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Todas as Vidas do Gato
Todas as Vidas do Gato

TODAS AS VIDAS DO GATO

 

A MORTE DO SAXOFONISTA ARGENTINO GATO BARBIERI, EM ABRIL ÚLTIMO, DEIXOU UM VAZIO NO JAZZ MUNDIAL.

 

Poucas semanas depois da morte do percussionista Naná Vasconcelos, partiu Gato Barbieri.  Não é uma junção gratuita de obituários: Naná tocou em importantes discos de Gato e participou da revolução musical do saxofonista argentino.

 

A história não foi bem contada.  São relatos esparsos e mal documentados.  O caso é que Gato dividiu um apartamento com Naná e Glauber Rocha, em Nova Iorque, entre o final dos anos 60 e início dos 70.  O cineasta Gustavo Dahl recorda, no documentário “GLAUBER, LABIRINTO DO BRASIL”, testemunhar Gato e Naná improvisando loucamente na sala de estar enquanto Glauber preparava uma feijoada na cozinha com o telefone pendurado ao ouvido, estabelecendo suas conexões internacionais.

 

Gato fazia até então free-jazz, o subgênero mais radical do jazz, inaugurado por Ornette Coleman havia dez anos.  Gato contou que foi Glauber quem despertou sua latinidade, quem lhe fez perceber que sua originalidade estaria em misturar o jazz com os ritmos da América Latina.  Desse encontro com as ideias convulsivas de Glauber sobre uma arte pobre, revolucionária, oriunda do Terceiro Mundo, nasceu o disco THIRD WORLD, de 1969, que estabeleceu a identidade musical de Gato Barbieri, inaugurando uma série de discos emblemáticos pelo pequeno selo Flying Dutchman e a gigante Impulse.  No disco, a influência do cineasta baiano é explícita nas músicas “Antônio das Mortes”, composta por Gato; na versão da cantilena da “Bachianas Brasileiras nº 5”, de Villa-Lobos, usada em uma cena antológica de “Deus e o Diabo na terra do Sol”, e em “Zelão”, tema de Sérgio Ricardo, compositor deste e outros filmes de Glauber.

 

A relação de Gato com o cinema é estreita.  Começou a carreira na Argentina compondo trilhas, atividade que manteve, ainda que muito irregularmente, ao longo da vida.  Apaixonado pela sétima arte, muitas de suas músicas foram concebidas como filmes para os ouvidos, com uma ambientação e clima cinematográficos – por mais indefinível que isto seja.

 

Seu nome, sobretudo, ficará ligado para sempre ao mítico “Último Tango em Paris”, filme de Bernardo Bertolucci, de 1972, pelo qual ganhou um Grammy.  Um dos maiores escândalos da história do cinema, a película foi considerada obscena em toda parte nos anos 70.  Foi proibido, censurado, cortado, e até queimado, em muitos países.  No Brasil, estreou apenas em 1979, no período da abertura.  “Último Tango...” é marcado pela época: revela o desencanto com o “Maio de 68” e anuncia a cultura do narcisismo – o deslocamento da preocupação com o mundo para a obsessão com a vida privada, que viria a ser o marco dos anos 70 e atingiria níveis grotescos na década seguinte.  Hoje, sua obscenidade se dissolveu em meio à pornografia onipresente disponível na rede e, depois de todos os tabus destruídos, o filme se encontra no Netflix, para diversão de toda a família.

 

A música de Gato é essencial para o filme.  A mistura de erotismo latino e tragicidade argentina – sendo esta quase uma definição da sua obra – compõe o universo emocional das personagens vividas por Marlon Brando e Maria Schneider.  Gato fez música cinematográfica, pois compreendia e amava cinema. Compôs valsas, tangos, jazz, visando criar climas, emoções e um comentário musical específico para momentos importantes da história.  Gravou com orquestra, arranjada e regida por Oliver Nelson, o que só voltaria a fazer quando, ao final dos anos 70, gravou alguns discos de smooth jazz para a gravadora de Herb Alpert, A&M Records.

 

Há um caso curioso sobre a trilha sonora de “O Último Tango em Paris”.  Bertolucci contratara Astor Piazzolla para criar a música.  O genial revolucionário do tango pegou alguns temas antigos jamais gravados e os rebatizou com os nomes dos personagens, não tendo assistido aos copiões (versão bruta das filmagens).  Como estava empenhado no lançamento de um disco em Buenos Aires, atrasou o envio das composições para o diretor, que mudou de ideia e convidou Gato Barbieri, considerando que seu saxofone rascante e apaixonado se conformaria melhor à história daqueles desesperados amantes.  Foi uma bênção, pois a música de gato é original e diversa da que vinha gravando em seus discos, ao passo que a música de Piazzolla mantém a qualidade de suas composições desta época, excelente e em seu melhor período, mas não apresentando nenhuma particularidade.  O que não se sucedeu com Gato, que criou envolvido pela atmosfera do filme, pois assistia aos copiões em uma sala de cinema e em seguida paria as músicas lembrando das cenas.  Piazzolla, preguiçoso, apenas recomendou velhas composições.  As peças de Piazzolla descartadas para O “Ùltimo Tango...” seriam depois utilizadas por Francesco Rosi em “Cadáveres Excelente” (1976), uma obra-prima absoluta do cinema político.

 

Em CALLE 54, documentário sobre o jazz latino dirigido pelo espanhol Fernando Trueba – estupidamente negligenciado no Brasil, não tendo sequer sido lançado em DVD –, Gato declara sua paixão pelo cinema dizendo:  “Não se pode viver sem Rosselini”.  Ele estava certo sobre o diretor de “Roma, Cidade Aberta”.  Agora, com tristeza, também diremos: não se pode viver sem Gato Barbieri.

 

Ainda bem que o Gato tem muitas vidas.  Os discos podem não ser eternos, mas lhe darão sete, nove, ou mais vidas.  Há coisas sobre o amor, a paixão e a revolução, que só o saxofone de Gato Barbieri pode dizer.

 

 

Fonte:  Correio do Povo/Juliano Dupont (Graduado em Cinema pela Unisinos (Realização Audiovisual) e colunista do www.leouve.com.br) em 14 de maio de 2016.