soltar meus bichos encurralados e fazê-los caminhar sem medo do humano que me espreita e me faz discernir.

 

       Deixei de acreditar no que vivi. Mas o passado aloja-se no meu imaginário como valiosa inferência, perpetuando-se até o último suspirar do tempo. Como afirma Gabriel Garcia Marques: “a vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para conta-la.” Não há como resistir às folhas apagadas de dias passados. Não resisto. Vejo a sombra do tempo a me contar coisas desse diário sigiloso, que escrevi entre dores e alegrias. É a minha essência gritando a construção inacabada do meu eu. Sobrevivo sobre os pilares que me atrevi a construir, pedra por pedra, na memória de uma longa caminhada. Lavro o passado em inscrições irretocáveis. Petrifico-o, mas sigo. Que história eu terei se não me apegar à origem de tudo?

 

       Entre o passado e o futuro há um hiato a ser preenchido. Uma nova história a ser construída. Vivida. A força dos sóis que nascem e renascem nos amanheceres da vida, se contrapõem à vulnerabilidade dos meus desejos. Como lidar com o mistério irreversível do tempo e da vida vivida? O peso da minha história grita dentro de mim, torturador, mas vencido pela construção do presente. É como uma casa em ruínas que tem a dignidade de ter sido morada de emoções várias, mas que vai ruindo e levando junto os seus fantasmas. Tenho agora, a urgência de reforma-la, reconstruí-la, antes que despenque eu, nas ladeiras da vida.

 

       Becos desertos e silenciosos resguardados em introspectivas estreitezas. Histórias vividas e findando-se para que outras possam nascer. No contrassenso do viver, ainda deliro sobre os escombros da alma já tão esfolada. É inerente aos seres, se cobrir e descobrir e feliz daquele que consiga se redescobrir nas fragilidades das emoções. Abstratas reconstruções de uma realidade singular que só eu tenho. Tempo fragmentado que junto em palavras, no refazer da vida. Vida de amor.

 

 

Lígia Beltrão