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Um Tour Pelo Lado Negro da Internet
Um Tour Pelo Lado Negro da Internet

UM TOUR PELO LADO NEGRO DA INTERNET

 

Se você acha que conhece a internet, você está completamente enganado.  Você conhece apenas a “ponta do iceberg”: a internet cujos sites (Facebook, YouTube, UOL, ZeroHora) são endereçados no Google.  Por baixo da ponta do iceberg, existe uma imensidão de conteúdo que não é endereçavel pelo Google por estar por trás de Firewalls, protegidas por senhas, armazenadas em sites privados etc.  Conhecida como a Deep Web e estimada em ser quinhentas vezes maior do que a internet que conhecemos, ela contém banco de dados acadêmicos, como LexisNexis, de patentes ou de dados governamentais como o censo.  Porém, a Deep Web também contém o lado negro da internet: uma infinidade de sites de atividades criminosas ou com material devasso.  E, por isso, eu prefiro me referir ao corpo desse imenso iceberg que você não conhece como a internet negra.

Você pode comprar tudo que é ilegal na internet negra: qualquer tipo de droga, armas, munições e explosivos, vírus e malware para infestar computadores, mercadorias roubadas, notas de dinheiro falsificadas, passaportes e vários tipos de documentos, dados pessoais, de cartões de crédito, contas bancárias com senhas, informações detalhadas de pessoas com dados comprometedores (e.g., fotos) a serem usadas para chantagem, qualquer tipo de pirataria (música, filmes) etc.

Na internet negra, você pode contratar um assassino para matar uma pessoa, um hacker para roubar material sigiloso de qualquer computador... Você pode visitar sites com os piores conteúdos de pornografia, incluindo pedofilia, que lhe permitem classificar o material por idade da criança ou até mesmo com sexo ao vivo que lhe permitem passar instruções a serem executadas para você assistir em tempo real.  Você pode comprar um órgão do corpo (rim, pele, olhos, fígado, etc.) e até mesmo uma pessoa através de sites de venda de vítimas de tráfico humano (inclusive crianças)... É doentio!

Mas por que você não depara com a internet negra nos seus passeios diários pela internet?  Porque as ferramentas que você usa não lhe permitem penetrar esse mundo obscuro.  Você acessa a internet que conhecemos com o seu navegador: Chrome, Firefox, Internet Explorer digitando o endereço (ou URL) desses sites ou clicando num link para tal endereço nos resultados do Google, postagens no Facebook, etc.  Cada vez que você “chega” a um desses sites, a sua localização aproximada (e.g., Porto Alegre, Caxias, etc.) pode ser identificada através do endereço digital da sua conexão (endereço IP).

Criminosos não gostam disso.  Eles não querem que a polícia descubra nem a localização dos computadores fazendo acesso a sites clandestinos, nem a localização de tais sites.  Por isso, na internet negra os acessos são feitos através de navegadores especiais, tais como TOR (The Onion Router), que garantem total anonimidade dos sites e dos acessos a estes através de dois mecanismos básicos.

Primeiro, TOR redireciona todas as conexões por uma rede de mais de 5 mil computadores distribuídos através do mundo.  Assim, um tráfego na internet negra pode passar por San Francisco, Tóquio, Londres, Bangcoc e Roma antes de ser transmitido ao seu destino final – no Rio de Janeiro.  Segundo, TOR possibilita o acesso a sites especificamente criados para aceitar somente conexões feitas por TOR.  Esses sites não usam os conhecidos sufixos .com, .com.br, mas o sufixo .onion, e rejeitam qualquer tentativa de conexão pelos navegadores que usamos.

TOR, portanto, garante duplamente a anonimidade das conexões na internet negra, tornando impossível a descoberta da origem e do destino de qualquer conexão e, desta forma, permitindo que criminosos trabalhem sem perigo de serem pegos.  Com isso, atividades clandestinas na internet negra crescem de forma assustadora.  Já eram mais de 50 mil sites acessíveis somente por TOR na internet negra em 2013.  TOR já tinha sido baixado mais de 150 milhões de vezes e é usado diariamente por mais de 2 milhões de pessoas.

Como se estima que 85% desses 2 milhões estejam envolvidos em operações ilegais, é muito provável que tenhamos l,7 milhão de criminosos praticando cybercrime diariamente.  E as operações clandestinas aumentam.  Hoje em dia, também terroristas estão se utilizando da internet negra, pois agentes secretos utilizando-se de TOR observam um crescimento enorme de sites para recrutamento, treinamento e comunicação entre grupos terroristas e seus membros.

Nesses sites, encontra-se material explicativo para operações terroristas, construções de bombas, informações detalhadas de possíveis alvos de ataque etc.  Isso é confirmado pelo fato de encontrarmos, com mais frequência, vídeos no YouTube e informações na “nossa” internet encorajando e ensinando terroristas a usarem a internet negra.

É claro que também existem vários usos positivos de TOR e da internet negra.  Ele é muito utilizado por dissidentes políticos e líderes de oposição em países como China, Síria e Irã para se comunicar, organizar demonstrações e acessar sites que são proibidos nesses países (como sites de jornais estrangeiros, YouTube, Facebook).

Essas ferramentas também permitem que jornalistas operem nesses países e possam transmitir suas reportagens burlando o controle do governo sem ficar preocupados com sua segurança.  E foram esses benefícios que levaram o laboratório de pesquisa da marinha americana, com o apoio do Departamento de Estado, a desenvolver em 2004 as ferramentas que deram origem à internet negra.  Mas, infelizmente, não há dúvida de que o maior uso de TOR e da internet negra é para cybercrime.

Muitos de nós achamos que conhecemos bem a internet, mas, na realidade, não a conhecemos.  A internet que conhecemos (a ponta do iceberg) é apenas 0,2% de toda a informação disponível online.  Uma grande quantidade dos outros 99,8% está na internet negra: um mundo subterrâneo de onde organizações de cybercriminosos e de terrorismo, além de dissidentes políticos e jornalistas ameaçados, operam.  Mas, talvez, seja bom que não conhecemos a internet negra, uma vez que 85% do que se encontra por lá são atividades ilegais, clandestinas e de alto risco.

 

Fonte:   Nelson Mattos (nelson.m.mattos@gmail.com) Doutor em Ciências da Computação, gaúcho, residente no Silicon Valley, Califórnia/Jornal ZeroHora de 09/08/2015.