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Tesouro Dramático
Tesouro Dramático

TESOURO DRAMÁTICO

 

Eu precisaria tirar férias para ler o belo presente que recebi:  nove volumes sobre a literatura dramática do Rio Grande do Sul no século XIX.  Quem me brindou com o tesouro foi o autor da façanha, o pesquisador Antenor Fischer, que eu conhecia por ter participado como avaliador da sua banca de doutorado em Letras na PUCRS.    Antenor recolheu os textos das peças para a sua antologia e bancou a edição do próprio bolso:  25 conjuntos de nove volumes para bibliotecas e privilegiados como eu.  Os volumes de textos recolhidos estão organizados assim:  “Autores Primordiais e Textos Fundadores” (volume 1); “A Desonra como Machina Fatalis” (volume 2);  “O Jesuitismo na Alça de Mira” (volume 3); “O Divórcio em Cena” (volume 4); “O Drama Abolicionista” (volume 5);  “O Ideal Republicano” (volume 6);  “A Mulher como Autora” (volume 7);  “A Comédia” (volume 8);  Avulso:   “A Literatura Dramática do Rio Grande do Sul (Século XIX – Estudos Temáticos”.

O trabalho é o resultado de estágio pós-doutoral feito por Antenor Fischer, em 2004, na PUCRS, sob a orientação da professora Maria Eunice Moreira.  Fischer explorou o tema no mestrado e no doutorado.  Graças a esse tour de force – fica bem uma expressão estrangeira para dar charme ao texto –, temos acesso fácil a autores como Arthur Rocha, Aparício Mariense, Maria da Cunha, Anna Aurora do Amaral Lisboa, Hilário Ribeiro, João da Cunha e outros.  Por que Antenor Fischer foi gastar o seu tempo e o seu dinheiro com essa tarefa hercúlea (fazia tempo que não conseguia usar esse termo)?  Por idealismo.  Paixão pela cultura.  Por que não conseguiu uma editora comercial?  Porque é difícil encontrar compradores para tais acepipes (estou antigo hoje).  Por que não recorreu a leis de incentivo?  Talvez tenha esbarrado na burocracia.  Talvez não tenha conseguido.  Talvez nem tenha tentado.  Tomou o caminho curto e seguro:  bancar ele mesmo.

Antenor Fischer também publicou às suas expensas um “Dicionário de Autores da Literatura Dramática do Rio Grande do Sul”.  Entusiasmado, organizou um coquetel de lançamento para o qual convidou os 70 autores dos verbetes.  Compareceram uns dez.  É dura a vida dos que se dedicam aos livros nestas plagas sulinas.  Na verdade, é algo misterioso, de entrega, abnegação e sacrifício.  O sujeito faz por sentir necessidade de fazer.  Raramente obtém retorno, reconhecimento ou recompensa.  Admiro muito esses missionários.  Deixam marcas no mundo que, infelizmente, não são percebidas pela maioria.  Não importa.  Cumprem o que deve ser cumprido.  Praticam um a espécie de arqueologia de salvamento.  Recolhem ou organizam o que importa.

Acho que nem deveria ter contado essa história do coquetel.  Não me contive.  É tão característica do que se conhece e se passa nesse meio dito cultural.  Este nosso mundo anda muito esquisito.  Outro dia, no Espirito Santo, um pai quebrou os móveis porque o filho estava escutando Luan Santana.  Sou contra violência.  Mas se sabem que existem situações atenuantes.  Seria o caso?  Antenor Fischer mantém a elegância.  Convive com artistas do passado que merecem um futuro.

 

Fonte:  Correio do Povo/Juremir Machado da Silva (juremir@correiodopovo.com.br) em 24/10/2015