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Voar
Voar

                                                   

                                                    VOAR

 

       Sei lá porque cargas d’água resolve se mexer numa gaveta fechada, que um dia foi desprezada para não mais se sofrer. Reavivo memórias. Sou história inacabada que a vida escreve, agora despudorada, porque viver não é pecado. A vida é para isso. Para ser vivida. Para acumular histórias, mas será certo abarrotar gavetas mofadas e cutucá-las de quando em vez? Estou a voar. Os meus sonhos são alados e querem transpor o infinito. Egoísta que sou. Esmoreço ao primeiro suspiro do desencanto e me parto em tantos pedaços que me desconheço. Ou esta é que é a verdadeira criatura que escondo numa máscara risonha de que tudo posso? Não. Não me entregarei jamais aos desenganos. Afinal, socorre-me Teágenes (século VII a. C.) com sua sentença: “A esperança é a única deusa sensata dos homens”. Assim vejo a vida agora. Lembro pessoas que deixaram exemplos de força e de coragem. Que não seja em vão. Penso.

       Já dissera a fabulosa artista plástica mexicana, Frida Kahlo: “Para que preciso de pés se tenho asas para voar”? Grande frase! Tão grande que hoje a relembro e os meus sonhos alimentam os meus desejos mais crescentes. Ela falou isso, quando perdeu os pés, por conta da sua grave doença. Continuou a pintar. A sua arte colore o mundo fazendo-a mais viva que nunca. E eu, penso naquela mulher que lutou até o fim, sem se deixar abater. Grande mulher! Seu nome completo era Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón, mas ficou conhecida e famosa como Frida Kahlo, e foi uma importante pintora mexicana do século XX. É considerada por alguns especialistas em artes plásticas, uma artista que fez parte do Surrealismo. Porém, a própria Frida negava, pois dizia que não pintava sonhos, mas sua própria realidade. Destacou-se ao defender o resgate à cultura dos astecas como forma de oposição ao sistema imperialista cultural europeu. Nasceu na cidade de Coyacán (México) em 6 de julho de 1907 e morreu na cidade de Coyacán (México) em 13 de julho de 1954, de embolia pulmonar, após uma pneumonia. Neste mês celebram-se 108 anos de nascimento e 61 anos da sua morte.

       Estudou, no início da juventude, na Escola Preparatória Nacional. Com 18 anos de idade sofreu um grave acidente de ônibus. Para ocupar as horas vagas, durante a recuperação, passou a pintar. Em agosto de 1929, casou-se com o pintor mexicano Diego Rivera com quem teve um casamento tumultuado e instável. Morou nos Estados Unidos com ele entre os anos de 1931 e 1934. Divorciou-se de Rivera em 1939, embora tenha continuado sua relação com ele nos anos seguintes. Em 1939, Frida expôs sua obra em Paris, na galeria Renon et Collea. Deu aulas de introdução à pintura, a partir de 1943, na Escola La Esmeralda na Cidade do México. Sofreu três abortos durante a sua vida marcada por sofrimentos imensos, e maiores, após o divórcio, pelo consumo abusivo de álcool. Dizia que era para aliviar o sofrimento. O seu trabalho abordava temas pouco ortodoxos com uma estética muito próxima do Surrealismo. Tinha influência da arte folclórica indígena mexicana, cultura asteca, tradição artística europeia, marxismo e movimentos artísticos de vanguarda. Pintou muitos autorretratos, paisagens mortas e cenas imaginárias, usando cores fortes e vivas e temas de sua própria vida, com a presença de objetos simbólicos em suas obras.

       Foi parando para abrir uma gaveta da vida, que lembrei essa mulher tão à frente do seu tempo. De como suportou dores imensas. E eu, não posso ser forte ao estar morrendo de saudades da vida que ainda vou viver? Ora! Que toquem todas as trombetas e que os céus chorem por mim, pois a felicidade de viver é única. A vida, indefinida, como um quadro impressionista, fala-me de amor. A única certeza que tenho é que a gaveta do ontem está fechada. O resto... Ao pousar as asas saberei.

 

Lígia Beltrão