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Ulysses, de James Joyce em Joyce era Louco?
Ulysses, de James Joyce em Joyce era Louco?

PASSEIO NO LABIRINTO DA LOUCURA

 

Crítico Donaldo Schüler lança livro em que discute a insanidade na obra de James Joyce – no Bloomsday, dia que marca a celebração da obra-prima do escritor, ULYSSES.

 

O ULYSSES de James Joyce, quase cem anos depois de sua publicação, ainda é um marco incontornável da arte literária. E foi se tornando mais moderno ao longo do tempo – suas invenções radicais foram tão copiadas que hoje o livro é menos “incompreensível” do que quando foi lançado, em 1922. E Joyce o encheu de enigmas suficientes para manter ocupado, em suas próprias palavras, um “leitor ideal com uma insônia ideal”. Mais do que uma obra genial, Joyce criou uma obra de loucura genial – é o que defende o crítico, professor e tradutor Donaldo Schüler em JOYCE ERA LOUCO?, ensaio que será lançado hoje (em 16 de junho) em Porto Alegre como parte das comemorações, o dia que admiradores escolhem para discutir e celebrar o romance central do século 20.

 

Donaldo Schüler é um dos grandes especialistas brasileiros na obra de Joyce. Assinou a tradução integral FINNEGANS WAKE (Finnicius Revém, título inventado por Haroldo de Campos), que saiu em volumes no Brasil a partir de 1999 pela mesma Ateliê Editorial que publica este ensaio. Considerado ilegível e intraduzível, FINNICIUS REVÉM tem poucas versões integrais em outros idiomas (francês, japonês e alemão, por exemplo).

 

A pergunta feita no provocativo título não é de Donaldo, e sim do psicanalista Jacques Lacan (1901-1981), que abordou a relação entre arte e loucura no LIVRO 23 de seu O SEMINÁRIO. Partindo da obra de Lacan, Schüler analisa facetas do trabalho de Joyce. Uma das seções discute a aproximação entre arte e louccura. Outras duas representam uma leitura detalhada de significações e temas do ULYSSES e do FINNEGANS WAKE (o capítulo sobre ULYSSES faz um belo díptico se lido logo antes ou depois de SIM, EU DIGO SIM, guia de leitura publicado em 2016 por outro tradutor de Joyce, Caetano W. Galindo).

 

JOYCE ERA LOUCO? É um livro em que Lacan é tão importante quanto Joyce: para Schüler, a psicanálise foi um dos primeiros campos intelectuais a despertar bem cedo para Joyce e sua criatividade.

 

- A partir de Lacan, as sociedades psicanalíticas se interessam muito por Joyce. Foi uma sociedade psicanalítica aqui em Porto Alegre que me levou a traduzir o FINNEGANS WAKE, por exemplo. A orelha deste livro é de um psicanalista, o Edson Souza, da sociedade lacaniana Appoa, aqui de Porto Alegre. Esse interesse da psicanálise por James Joyce e por seu processo de inventividade é um dos elementos que contribui por ampliar o interesse pela obra dele no mundo – analisa Donaldo.

 

Não é à toa que o lançamento de hoje (16 de junho), no Instituto Ling, trará Donaldo debatendo seu livro com duas psicanalistas, Laura Benites e Fernando Bernd, que discutirão os limites do que se pode qualificar como loucura. Embora seja o autor da obra que serve de mote para o papo, Donaldo diz que está mais interessado em ouvir a discussão do que apresentar as ideias do livro – elas já estão no livro.

 

- O debate vai ser com elas. Vou estar presente só porque escrevi o livro, mas acho que quem o escreveu deve dar voz, agora, aos leitores. De modo que minha presença será discreta – diz Schüler.

 

FESTAS NO ESTADO PARA OS FANÁTICOS POR JOYCE

 

ULYSSES é um livro que acompanha 18 horas na vida do personagem Leopold Bloom no dia 16 de junho de 1904 – data de significação pessoal para Joyce, seria o dia de seu primeiro passeio ao lado de Nora Barnacle, que se tornaria sua esposa. Desde sua publicação, ULYSSES foi saudado como um ponto sem retorno na arquitetura do romance como gênero. O livro é tecido como um catálogo de modos de narrar, repleto de variações de estilo e fluxo de consciência que abolem a explicação mastigada sobre quem está falando ao longo do livro – Joyce não criou nada que não estivesse na perspectiva das vanguardas. Mas ele leva as experiências dessas vanguardas até as últimas consequências – diz Donnaldo.

 

O Bloomsday é comemorado anualmente por leitores de todo o mundo, tão fanáticos e apaixonados quanto frequentadores de convenções de quadrinhos. Em Porto Alegre, o Bloomsday será celebrado no Instituto Ling não apenas com o lançamento do livro de Donaldo, mas com a presença da artista Elida Tessler fazendo uma leitura do romance ao longo do dia.

 

No Estado, a mais tradicional celebração do Bloomsday é realizada em Santa Maria há mais de duas décadas. A edição deste ano, curiosamente, também se liga à loucura.

 

- A ideia básica é homenagear os 110 anos da Lucia Joyce, filha do homem – comenta Aguinaldo Severino, organizador do Bllomsday santamariense.

 

Bailarina na juventude, Lucia (1907-1981) era esquizofrênica e passou a maior parte de sua vida em instituições – o que também afetou profundamente seu pai.

 

Fonte: ZeroHora/2º caderno/Carlos André Moreira (carlos.moreira@zerohora.com.br) em 16/06/2017.