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Poemas, de Eduardo Guimaraens
Poemas, de Eduardo Guimaraens

EDUARDO GUIMARENS EM FERNANDO PESSOA

 

Escrito em 1926, em francês, pelo gaúcho Eduardo Guimaraens, o livro POEMAS recebe lançamento bilíngue (Libretos), com tradução de Lívia Petry e Alcy Cheuiche.

 

Quem visita (visitou) a exposição FERNANDO PESSOA – MINHA ARTE É SER EU no Santander Cultural encontra ao fundo do salão o retrato e uma pequena vitrine com um resumo da obra do poeta gaúcho Eduardo Guimaraens, o que suscita a pergunta: em que momento teria o jovem autor de DIVINA QUIMERA cruzado sua trajetória com a do maior nome da literatura portuguesa do século 20? Sua participação na Orpheu, publicação que inaugura o modernismo na literatura lusitana, sequer é mencionada na alentada biografia escrita por seu amigo Mansueto Barnardi. Mesmo para nós, netos do poeta, essa vinculação até há pouco tempo era apenas um resquício biográfico sem a dimensão do que significava, até que minha prima Maria Etelvina visitou a Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.

 

- Na entrada, o grande mural da exposição “Nós os de Orpheu” mostrava os colaboradores da revista. Passei reto pelo mural. Queria absorver a exposição e suas surpresas uma a uma. Seguindo o caminho orientado para o circuito da exposição, pegamos o elevador e subimos ao terceiro andar. Lá encontramos o poeta em sua Lisboa, as imagens que nos levavam a penetrar no mundo da Orpheu. Descendo, então, pelas escadas, no entrepiso, encontramos Eduardo Guimaraens, o Brasileiro Esquecido num amplo painel, fotografias, sua poesia, alguns dados sobre sua vida (a data de nascimento constou equivocadamente como 1882, quando fora 1892). Surpresa, emoção, arrepio, as pernas afrouxaram. Sabia da importância da poesia de meu avô na literatura brasileira, poeta simbolista sempre referido. Sabia de sua participação nas diversas revistas literárias de sua época. Mas nunca imaginei encontrá-lo na Casa Fernando Pessoa.

 

O mural fornece as pistas de como nosso avô teria ele chegado às páginas da Orpheu. Com apenas 16 anos, Eduardo Gaspar da Costa Guimarães publicou seu primeiro poema, o soneto AOS LUSTRES, no Jornal da Manhã. Neste mesmo ano, seu pai e grande incentivador, o português Gaspar Eduardo da Costa Guimarães, financiou a edição de seu primeiro livro de poesia, CAMINHO DA VIDA.

 

Em pouco tempo, já publicava crônicas, traduções, artigos, poesias em diversos periódicos de Porto Alegre, Jornal do comércio, Folha da Manhã, Diário, A Federação e Correio do Povo, já com o sobrenome alterado para “Guimaraens”. Integrava o chamado “Grupo da Praça da Misericórdia”, com Álvaro Moreyra, Felipe d’Oliveira, Homero Prates, mas interagia com as demais turmas de jovens escritores e aspirantes a tal, que movimentavam a cena literária da belle époque porto-alegrense, os grupos do Correio do Povo, da Livraria do Globo, da Praça da harmonia. Assinava suas obras como Eduardo Guimaraens, mas muitas vezes simplesmente E G, além dos vários pseudônimos que utilizava, entre eles Antonius. Poeta simbolista, também foi escritor, tradutor e jornalista.

 

Entre 1912 e 1913, provavelmente a convite de seu grande amigo Álvaro Moreyra, viveu no Rio de Janeiro, onde publicou nos jornais A Hora, Rio-Jornal, A Imprensa, Boa Hora e, principalmente, na revista Fon-Fon!. Neste período, através do poeta Ronald de Carvalho, conheceu o português Luis de Montalvor. Os três tornaram-se companheiros inseparáveis. Quando retornou a Portugal, Montalvor participou da fundação da revista Orpheu, na companhia de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Para o segundo número, em 1915 Luís de Montalvor solicita a Ronald de Carvalho que lhe envie poesias de poetas brasileiros, que lhe responde: “Escreverei ao Eduardo para satisfazer o que me pedes. Mandarei versos do Àlvaro, do Homero, do Ernani, a prosa de Alcides Maia e, talvez, do Graça Aranha.”

 

Esta correspondência deu origem à publicação de três poemas de Eduardo na Orpheu 2: “Sobre o Cysne de Stéphane Mallarmé”, “Folhas Mortas” e “Sob os teus olhos sem lágrimas”.

 

Ah! Não dirás por certo

que não te amei, que não sofri!

Foi-me a tua alma assim como um salão deserto

onde, uma noite, me perdi.

Um ramos de violetas fenecia

em cada móvel amortalhado pelo pó;

a púrpura das cortinas, rubra, estremecia

presa a cada janela. Eu hesitava, só.

- E era meu coração, por ti quase ferido

a dúvida infantil que o emudece já,

um velho piano adormecido

que ninguém mais acordará”.

 

Em 1916, já de volta a Porto Alegre, Eduardo Guimaraens escreveu sua obra-prima, DIVINA QUIMERA, que teria uma reedição ampliada com uma biografia do poeta escrita por seu amigo Mansueto Bernardi, em 1944. Eduardo faleceu em 1928, aos 36 anos, quando ocupava o cargo de diretor da Biblioteca Pública do Estado. Em 2003, foi lançada a obra póstuma DISPERSOS, reunindo poemas guardados pela família, com organização da professora Maria Luiza Berwanger da Silva.

 

 

Na exposição de Fernando Pessoa, encontramos o retrato pintado por Helios Seelinger em 1915 e, na sua vitrine, dentre outros documentos, a segunda edição da DIVINA QUIMERA, um exemplar de “Canto V de Dante” (publicada em 1920), primeira tradução brasileira da DIVINA COMÉDIA, de Dante Alighieri, páginas manuscritas e uma página datilografada do original de NÚPCIAS DE ANTÍGONA, adaptação que Eduardo fez poema trágico da obra de Sófocles.

 

Em virtude da exposição, os netos – Eduardo, Beatriz, eu, Gabriel (in memorian), Maria Etelvina, Silvia, Virgínia e Ana – decidimos publicar o livro inédito POEMAS (Libretos), escrito em francês. A obra, cuja capa foi desenhada pelo próprio poeta há 95 anos, tem apresentação de Maria Etelvina Guimaraens e tradução de Alcy Cheuiche e Livia Jahn Petry. O lançamento foi no sábado passado, dia 10 (novembro/2018), na Biblioteca Pública do Estado.

 

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Rafael Guimaraens/Jornalista e escritor em 17/11/2018.